Resumo
Este trabalho investiga o carnaval de Curitiba como fenômeno social que articula produção artística, ação intelectual e estruturas históricas de poder. Com base em pesquisa antropológica realizada em três períodos etnográficos (2008–2010; 2011–2013; 2025–2026), junto às escolas de samba e à cultura do samba na cidade, analiso essas experiências como práticas que produzem pensamento social (Gramsci, 1982), instituem normatividades próprias (Ribeiro, 2019; Nascimento, 1989; 2021) e tensionam dispositivos de reconhecimento.
O carnaval consolidou-se como objeto das ciências sociais a partir de Roberto DaMatta (1979), que o interpretou como ritual de inversão das hierarquias sociais. Em contraposição, Maria Isaura Pereira de Queiroz (1992) destaca sua dimensão reprodutora das estruturas sociais. Nessa tradição, compreendo o carnaval em Curitiba como arena em que hierarquias sociais, raciais e territoriais são atualizadas e negociadas (Blum, 2013).
Desloco a análise para contextos periféricos ao eixo Rio–São Paulo, onde o carnaval explicita disputas por reconhecimento cultural e pelo direito à cidade, entendido, à luz de Henri Lefebvre (1991 [1968]), como participação na produção do espaço urbano. A hipótese central é que o samba constitui um “fato social total” (Mauss, 2003), mobilizando economia, política, estética e religião.
Em Curitiba, o samba confronta projetos identitários de matriz europeizada do início do século XX, como o Paranismo (Sanches, 1997), formulado por elites na construção de identidade regional branca e civilizatória. Nos anos 1970, com o Plano Diretor e a criação da Fundação Cultural de Curitiba nas gestões de Jaime Lerner (PDT) e Saul Raiz (ARENA), consolida-se a “nova” Curitiba. Com a redemocratização, José Richa e Roberto Requião (PMDB) introduzem a noção de “cultura local”, marcada por leitura do popular orientada pelas esquerdas e por traços paternalistas (Baptista, 2007).
Essa trajetória revela a hierarquização das práticas culturais e quais expressões recebem investimento e visibilidade. Nos primeiros períodos de campo, a FCC e a mídia sustentavam que o carnaval “não se encaixava” na identidade local. Embora, desde 2015, haja maior visibilidade aos blocos e ao “carnaval diverso”, o samba permanece à margem dos regimes dominantes de legitimação cultural, sobretudo quando comparado ao investimento destinado ao Natal em Curitiba.
Essa marginalização articula-se ao “monopólio do carnaval”: a concentração histórica de recursos e visibilidade no Rio de Janeiro e em São Paulo. Dados de 2026 do Ministério da Cultura, Embratur e FENASAMBA evidenciam assimetrias no financiamento público, reforçando desigualdades territoriais e epistemológicas (Quijano, 2001 e 2005; Chakrabarty, 2000).
A análise é atravessada por gênero, raça, classe e território: mulheres, pessoas negras e sujeitos periféricos sustentam as redes que garantem a continuidade do samba. A pergunta “Curitiba tem samba?” expressa menos dúvida empírica que disputa por reconhecimento político.
Concluo que o carnaval de Curitiba evidencia como sambistas produzem pensamento social e disputam em ordem cultural marcada por referenciais eurocentrados. Nesse contexto, a democracia cultural (Botelho, 2001) implica que o Estado favoreça a expressão culturais e garanta meios para que coletividades se cultivem segundo identidades. Trata-se de processo conflitivo de legitimação, no qual o samba se afirma como prática instituinte da cidade.
Referências
BAPTISTA, Selma. 2007. “Academia.edu”. Carnaval curitibano. Notas introdutórias ao seu estudo. Perfomance, Mediações e Políticas Culturais. Disponível em: <https://goo.gl/iE8WrW>
BLUM, Caroline Glodes. Carnaval curitibano: o "lugar" de uma festa popular na cidade. 2013. 192 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Antropologia Social, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2013.
BOTELHO, Isaura. As dimensões da cultura e o lugar das políticas culturais. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, Vol. 15, n. 2, p.73-83, abr./jun. 2001
DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1990. [1979]
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. (Coleção Perspectivas do Homem, v. 48, Série Filosofia).
LEFEBVRE, Henry. O direito à cidade. São Paulo: Editora Moraes Ltda, 1991.
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
NASCIMENTO, Beatriz. Ôrí. Direção: Raquel Gerber. Brasil: 1989. 1 filme (131 min). Documentário.
NASCIMENTO, Beatriz. Eu sou Atlântica. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
QUIJANO, Aníbal. “Poder y derechos humanos”. Em: PIMENTEL SEVILLANA, Carmen (ed.). Poder, salud mental y derechos humanos. Lima: CECOSAM, 2001.
QUIJANO, Aníbal. “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”. Em: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais – perspectivas latino-americanas. Tradução de Júlio César Casarin Barroso Silva. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
QUEIRÓZ, Maria Isaura Pereira de. Carnaval brasileiro: o vivido e o mito. São Paulo: Brasiliense, 1992
RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.
SANCHES, Mario Antonio. 1997. O negro em Curitiba: A invisibilidade cultural do visível. Dissertação. Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1997.