Resumo
O objetivo deste trabalho é realizar uma análise a respeito dos escritos sobre redes sociais e comunicação política no contexto brasileiro, e a ascensão da extrema direita em paralelo a reflexão sobre os limites da liberdade de expressão e dos riscos que a desinformação gera no sistema democrático.
A ascensão da extrema direita no Brasil atual reflete a mobilização de movimentos políticos que combinam o uso estratégico de articulações de comunicação, que visam a viralização nas redes com a mobilização de pautas conservadoras, em especial o saudosismo à ditadura, o pânico moral e os discursos reacionárias (Lowy, 2015). Nesse sentido, suas estratégias de comunicação política envolvem o fenômeno do “pós-verdade” e movimentos de disseminação em massa da chamada fake news (Oliveira; Gomes; 2019), e se agravam conforme seguem a lógica algorítmica das redes, gerando engajamento (Fishes, 2023) e, consequentemente, a ascendência do movimento e ataques ao Estado de direito (Chagas; Stefano; 2023).
A regulação dos sistemas algorítmicos com base na afinidade e crença dos usuários, faz com que se formem bolhas sociais, nas quais a ausência de debates e a continuidade de ideais extremistas seja cada vez mais justificada, radicalizando posicionamentos e corroborando ainda mais com a vulnerabilidade democrática (Youssef, 2018). A partir disso, surge a necessidade do debate sobre os limites da democracia, visto que a desinformação e o extremismo, neste contexto, representam uma ameaça direta ao sistema democratico ao ameaçar o debate público.
Esta pesquisa se justifica pela necessidade de investigar como a produção acadêmica brasileira, somada a escritos sobre a ascensão da extrema direita e das redes sociais neste contexto, tem articulado as dinâmicas das plataformas digitais com os processos de mobilização política da extrema direita. Por meio da análise bibliográfica dos textos selecionados, busca-se articular as diferentes perspectivas teóricas e identificar tendências, convergências e lacunas sobre o debate em torno na comunicação política e digital no país.
Assume-se então uso de uma abordagem qualitativa de cunho analítico-descritivo, com enfoque na revisão sistemática de literatura e na análise de conteúdo. A fim de fundamentar a análise, foram selecionados artigos de revistas com classificação A, no Capes. Concomitante a isso, foram analisadas obras que convergem no diagnóstico de uma profunda crise a qual a democracia representativa e o sistema neoliberal estão inseridos, impulsionada pela revolução das tecnologias digitais e pela ascensão de movimentos populistas de extrema direita.
Conclui-se portanto, que a ascensão da extrema direita no país não é por acaso, mas sim o resultado de uma rearticulação moldada por dialética conteudista estratégica. Seu crescimento, principalmente nas redes sociais, se dá por conta de seus conteúdos que se alinham perfeitamente à arquitetura algorítmica presente nas plataformas. A comunicação do movimento utiliza-se da lógica algorítmica (Fisher; 2023), para substituir fatos objetivos por narrativas que priorizam emoções e crenças reais, consolidando o fenômeno da pós-verdade (Oliveira; Gomes; 2019). Esse processo favorece o isolamento em bolhas sociais e a radicalização (Youssef; 2018) e a desinformação passa a ser utilizada como ferramenta de manipulação, danificando o processo democrático.
Referências
ARÃO, Cristian. A Caixa de Pandora da extrema direita: como as redes sociais contribuem para o enfraquecimento da democracia. Veritas, Porto Alegre, v. 70, n. 1, p. 1-16, 2025.
CASTRO, Rafael; SOUZA, Ana; FERREIRA, Marta; MELLO, José. Comunicação política, fake news e redes sociais: uma revisão sistemática da literatura. Postdata, Buenos Aires, v. 27, n. 1, pp. 48-63, 2022.
CHAGAS, Viktor; STEFANO, Luiza de Mello. Estratégias de uso do TikTok por políticos brasileiros. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 31, pp. 1-18, 2023.
DEMURU, Paolo. Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração. São Paulo: Unesp, 2024.
DIBAI, Priscilla Cabral. A ascensão do radicalismo de direita no mundo: novos dilemas de um velho problema. Mediações - Revista de Ciências Sociais, Londrina, v. 25, n. 3, p. 728–743, 2020.
DUARTE, Kamilla Alves. Dominação burguesa entre o velho e o novo: a ascensão da extrema-direita no Brasil. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, v. 146, n. 3, p. 1-19, 2023.
EMPOLI, Giuliano da. Os engenheiros do caos Tradução de Arnaldo Bloch. São Paulo: Vestígio, 2019
FISHER, Max. A máquina do caos: como as redes sociais reorganizaram nossa mente e nosso mundo. Rio de Janeiro: Todavia, 2023.
GERBAUDO, Paolo. O grande recuo: a política pós-populista e a pandemia. Rio de Janeiro: Todavia, 2021
GOMES, Wilson da Silva; DOURADO, Tatiana. Fake news, um fenômeno de comunicação política entre jornalismo, política e democracia. Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 33-45, 2019.
LÖWY, Michael. Conservadorismo e extrema-direita na Europa e no Brasil. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, n. 124, p. 652-664, 2015.
MIGUEL, Luis Felipe. Despolitização e antipolítica: a extrema-direita na crise da democracia. Argum., Vitória, v. 13, n. 2, p. 8-20, 2021.
OLIVEIRA, André Soares; GOMES, Patrícia Oliveira. Os limites da liberdade de expressão: fake news como ameaça a democracia. Revista De Direitos E Garantias Fundamentais, Vitória, v. 20, n. 2, p. 93-118, 2019.
YOUSSEF, Alê. Novo poder: Democracia e tecnologia. Belo Horizonte: Letramento, 2018