Resumo
Esse trabalho analisa, à luz da sétima Revolução em Assuntos Militares (RAM), as implicações cognitivo-sociais do desenvolvimento e projeção de Sistemas de Armas Autônomas Letais (SAALs) no campo de batalha das guerras contemporâneas. A 7ª RAM se caracteriza como Revolução da Automação e sua chegada coincide com o período em que o mundo vivencia o maior conjunto de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial (Rustard, 2025). Esse cenário ocorre paralelo à emergência de tecnologias de robotização, inteligências artificiais e sistemas de deep learning, bem como de um boom em investimentos em IA no setor de defesa das principais economias mundiais, como EUA, China e Rússia (IEP, 2025). Em vista disso, o estudo se orienta por dois questionamentos centrais: “de que modo os SAALs moldam a natureza da guerra?” e “quais efeitos cognitivos essas mudanças produzem na agência de soldados no campo de batalha?”.
Para conduzir a análise, o trabalho reconstrói dois cenários contemporâneos marcados pelo uso de sistemas autônomos. O primeiro se refere ao STM Kargu-2, na Líbia (2020), frequentemente apresentado como estudo de caso paradigmático de SAALs, uma vez que se supõe tratar-se do primeiro uso de um sistema autônomo para extermínio de combatentes no campo de batalha (Bode, 2024; Perrin, 2025). O segundo cenário abrange os sistemas Gospel, Lavender e “Where is Daddy?”, utilizados na Faixa de Gaza (2023–2024), voltados à seleção e/ou ao rastreio de alvos a serem bombardeados. O trabalho coloca esses casos vis-à-vis com as teorias da Cognição 4E - Embodied (Incorporada), Embedded (Embutida), Extended (Estendida) e Enacted (Enativa) - e, com isso, contribui para a compreensão das interações entre cérebro, corpo e ambiente na produção de uma agência cognitiva multidimensional (Menary, 2010).
No caso do Kargu-2, o operador participa apenas das fases iniciais de ativação, enquanto o sistema executa autonomamente a busca, seleção e ataque ao alvo, inclusive a decisão letal. Já nos sistemas Lavender, Gospel e “Where is Daddy?”, a agência humana assume uma forma residual e simbólica, limitada à validação quase automática de decisões algorítmicas altamente opacas. Em ambos os cenários, o soldado humano deixa de ser o eixo central da ação e se torna um nó em uma rede cognitiva mais ampla. Para os alvos, ademais, a guerra adquire um aspecto cognitivo involuntariamente estendido: deslocamentos, características físicas e dinâmicas familiares passam a ser incorporados como dados por algoritmos autônomos, ao mesmo tempo em que a incapacidade de compreender os mecanismos que governam a própria vulnerabilidade, alojados na black box das IAs mobilizadas, intensifica a assimetria cognitiva no conflito.
Em suas conclusões, o estudo sustenta que a cognição no campo de batalha não constitui um atributo exclusivo do soldado ou de sua instituição militar, mas resulta de interações complexas entre corpo, cérebro, ambiente e sistemas sociotécnicos, intermediadas por cognitive assemblages. A incorporação de algoritmos de detecção, classificação, rastreio e predição comportamental estende e redistribui a atividade cognitiva, deslocando do soldado funções antes centrais para a tomada de decisão letal e alterando o modo como se vê, interpreta e age nas guerras contemporâneas.
Referências
BODE, Ingvild. Emergent Normativity: Communities of Practice, Technology, and Lethal Autonomous Weapon Systems. Global studies quarterly, v. 4, n. 1, 1 jan. 2024.
INSTITUTE FOR ECONOMICS & PEACE. Global Peace Index 2025: Identifying and Measuring the Factors that Drive Peace, Sydney, June 2025. Available from: http://visionofhumanity.org/resources
MENARY, Richard. Introduction to the special issue on 4E cognition. Phenom Cogn Sci 9, 459–463, 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11097-010-9187-6.
PERRIN, B. Lethal Autonomous Weapons Systems & International Law: Growing Momentum Towards a New International Treaty. ASIL. Disponível em: https://www.asil.org/insights/volume/29/issue/1.
RUSTAD, Siri Aas (2025) Conflict Trends: A Global Overview, 1946–2024. PRIO Paper. Oslo: PRIO.