Resumo
O golpe militar de 1964 no Brasil significou, dentre outras coisas, uma inflexão no pensamento social brasileiro, especialmente entre aquelas correntes vinculadas a perspectivas reformistas e/ou revolucionárias envolvidas nos debates e estratégias de transformação da sociedade brasileira, principalmente no que tange às relações entre industrialização, modernização capitalista e a “questão nacional”. A atmosfera intelectual e política do pós-1964 foi marcada por tentativas de “acertos de contas” seja com a perspectiva democrático-burguesa da revolução brasileira, seja com o horizonte nacional-desenvolvimentista de superação do subdesenvolvimento. Neste artigo, serão enfatizadas duas formulações deste segundo grupo que, tendo como ponto de partida uma perspectiva crítica à Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (CEPAL), enveredam por diagnósticos e apostas político-econômicas diferentes entre si. A primeira delas é a “Crítica à Razão Dualista” do sociólogo Francisco de Oliveira, elaborado e publicado, em 1972, no âmbito do CEBRAP e que tematiza a expansão do capitalismo brasileiro em um alegado contexto de ausência de revolução burguesa e no qual o que era considerado “atraso” no enquadramento cepalino não apenas era funcional ao setor “moderno”, como contribuía para consolidar um padrão de dominação interno favorável ao desenvolvimento capitalista. A segunda é a teoria do “capitalismo tardio” formulada como tese de doutorado em 1975 pelo economista João Manuel Cardoso de Mello e que se constitui como um dos marcos teóricos fundadores da “Escola de Campinas” (atualmente, Instituto de Economia da UNICAMP). Ambos os autores expressam em suas críticas à CEPAL uma apropriação do marxismo para o entendimento da condição latino-americana que ao mesmo tempo se distanciava da "teoria consagrada” do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se institucionalizava no espaço acadêmico paulista (CEBRAP e UNICAMP), o que transparece nas relações entre análise da realidade e propostas políticas inscritas em seus trabalhos.
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