Resumo
Esta comunicação analisa a pandemia da COVID-19 como um evento geracional formador, capaz de produzir uma experiência coletiva de sofrimento, medo, luto e reconfiguração das sensibilidades diante da morte. A pesquisa adotou uma abordagem quanti-qualitativa de caráter exploratório, uma vez que busca explorar, identificar e compreender conceitos, fenômenos ou relações ainda pouco investigados. Foi realizada por meio de questionário semiestruturado, reunindo relatos de experiências e percepções acerca das gerações, da pandemia da COVID-19 e do acesso à tecnologia, tendo como referencial teórico o problema sociológico das gerações proposto por Karl Mannheim, articulado a estudos contemporâneos sobre envelhecimento, pandemia de COVID-19, exclusão digital, conflitos intergeracionais e invisibilidade social, com dados coletados após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Maringá, conforme parecer consubstanciado sob o CAAE nº 92274925.9.0000.0104. Parte-se da perspectiva de que as gerações não são definidas apenas por critérios etários, mas por experiências históricas compartilhadas que moldam formas específicas de percepção, pertencimento e consciência social, conforme aponta Karl Mannheim em seu ensaio sobre o fenômeno sociológico das gerações. Na atualidade esse conceito reside na sua capacidade de interpretar o modo como os indivíduos se situam em um destino comum dentro de uma unidade histórico-social, como apontam pesquisadores que atualizam os seus conceitos. O objetivo foi analisar a experiência da morte em massa e do luto interrompido durante a pandemia da COVID-19, investigando de que modo tais vivências produziram sensibilidades específicas e a possibilidade de constituição de uma nova consciência geracional ou a “reestratificação” de uma consciência já formada. Entende-se, nesse sentido, que a consciência geracional pós pandemia atua como um conjunto de percepções compartilhadas, moldadas e influenciadas por experiências relacionadas à morte, ao envelhecimento e ao uso da tecnologia. Busca-se, assim, compreender como os participantes perceberam a finitude e o risco, bem como analisar os sentimentos associados à exposição cotidiana à morte e às experiências relacionadas à formação dessa consciência geracional ou a sua ressignificação. Assim, analisando os resultados, embora os participantes afirmem aceitar o envelhecimento, muitos percebem que a sociedade tende a ignorar ou invisibilizar a velhice, especialmente em contextos de crise. Os resultados apontam que, embora haja uma aceitação subjetiva do ciclo vital, os participantes observam que a sociedade tende a invisibilizar a velhice, especialmente em cenários de crise aguda. Além disso, os relatos evidenciam experiências de medo constante, perdas familiares, uso de medicação psiquiátrica, sensação de impotência diante da morte e indignação com a condução política da pandemia. Há depoimentos sobre mudanças significativas na percepção da vida e do tempo, bem como no acesso e na dependência em relação às tecnologias digitais, que passaram a ocupar um papel central na manutenção dos vínculos sociais, no cuidado cotidiano e na reorganização das rotinas durante e após a pandemia. Conclui-se que a pandemia consolidou uma nova sensibilidade geracional, em que a percepção da finitude é mediada pelo acesso digital e pela resposta política aos riscos sociais.
Referências
1. MOTTA, Alda Britto da; WELLER, Wivian. Apresentação: A atualidade do conceito de gerações na pesquisa sociológica. Sociedade e Estado, v. 25, n. 2, 2010. Portal de Periódicos da UnB+1
2. WELLER, Wivian. A atualidade do conceito de gerações de Karl Mannheim. Sociedade e Estado, v. 25, n. 2, p. 205–224, 2010. Portal de Periódicos da UnB+1
3. MOTTA, Alda Britto da. A atualidade do conceito de gerações na pesquisa sobre o envelhecimento. Sociedade e Estado, Brasília, v. 25, n. 2, p. 225–250, Maio/Ago. 2010
4. FEIXA, Carles; LECCARDI, Carmem. O conceito de geração nas teorias sobre juventude. Sociedade e Estado, v. 25, n. 2, p. 185–204, 2010. Portal de Periódicos da UnB+1
5. SCOTT, Parry. Gerações e famílias: Polissemia, mudanças históricas e mobilidade. Sociedade e Estado, v. 25, n. 2, p. 251–284, 2010.
6. CUNHA, Sandra Mara da. Geração, um conceito situado. Runa, vol. 42, n. 2, p. 193–210, 2021. DOI: 10.34096/runa.v42i2.7608
7. MANNHEIM, Karl. "O problema sociológico das gerações" [tradução: Cláudio Marcondes], In Marialice M. Foracchi (org), Karl Mannheim: Sociologia, São Paulo, Ática, pp. 67-95.