//
você está lendo...
Vinícius Armiliato, Violência e Cidadania

Terra Vermelha: mobilidade, mobilização e sangue em 4 atos

 

1

22 de maio, 18h. uma última cuia antes de sair de casa para assistir Terra vermelha, de Marco Bechis, na Cinameteca de Curitiba. Um inesperado logo na primeira quadra: carros se concentram, ocupam, enfileiram-se no perímetro do posto de combustível. Para quem olhava aquilo de dentro de um carro em movimento, tudo parecia congelado. Uma fotografia de algum caos. Nos demais postos encontrados pelo caminho é a mesma imagem que se forma. Raciocínio rápido rumo à feliz conclusão:

– Trata-se de um protesto! Como a gasolina subiu abruptamente e as pessoas têm estado insatisfeitas com isso, motoristas resolveram bloquear os postos no horário de pico e a partir de agora ninguém mais abastece!

O imaginado discurso dos manifestantes:

“Se o preço da gasolina não congela, nós congelaremos os postos, reduziremos o ganho dos empresários, das refinarias e de todo esse setor explorador dos trabalhadores. Não haverá liminar que nos impeça de não abastecer (uma vez havendo-as para impedir que os caminhões fiquem parados na estrada)”

Erro.

Muito mal fundada essa percepção de um bem fundado coletivismo. As fontes não-confiáveis de informação contavam qual era a desse movimento que imobilizava os postos de gasolina: o medo de ficar sem gasolina e sem mobilidade, dada a interrupção do abastecimento decorrente da greve dos caminhoneiros.

O imaginado discurso dos consumidores:

“Vou até o posto e garanto o meu litro de R$ 4,09, R$4,15, R$4,50, R$7,00, não importa. Pouco importa a alta dos preços nesse momento. Imóvel não ficarei, meus direitos de ir e vir devem ser preservados!”.

A ilusão de um grande movimento social se converteu no duro golpe da realidade.

A divergência entre práticas e textos inflamados abasteceu a desilusão até a porta da Cinemateca.


2

Filme: Dourados, Mato Grosso do Sul, a situação precária dos povos indígenas. Suicídio. Alcoolismo. Identidades deslocadas. Violência. Uso de armas químicas para ataques em acampamentos. Nojentas negociações com proprietários de terra. Trabalho irregular em plantações de cana-de-açúcar. Etnias se organizam politicamente, manifestando-se, associando-se, fortalecendo narrativas sobre si, desvinculando-se da vergonha que os livros didáticos, as aulas de história e as músicas da Xuxa querem erigir.

Povos que enfrentam o gado, a soja, a cana-de-açúcar, a erva-mate, o agrotóxico, o desmatamento.

Comunidades que resistem à voracidade egoísta dos fazendeiros.

Comunidades que resistem à voracidade egoísta dos consumidores.

Após o filme, o debate: palavras empolgantes, apaixonadas, honestas e, sobretudo, detonadoras, do Prof. José Roberto de Vasconcelos Galdino. Eu pensava: um sobrenome para se honrar. Galdino, o nome da liderança indígena que foi vítima de umas mentes estúpidas de adolescentes bem nascidos de Brasília-DF, que hoje, ressocializados, trabalham ou no serviço público, ou em algum escritório de advocacia do filho de algum ministro do STJ. Da plateia, uma moça de Guaíra-PR, que conhece bem o lamentável que se passa em sua terra quanto às políticas para os povos indígenas, pergunta algo cuja resposta todos querem e aguardam ansiosos: o que fazer? quais estratégias adotar? Quais as ações possíveis para desviar o percurso de uma história de massacre e apagamento da identidade e potência dos povos indígenas? Onde, como, quando enquanto vivo ser eu interrompo essa história?


3

No meu corpo as perguntas continuam. Desdobraram-se em outras:

É a carne de gado? É a soja? É o café? É a erva-mate? É a cana-de-açúcar? É o petróleo?

Lugares não faltam para que eu escolha onde interromper o curso dessa história.


4

Finda o debate.

Agora é entrar no carro e voltar para a casa escriturada, herdada, comprada, apropriada, invadida, ocupada.

em casa, limpar o mate da cuia.

em casa, tomar um café

no café, açúcar.

na goela uma carne frita

Abasteço meu corpo. Frio. Dissociado. Mecânico como os carros sem alma enfileirados diante do posto de combustível.

Afinal, amanhã é preciso poder se deslocar para ir ao trabalho, ganhar o meu pão.

Afinal, amanhã é preciso estar bem alimentado para produzir mais contradições e derramamento de sangue com minha própria existência.

.

Vinícius Armiliato é doutorando em Filosofia. Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

 

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: