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Cotidiano, Eder Silva

Um Ode à Relespública Socialista Brasileira

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“… Mas sim, alguma coisa mudou com a República. Para o mal e a confusão do mundo […] Cobrariam impostos, a República queria cobrar impostos. Mas o que eram impostos? – perguntavam muitos. como os dízimos, explicavam outros. Igual a antes, se uma pessoa tinha cinquenta galinhas devia dar cinco à missão […]. Todos deviam declarar nos municípios, agora autônomos, o que tinham e ganhavam para saber o que lhes cabia pagar. O instinto animal, o bom senso e séculos de experiência fizeram aquela gente compreender que isso seria talvez pior que a seca, que arrecadadores de impostos acabariam sendo mais vorazes que abutres e bandidos. […] o Conselheiro, antes de ir rezar na Igreja da Conceição, deu aos seres desse afastado rincão uma grave primícia: o Anticristo estava no mundo e se chamava República”.

(MARIO VARGAS LLOSA em A Guerra do Fim do Mundo)

Patriotismo e outros “ismos” de lado, vamos falar hoje de coisas do cotidiano, o trabalho.

Neste feriado comemora-se o Dia do Trabalho, ou do Trabalhador, ou ainda Dia Internacional dos Trabalhadores. Ainda, religiosamente, Dia de São José Operário, o padroeiro dos trabalhadores.

No Brasil, o feriado de 1º de maio foi oficializado em 1925 por Arthur Bernardes. Pasmem, mas bem antes, nesta data no ano de 1886, nos EUA, deflagrava-se uma greve envolvendo 340.000 pessoas que reivindicavam redução da carga horária de trabalho de 16 horas para 8 horas semanais. A partir desse evento surge em outros países (exceto nos EUA) a ideia de oficializar esta data como feriado.

Falando em trabalho, segue-se que alguns pensadores já criticaram este que simboliza fonte de sustento para a grande maioria dos cidadãos ao longo da história da humanidade. Se levarmos em conta o primeiro casal, Adão e Eva, no Gênesis já teríamos uma ordem que determinava-se “ganhar o pão com o suor do próprio rosto” (livro de Gênesis 3.19).

Desta frase saem diversas interpretações. Entre elas, destaco a de alguns que referiram-se ao trabalho como aquele que “dignifica” o homem, conforme Max Weber, replicando a fala anterior de Benjamin Franklyn, citada em sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo .

Outros, como Diógenes de Sinope, Ettiene de La Boétie, Guy Debord (A Sociedade do Espetáculo) e o diretor do documentário A Servidão Moderna Jean-François Brient enxergam-no como originário não da vontade primitiva de Deus, mas das consequências causadas da inimizade entre a criatura e seu Criador. Daí surge a correlação terminológica entre “trabalho” e “tripalium”, ou seja, “tridente”: um instrumento utilizado para torturar.

Seguindo esta última suposição, transcrevo um excelente texto de Sérgio Rodrigues, publicadas em seu blog em 01/11/2011:

“Durante muito tempo, os etimologistas tiveram alguma dificuldade para admitir o óbvio, refugiando-se em hipóteses obscuras que envolviam outras matrizes latinas e até vocábulos do gaélico (!) e do címbrico (!!). A verdade pouco palatável é que, como o francês travail, o espanhol trabajo e o italiano travaglio (este, o que mais conserva o tom sombrio do termo original, deixando para lavoro os significados mais amenos), trabalho é um descendente direto da palavra latina tripalium.

E o que era o tripalium? Um instrumento composto, como o nome indica, de três paus, mais precisamente três estacas que, fincadas no chão para desenhar os vértices de um triângulo, se encontravam no alto. A essa estrutura se prendiam pessoas para serem martirizadas.

Isso mesmo: por mais que tal ideia revolte uma sensibilidade moderna, o antepassado daquele que “enobrece e dignifica o homem” era um instrumento de tortura. A punição e o suplício estão intimamente ligados ao trabalho.

Quando o verbo trabalhar desembarcou primeiro numa língua românica – no francês do século 12 – as ideias que expressava eram duas: submeter a padecimentos físicos ou morais e sofrer terrivelmente (vem daí a expressão “trabalho de parto”).

Já estavam lá, portanto, as duas linhas de força, a ativa e a passiva, que teriam papéis complementares na evolução semântica da palavra. Trabalhar era padecer, extenuar-se, acabar-se na labuta, como faziam escravos e condenados. Era também exercer uma ação – modificadora e, por metáfora, torturante – sobre a terra, os alimentos, os animais.

Para que fossem surgindo gradualmente as acepções modernas, positivas e relativamente indolores ligadas ao exercício de uma profissão, porém, seria preciso esperar alguns séculos. Data de 1600, segundo o Trésor de la Langue Française, o primeiro registro de travail como “atividade profissional cotidiana necessária à subsistência”.

Não por acaso, a evolução semântica do trabalho caminhou paralelamente à ascensão da visão de mundo burguesa, que o valoriza, e ao declínio dos modelos econômicos baseados na escravidão e na servidão”.

Outros pensadores como Marx denunciariam as engrenagens da sociedade daquela época, que tendiam utilizar o trabalho humano como alienação do indivíduo.

Portanto, embora o trabalho seja um elemento constante em boa parte da vida dos brasileiros, ele deve ser racionalizado não somente para fim específico de subsistência, mas também deve, via de regra, ser projetado como parte da “função social do indivíduo perante a coletividade” (Durkheim). E, mais ainda, o trabalho deveria ser fruto de bênçãos na vida de cada um de nós e não como mera frustração. Deveria ser decorrente da vocação de cada um exercer sua função social, através do trabalho, correspondendo não somente às necessidades pessoais, mas às significâncias coletivas. Não como meio de uma nova forma de escravidão imperceptivelmente “voluntária” mas como algo satisfatório.

Deveríamos trabalhar para nosso desenvolvimento como ser significante, e não para sustentar um sistema falacioso de governo que mais se parece descontrolada tirania, falsamente propagandeada e vendida como democracia. Pois, há muito tempo não somos verdadeiramente livres num país onde há abundância de recursos mas que não chegamos desfrutá-lo sequer em nossos sonhos.

Não basta atribuirmos a culpa aos falaciosos republicanistas. Devemos, antes de tudo, soltar as amarras de dentro das nossas próprias almas voltarmos a sonhar com uma possibilidade de liberdade! Não devemos esperar mudanças no topo da pirâmide. A mudança deve começar em nós. Essa é a verdadeira esperança dotada de possibilidades!

Depois de muita heresia utópica por mim aqui explicitada, deixo à você, caros leitores, minha indagação: “O que temos preparado, para quem será?”

Eder Silva é especialista em Sociologia Política (UFPR); bacharel em Turismo (UP) e Teólogo (FCC) e blogueiro nas horas vagas. Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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