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Eder Silva, Poesia

Flores [e espinhos] para eles

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Já me acostumando tolerar músicas e marchinhas de revolta, “gantanamera“, Vandré, Carlos Gardel entre outros, deixo um breve (mas não menos visionário) fragmento de poesia do escritor inglês radicado nos EUA, W. H. Auden (1907 – 1973). Algo além de uma mera distopia, talvez fonte de cura para as muitas utopias metamorfoseadas em sectarismo. Apreciem sem moderação!

 

” (…)

As mãos dele haviam posto, juntos,

Uma vastidão artificial

            E um céu feito de chumbo.

 

Uma planície parda, nua, sem qualquer

            Folha de relva ou sinal de habitação,

Nada de comer, nem onde sentar sequer;

            Reunida porém naquela desolação,

            Uma ininteligível multidão,

Um milhão de olhos e de botas prefilando-se,

Sem expressão, à espera da ordem de comando.

 

Vinda do espaço, uma voz sem rosto mostrava,

Monótona e árida como o próprio lugar,

Ser justa, por estatística, uma certa causa.

            Não se ouviu ninguém discutir ou aclamar;

            Coluna após coluna, nuvem de pó no ar,

Foram-se marchando, submissos a uma fé

Cuja lógica os levou, alhures, ao revés.

 

            Por cima do ombro dele buscava

                        Ela devotamentos rituais

            E novilhas com guirlandas de alvas

                        Flores, libações artificiais,

            Mas ali, no luzente metal,

                        Em vez de altar avistou somente,

            À luz fremente da forja dele,

                        Uma cena muito diferente.

 

Área cercada de arame farpado; dentro,

            Oficiais passeavam seu tédio (fez piada, um);

Sentinelas suavam no calor intenso:

            Imóvel, uma turba de gente comum

            Olhava de fora, sem comentário algum,

Três pálidas figuras serem amarradas

A três estacas em pé, no chão fincadas.

 

A massa e majestade deste mundo, tudo

            Quanto tenha algum peso e pese sempre o mesmo

Está na mão dos outros; eles eram miúdos,

            Não podiam esperar ajuda, que não veio;

            O que seus inimigos queriam já foi feito,

E o pior: perderam o seu próprio orgulho, mortos

Como homens bem antes da morte dos seus corpos.

 

Por cima do ombro dele buscava

            Atletas entregues aos seus jogos,

Homens e mulheres a mover

            Seus membros docemente no compasso

Da música, cada vez mais rápido.

            Mas no escudo luzente não tinha

A mão dele pintado uma dança

            E sim um campo de ervas daninhas.

 

(W. H. Auden, O Escudo de Aquiles)

 

Eder Silva é especialista em Sociologia Política (UFPR); bacharel em Turismo (UP) e Teólogo (FCC) e blogueiro nas horas vagas. Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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