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Carlos Evangelista, Conto, Uncategorized

Meu cafezal em flor

flor - café

Lindolfo Maia, nos seus sessenta anos passados, entre uma conversa e outra durante uma costela de chão, na cidade grande,  falava  de um tempo  da  simplicidade da vida rural para quem  quisesse  ouvir.

Seu Lindolfo recordava que ainda menino aprendeu plantar café, quando levemente depositava de seis a oito caroços de café na cova quadrada medindo aproximadamente cinquenta centímetros, com profundidade de   quarenta centímetros, sendo  repartido nas duas laterais da  cova. Os grãos eram levemente enterrados e a boca da cova era fechada com pequenos pedaços de madeira, que só eram retirados quando decorridos alguns meses,  com o  pezinho  de café já  nascido e crescendo tocava  na  madeira querendo  apontar os brotos na  superfície da  terra. Logo depois, era bonito ver os pés de café devidamente alinhados em longas ruas,  separadas por  três metros sendo  um pé separado  do outro por  cerca de dois metros e meio.

Entre um pé e outro era alternada a plantação de quatro pés de milho e três  ou  quatro linhas de  feijão,  arroz,  amendoim ou  algodão. Enquanto a lavoura branca era colhida anualmente, o café crescia. Replantar, ralear e limpar os pés de café nem sempre  era  tarefa  fácil,  haja  vista  que as cobras,  sapos e aranhas preferiam  fazer  suas moradas no  conforto e  segurança da  cova de  café. E aí, o coitado do lavrador levava cada susto danado.

Com três ou quatro anos o pé de café viçoso, já com quase um metro  de  altura florescia e perfumada a lavoura. Era um espetáculo da natureza ver anualmente a  florada  do cafezal anunciando mais uma  safra promissora por  vir.

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A floração caía dando lugar ao grão verde de  café que levava quase um  ano para avermelhar, amadurecer  e  ser  colhido já nas  cores mais escura,  avermelhada e  verde.

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O seu Lindolfo explicava que o processo da colheita era difícil, geralmente no inverno. Primeiro era preciso limpar com enxada ou rodo ao redor de cada pé e fazer as leiras de terra entre as ruas para receber os grãos que iriam  cair normalmente. Quando chovia ou até mesmo debaixo  de  chuva os trabalhadores com  uma vara grande ou  pequena batiam na ramagem do pé  de  café facilitando a derrubada dos  grãos maduros. Em seguida era  retirado  de galho em  galho os  grãos  que sobravam.

Geralmente as crianças e os adolescentes mergulhavam sob o pé de  café para limpeza do  tronco.

Com o pé de  café derriçado e já com o  tronco limpo, os grãos  ficavam na superfície da  terra. Então vinham os  rastelos amontoando o  café que  em  seguida era  abanado e ensacado. A tardinha  geralmente quem  abanava carregava as  sacas com mais de sessenta  quilos até  o  carreador para serem transportadas por  carroças,  tratores ou  veículos até a  tulha.

A tulha, explicava seu Lindolfo, era uma casa coberta tipo  salão,  geralmente nas proximidades existia  um  terreirão onde  o café  era  espalhado e mexido várias  vezes em  dias  de  sol  quente,  até  ficar sequinho e pronto para  a  venda do  café  em  coco.

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Em  saco de  cinquenta a  setenta  quilos, o  café em  coco era  vendido para um cerealista intermediário, que limpava e transformava o café  em  grão para  ser  vendido  às  grandes  torrefadoras que moíam,  embalavam e  colocavam no  mercado consumidor interno  e  externo.

 

Mas lá na roça, dizia  seu Lindolfo, o  café em  coco era socado, até soltar a  casca. Já em grão era torrado no torrador, moído no moinho manual e  coado no quador de pano. Aí era só beber aquele café aromatizado e  delicioso ao  redor  do fogão  à lenha, ouvindo o rádio ou  saboreado entremeio as boas  conversas  da  roça.

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Era muito triste e desolador, prosseguia o ex-cafeicultor, ver as seguidas  geadas matando os  cafezais, cedendo  lugar  a pastagem e por  conseguinte expulsando o  lavrador da  terra, obrigando-o a partir para  a  cidade  grande  na  busca  pela sobrevivência familiar,  deixando  para traz um  tempo bom  de  lembranças  eternas  da  lida na  terra.

Hoje  fico  a pensar na transformação econômica,  quando o café fez do Brasil destaque internacional na produção,  alavancando o progresso,  gerando riquezas durante os séculos XVIII,XIX e XX

Atualmente a produção é grande, porém pouca para atender a demanda do consumo interno. Então o produto tornou-se caro, cabendo  aos brasileiros, que apreciam a  bebida,  a opção  rápida do  Nescafé,  um  subproduto importado, que jamais substituirá o  genuíno café  brasileiro. Lágrimas de saudades rolam dos olhos lacrimejados do  seu Lindolfo.

 

Fontes:

https://blog.moccato.com.br/ciclo-do-cafe-8-etapas/

http://revistacafeicultura.com.br/?mat=5548

https://www.embrapa.br/cafe/historia

http://inct.cnpq.br/web/inct-cafe

http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/instituto-brasileiro-do-cafe-ibc

http://revistacafeicultura.com.br/?mat=3644

 

 

Carlos Evangelista é jornalista (ESEEI) e especialista em Sociologia Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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