//
você está lendo...
Cultura Política, Eder Silva

BRASILIDADE CORRUPTA: Que não mais me assombra, mas me entristece

inferno-dos-corruptos-brasileiros

Sem promover apologias a favor da classe política, porém, sem inocentar a parte que me toca (como brasileiro “nato”), tenho muito a acrescentar ao bem pontuado artigo do colega Carlos Evangelista.

Primeiramente, o que me chama a atenção é a ingenuidade (ou oportunismo) da opinião pública (e isto também me inclui), de buscar mudanças no país culpando tão somente a classe política, e colocando no banco dos réus tanto esta como o alto empresariado, o qual se privilegiou ousadamente de oportunidades promovidas pelo clientelismo impregnado em nossa cultura política, oriunda dessa republiqueta com espírito colonialista que perdura a séculos.

Ao ressaltamos que a operação “lava-jato” trouxe um “quê “ de ruptura nessa utópica ingenuidade, (isto porque foi ela que nos apresentou o cenário da corrupção e suas vértices às quais os atores sociais estavam posicionados), traduz-se numa louvável reflexão, mas que não nos exime nenhum pouco da responsabilidade ao qual configurou-se o cenário atual… Que a operação conduzida pelo Juiz Sérgio Moro representa a esperança do povo brasileiro para mudanças, isto sem dúvidas é fato notório, digno de continuidade e apoio. Mas, afirmarmos que somente a classe política e o alto empresariado são réus dignos de culpa, representa defendermos – mesmo que involuntariamente – a continuidade desse espírito corruptor, introjetado na alma da sociedade brasileira. Digo isto porque vejo os principais atores deste cenário eximirem-se veementemente da culpa disseminada por este miserável sistema!

Mas quem são os verdadeiros culpados dessa “intrépida corrupção humana”? É a classe política? É o alto empresariado? É o clientelismo herdado de um mandonismo da Velha República? – Ouso afirmar um “não” bem enfático!

Tenho a dizer que o povo brasileiro é tão culpado como aqueles que hoje estão no banco dos réus. Tenho também a dizer que, enquanto continuarmo-nos fazendo-se de vítimas, nunca conheceremos real mudança neste cenário.

Pergunto: o político forma a sociedade ou a sociedade é quem forma o político? Quem, afinal, escolheu essa forma de “demongracinha”* presidencialista? Que bem nos faz a liberdade de voto, o tão sonhado sufrágio universal, nas mãos de um povo ignorante e que não conhecem mínimas nuances e conceitos do que seja a política? Onde “títulos de idiotas” são entregues pelos TRE’s a qualquer um, sem sequer promover o ensino do que seja o verdadeiro exercício democrático?** Qual a gênese da corrupção tupiniquim? Quem de nós não pratica atos paralelos e convergentes a este sistema corrupto, que vigora em nossas veias e em nosso sangue há milênios? E, por fim, por que não colocarmo-nos também no banco dos réus, junto com a corja já desgastada da classe política e seus tentáculos clientelistas, que são frutos de nossas próprias criações, cabos eleitorais desses oportunistas de plantão?

Se o nobre colega Carlos nos chama à por fim na corrupção, eu me junto à ele,  vos convocando, de igual modo e vontade, a por um fim neste nosso velho hábito (vejam o sintoma de Adão no livro de Gênesis da Bíblia, pondo a culpa de sua desobediência na serpente, esquivando-se de sua responsabilidade individual)!

Quantos de nós fomos, e continuamos sendo conduzidos “viciosamente” a depender e colocar nosso futuro (aposentadoria, etc), nas mãos de políticos que, a nosso exemplo, estão mais preocupados com o próprio umbigo?*** Continuaremos a depender das míseras migalhas denominada “aposentadoria”? Ou ensinaremos as gerações posteriores a adotarem uma outra forma de semeadura para a colheita futura? Só temos o INSS como auxílio em nossa velhice? Não há outro meio de pouparmos para recebermos futuramente um auxílio que nos sustente de forma mais eficiente que este monstro criado por nós mesmos? Mas, para nossa desgraça, temos financiado a nossa própria miséria, a nossa própria espoliação, o nosso próprio abandono! Enquanto que muitos se beneficiam de pensões altíssimas oriundas até de seus avós, e porque não dizer, até de seus bisavós? Daí ficamos reclamando por causa de o governo atual adotar a diretriz de “rever” as aposentadorias. Neste caso, vos convoco também a apoiar tal iniciativa do governo, mas, sobretudo, revogar até mesmo as altas pensões dessas elites mesquinhas que sugam nosso sangue, e vivem controlando a mídia podre e prostituta que induz o povo a pecar ainda mais contra sua própria vontade de mudança. Afinal, se é para mudar, que a mudança primeiramente aconteça nas nossas percepções de culpa mútua, nos nossos hábitos egoístas e egocêntricos. Que a mudança ocorra primeiramente e através de nosso verdadeiro arrependimento quando “financiamos” toda essa baboseira de sistema político que somente nos traz “miserabilidade travestida de falso glamour”!

Finalmente e, para sossego de muitos e desassosego de alguns, desafio (carinhosamente e com o devido respeito) aos colegas leitores trazerem para cá alguma reflexão que, verdadeiramente, nos assombre, que nos traga um “santo espanto” (para o nosso próprio benefício). Algo que venha descrever e reorientar qual seja o nosso papel neste cenário cacofônico e ébrio. Algo que nos incentive parar de culpar a classe política, mas que nos faça exigir de nós mesmos a parte que nos cabe neste processo de “inevitável mudança”. Que não mais continuemos “aguardando” a boa vontade dessa “banda boa dos políticos” (se é que isto de fato possa existir), para ressuscitar a esperança já gasta e em extinção em nosso meio! Lembrem-se de que a falta de perdão geralmente é ocasionada pela falta de “arrependimento” e que, através do verdadeiro arrependimento, da real vontade de não mais sermos aquilo que somos agora, venha talvez colaborar para o início daquilo que nos trará de volta a plenitude de uma sociedade lúcida e livre de patologias utópicas e alucinógenas como a má política, a má religiosidade e a fosca percepção de responsabilidade individual, formadora da real cidadania!

*Este assunto de “demongracinha” já foi por mim falado em postagem anterior: http://sociologiapolitica.com.br/2016/12/11/sera-que-temer-treme-a-reconstrucao-da-bastilha-e-a-encarnacao-de-marat-na-operacao-lava-jato/

**Aqui me refiro ao conceito de idiota, contextualizado à sociedade grega, nos tempos da Ágora. Veja mais sobre isso em: https://www.significados.com.br/idiota/

*** Sugiro uma leitura do livro “A era do Vazio”, do filósofo e jornalista Gilles Lipovetsky

Eder Silva é turismólogo (UP, 2002), Bacharel em Teologia (FCC 2015),  e, especialista em Sociologia Política (UFPR, 2012). Este artigo reflete as opiniões do autor, cabendo ao leitor refletir e avaliar as aplicações contidas nestes ensaios.

Anúncios

Sobre Eder Silva

I'm a outsider

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: