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Carlos Evangelista, Poesia, Uncategorized

Ferreira Gullar: Um hino aos Pixotes na Poesia Brasileira

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Falar de poesia em pleno capitalismo parece um tanto em desuso, principalmente com o advento da internet; essa revolução virtual, onde é muito mais fácil e cômodo copiar e colar. Produzir poesia é quase uma perda de tempo, tipo algo propício para os últimos momentos de uma vida.

Mas se você pensa que a poesia suaviza o mundo, apazigua corações, faz fervilhar um batalhão, que pode chegar aos palcos, atravessar mares, chegar as redes sociais e porque não dizer às novelas, aos  cinemas e  demais segmentos artísticos, parabéns, você é um ultra- modernista.

O Brasil sempre teve e por certa sempre terá renomados poetas e escritores. Neste mês de março quando se comemora o “Mês Nacional da Poesia”, faremos um breve tributo ao imortal poeta, escritor,  crítico  de  arte,  tradutor,  biógrafo, memorialista,  ensaísta e um dos fundadores do neoconcretismo Ferreira Gullar, maranhense nascido no  dia 10  de  setembro  de  1930, em São Luís,  capital  do Maranhão.

ferreiragular

Ferreira Gullar, premiadíssimo, foi exilado, na Rússia, Chile, Argentina e preso político, trabalhou no Pasquim, com o pseudônimo de Frederico Marques, amigo de Dias Gomes, produziu na rede globo o especial “Insensato coração”, em 1983. Vale a pena conferir a obra deste imortal brasileiro.

Arquivo Morto

(Um hino aos pixotes – filhos do paternalismo de Deus e governos – dos Brasis de todo mundo)

“Sou um homem comum

De carnes e de memória

De osso e esquecimento

Sou como você

Feito de coisas lembradas

E esquecidas.

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Cadê a corrupção?

 

Um instante


Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

          aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

luz presente
sou apenas um bicho
transparente”.

 ferreira_gullar0001

Poema Sujo

(Fragmento inicial)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coluna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento oblackout as
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste.
A cada nova manhã
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda.
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos

Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio
que guarda as vísceras todas
funcionando
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos
enquanto discuto caminho
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro
dos céus da cidade estrangeira
com a ajuda dos plátanos
e que pode – por um descuido – esvair-se por meu
pulso aberto

Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se para de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

Fontes:

www.poesiaspoemaseversos.com.br/ferreiragullar-poemas

http://www.releituras.com/fgullar_bio.asp

http://www.casadobruxo.com.br/poesia/f/fgullar27.htm

https://www.youtube.com/watch?v=kc6qYdzwWus

Carlos Evangelista é jornalista (ESEEI) e especialista em Sociologia Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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