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Filosofia, Vinícius Armiliato

Aos psicopatólogos

Lars Nilsson, Museu Oscar Niemeyer, Curitiba-PR, 2015

Ghosts, 2014, Lars Nilsson (Foto: Vinícius Armiliato)

A procura por novas psicopatologias, e consequentemente por modelos terapêuticos e preventivos para as mesmas, tem impulsionado pesquisas em diferentes áreas do conhecimento. Tenho uma hipótese sobre o aumento destas patologizações: quanto mais sentido se dá para nossa existência, mais chance temos para patologizar. Assim, em uma espécie de silogismo me permito concluir que se estamos em um movimento patologizante, é porque a vida está cheia de sentido.

Nossos objetivos de vida são delineados por uma maquinaria de poder, especialmente veiculada pelos meios de comunicação, que mostram os caminhos corretos para nossas ações. Caminhos corretos que em geral são sustentados por especialistas, doutores, acadêmicos, pesquisadores, pessoas de ciência. Os representantes da ciência têm contribuído para a regulamentação de nossas ações. Nosso modo de existência tem sido regulamentado por médicos, pedagogos, psicólogos, sociólogos, sexólogos, nutricionistas, ortopedistas. Existem alguns objetivos comuns que permeiam e dão sustentação aos anúncios sobre a nossa vida, proclamados por estas áreas de saber: ser longevo, ter saúde mental, física, ter concentração no trabalho, saber cuidar da família, conseguir aproveitar os estudos, saber gozar, andar na linha, não se estressar a fim de evitar doenças crônicas, contribuir com o desenvolvimento e progresso da vida, otimizar as relações humanas e sociais. Tudo ascendendo para um lugar paradisíaco, o qual só será conquistado se comprarmos as indulgências da vida saudável e harmoniosa que tais especialistas anunciam.

Nesses anúncios nada é por acaso: há um desejo de mercado aí. Um lucro que aumenta conforme for nosso rendimento social, ambiental, cultural, psíquico, laboral. E como a vida em sociedade tende a uma crescente complexificação, a uma desorganização cada vez maior, é preciso ser vigilante à sua organização, à sua lógica de mercado. Talvez o que consideramos crise do capital, seja um movimento de reorganização da regulamentação de nossas ações. Isso porque a vida em sociedade parece seguir um princípio de crescente entropia, de desorganização, até seu consequente desgaste. O acúmulo de receitas transmitidas a nós para gozarmos de uma boa vida em sociedade, possivelmente vem em resposta ao crescente grau de entropia do sistema, como medida para postergar seu inevitável escoamento de energia. Um bom modo de dirigir, de cozer, de fritar, de torcer, de andar, de picar, de vestir, de assar, de distribuir, de alongar, de esticar, de espremer, de defecar, de acordar, de salpicar, de digitar, de carregar, de instalar, de compartilhar, de se comportar, nos é ensinado para que sejamos ótimos e mais adequados à pluralidade identitária, afetiva, cultural. O bom aluno, o bom professor, o bom médico, o bom pai, o bom motorista, o bom amigo, o bom companheiro, o bom trabalhador, são expressões que transmitem um modelo de adequação. É preciso ser adequado para que o mundo se organize, que as coisas sejam redondas e que não apresentem intercorrências desnecessárias. As intercorrências geram a bagunça, a corrupção, a lástima, a crise, o desespero, a dor, o ódio, a gula, a pressa, a doença. Substantivos que adjetivam inconvenientes para o progresso de uma vida em sociedade, que desde cedo ensina as crianças a sorrir e brincar com atores vestidos de palhaço, em patéticos programas de televisão. Esta regulamentação de nossa vida, desenfreada, é nosso principal gerador de sintomas. Sintomas como expressão de uma moral que diz o que deve ser adequado. Sintomas que são construídos sem nenhum respeito a relativismos culturais, por serem fundamentados, segundo os especialistas da tevê, em achados ou tendências genéticas. Um achado genético mata qualquer idiossincrasia, compreensão identitária, expressão singular.

Tomemos cuidado com as “novas” patologias e expressões sintomáticas. Como psicopatólogos, é ético que não adiantemos sentido para a vida de nossos pacientes. Admitamos que a vida é um inconveniente que se desdobra desde o momento do parto, ou façamos de suas vicissitudes, lucro.

Vinícius Armiliato é psicanalista. Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

Um comentário sobre “Aos psicopatólogos

  1. A patoligizaçāo ou o discurso patoligizante, não é nada novo. Já se estudava a desordem da sociologia nos tempos antigos. No século XVll ao XlX já se analisava a obesidade como a patoligizaçāo dos feios, dos corpulentos, dos vícios e dos intemperantes.
    A gordura e os vícios eram anunciados como doença da feiura.
    A sociedade vem sendo atacada por grupos que tem como comum de nossos tempos aos daqueles, o uso da régua.

    O texto lido, fala de nossa vida moderna regulamentada por uma régua moderna; os olhos de cristal das câmeras de alta resolução nos mede e faz as pessoas serem medida sem levar em conta o estilo de vida própria de cada indivíduo livre, como parte da sociedade. Cria na sociedade o que o escritor chamou de entropia que leva a desorganização e consequente desgastante que também chamou de intercorrěncia. Quando a sociedade não aceita os movimentos naturais e tomam o leme da embarcação e não conhecendo os perigos; podem sofrer as consequências de um evento inesperado com consequências desastrosas a todo o sistema.
    E continua… esta regulamentação da vida desenfreada, é o nosso princípio gerador de sintomas. Sintoma é apenas a reação do problema que esta por debaixo do relativismo cultural e social criados por especialistas da tv.

    Publicado por Ezaquiel Mello | 4 de setembro de 2016, 4:43 pm

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