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Poesia, Vinícius Armiliato

Biografia IV

Noite. Acaba a luz. Chuva.

Com medo, sem tevê, só grilos e barulhos

de uns carros distantes.

Escuro, sem tevê, sozinho.

Viu-se irrefletido na penumbra.

Percebeu que ali, no silêncio, sem imagens, não era reflexo

de nada. A vida não lhe refletia.

Seus passos é que refletiram, nesses anos todos,

o mesmo, o mecânico, o gesto codificado.

J. não se encontrava no silêncio, nos grilos.

nos barulhos da rua.

Não se ouvia na respiração.

Há tempos que não havia se dado conta de que

respirava. Que uma coluna de ar ocupava e desocupava seu

corpo. Que à noite, quando a chuva parava, se produzia um cheiro.

Ele se ouviu respirar. No silêncio, ouviu sua velhice nos pequenos estalos das articulações de seu pescoço inflexível. Ali refletiu. Sem luz, sem bateria, sem rede, sem vela, sem ninguém, ficou com medo de a luz nunca mais voltar e ele nunca mais voltar a ser invisível para si próprio! Espanto ver que ainda conseguia, depois de uma vida, fazer proposições absurdas. a ponto de calcular o que precisava para se fazer pendurar no varão

Vinícius Armiliato é psicanalista. Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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