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A Sociologia e as várias possibilidades teóricas

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Fatos sociais

Tags:

Karl Marx, Émile Durkaim, Friedrich Engels, Max Weber, Norbert Elias, Pierre Bourdieu

O alemão Max Weber, diferentemente de Durkheim, tem como preocupação central compreender o indivíduo e suas ações. Por que as pessoas tomam determinadas decisões? Quais são as razões para seus atos? Segundo esse autor, a sociedade existe concretamente, mas não é algo externo e acima das pessoas, e sim o conjunto das ações dos indivíduos relacionando-se reciprocamente. Assim, Weber, partindo do indivíduo e de suas motivações, pretende compreender a sociedade como um todo.

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Dinheiro – elemento de intercâmbio social

O conceito básico para Weber é o de ação social, entendida como o ato de se comunicar, de se relacionar, orientado pelas ações dos outros. A palavra outros, no caso, pode significar tanto um indivíduo apenas como vários, indeterminados e até desconhecidos. Como o próprio Weber exemplifica, o dinheiro é um elemento de intercâmbio que alguém aceita no processo de troca de qualquer bem ou serviço e que outro indivíduo utiliza porque sua ação está orientada pela expectativa de que outros tantos, conhecidos ou não, estejam dispostos a também aceitá-lo como elemento de troca.

Seguindo esse raciocínio, Weber explica por meio de dois exemplos o que não é uma ação social:

  • Quando vários indivíduos estão caminhando na rua e começa a chover,

muitos abrem seus guarda-chuvas ao mesmo tempo. Essa ação de cada

indivíduo não está orientada pela dos demais, mas sim pela necessidade

de proteger-se da chuva. Não é, portanto, uma ação social.

  • Quando, numa aglomeração, indivíduos se reúnem por alguma razão,

agem em influenciados por comportamentos de massa, isto é, fazem determinadas coisas porque simplesmente todos estão fazendo. Essa ação influenciada também não é uma ação social.

Ao analisar o modo como os indivíduos agem e levando em conta a maneira como eles orientam suas ações, Max Weber agrupou as ações sociais em quatro tipos: ação tradicional, ação afetiva, ação racional com relação a valores e ação racional com relação a fins.

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Família – ação tradicional e estímulos habituais

A ação tradicional tem por base a tradição familiar, um costume arraigado.

É um tipo de ação que se adota quase automaticamente, reagindo a estímulos habituais ou por imitação. A maior parte de nossas ações cotidianas é desse tipo.

A ação afetiva tem o sentido vinculado aos sentimentos e estados emocionais de qualquer ordem na busca da satisfação de desejos.

A ação racional com relação a valores fundamenta-se em convicções e valores (éticos, estéticos, religiosos ou qualquer outro), tais como o dever e a transcendência de uma causa, qualquer que seja seu gênero. O indivíduo age de acordo com aquilo em que acredita, independentemente das possíveis consequências, tendo por fundamento determinados valores que lhe parecem ordenar que realize isso ou aquilo.

Nas palavras de weber Sobre a ação social

  1. A ação social (incluindo tolerância ou omissão) orienta-se

pelas ações de outros, que podem ser passadas, presentes ou esperadas como futuras (vingança por ataques anteriores, réplica a ataques presentes, medidas de defesa diante de ataques futuros). Os “outros” podem ser individualizados e conhecidos ou então uma pluralidade de indivíduos indeterminados e completamente desconhecidos (o “dinheiro”, por exemplo, significa um bem — de troca — que o agente admite no comércio porque sua ação está orientada pela expectativa de que outros muitos, embora indeterminados e desconhecidos, estarão dispostos também a aceitá-lo, por sua vez, numa troca futura).

  1. Nem toda espécie de ação — incluindo a ação externa — é “social” no sentido aqui sustentado. Não o é, desde logo, a ação exterior quando esta só se orienta pela expectativa de determinadas reações de objetos materiais. A conduta íntima é ação social somente quando está orientada pelas ações de outros.

Não o é, por exemplo, a conduta religiosa quando esta não passa de contemplação, oração solitária, etc. A atividade econômica (de um indivíduo) somente o é na medida em que leva em consideração a atividade de terceiros. […] De uma perspectiva material: quando, por exemplo, no “consumo” entra a consideração das futuras necessidades de terceiros, orientando por elas, desta maneira, sua própria poupança. Ou quando na “produção” coloca como fundamento de sua orientação as necessidades futuras de terceiros, etc.

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Religião- espiritualidade, ação social e alienação

  1. Nem toda espécie de contato entre os homens é de caráter social; mas somente uma ação, com sentido próprio, dirigida para a ação de outros. Um choque de dois ciclistas, por exemplo, é um simples evento como um fenômeno natural. Por outro lado, haveria ação social na tentativa dos ciclistas se desviarem, ou na briga ou considerações amistosas subsequentes ao choque.

A ação racional com relação a fins fundamenta-se num cálculo com base no qual se procuram estabelecer os objetivos racionalmente avaliados e perseguidos e os meios para alcançá-los. Nesse tipo de ação, o indivíduo programa, pesa e mede as consequências em relação ao que pretende obter.

Para Weber, essa classificação não engloba todos os tipos de ação social. Ela é composta de tipos conceituais em estado puro, construídos para desenvolver a pesquisa sociológica. Esses “tipos ideais” são ferramentas (construções) teóricas utilizadas pelo sociólogo para analisar a realidade. Os indivíduos, quando agem no cotidiano, mesclam alguns ou vários tipos de ação social.

Como se pode perceber, de acordo com Weber, ao contrário do que defende Durkheim, as razões para a ação do indivíduo não são algo externo a ele.

O indivíduo escolhe condutas e comportamentos, dependendo da cultura e da sociedade em que vive. Assim, as relações sociais consistem na probabilidade de que se aja socialmente com determinado sentido, sempre numa perspectiva de reciprocidade por parte dos outros.

Norbert Elias e Pierre Bourdieu:

a sociedade dos indivíduos

Examinamos até aqui três diferentes perspectivas de análise da relação entre indivíduo e sociedade. Para Marx, o foco recai sobre os indivíduos inseridos nas classes sociais e as contradições e conflitos entre elas. Para Durkheim, o fundamental é a integração dos indivíduos na sociedade. Para Weber, os indivíduos e o sentido de suas ações são os elementos constitutivos da sociedade. Apesar das perspectivas diferentes, todos buscaram explicar o processo de constituição da sociedade e a maneira como os indivíduos se relacionam, procurando identificar as ações e instituições fundamentais.

Dois autores contemporâneos analisaram a relação entre indivíduo e sociedade procurando integrar esses polos: o sociólogo alemão Norbert Elias e o francês Pierre Bourdieu. Vamos conhecer a seguir os principais conceitos que ambos construíram.

O conceito de configuração

De acordo com o sociólogo alemão Norbert Elias, é comum distanciarmos indivíduo e sociedade quando falamos dessa relação, pois parece que julgamos impossível haver, ao mesmo tempo, bem-estar e felicidade individual e uma sociedade livre de conflitos. De um lado está o pensamento de que as instituições — família, escola e Estado — devem estar a serviço da felicidade e do bem-estar de todos; de outro, a ideia da unidade social acima da vida individual.

As distinções entre indivíduo e sociedade levam a pensar que se trata de duas coisas separadas, como mesas e cadeiras, tachos e panelas. Ora, para Elias, em seu livro A sociedade dos indivíduos, é somente nas relações e por meio delas que os indivíduos adquirem características humanas como falar, pensar e amar.

E poderíamos complementar declarando que só é possível trabalhar, estudar e divertir-se em uma sociedade que tenha história, cultura e educação, e não isoladamente.

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Busca constante da Felicidade

Para explicar melhor o que afirma e superar a dicotomia entre indivíduo e sociedade, Elias criou o conceito de configuração (ou figuração). É uma ideia que nos ajuda a pensar nessa relação de forma dinâmica, como acontece na realidade. Para ele, configuração é a teia de relações de indivíduos interdependentes que estão ligados de diversas maneiras e em vários níveis, pelos quais perpassam relações de poder.

Tomemos um exemplo: se quatro pessoas se sentam em volta da mesa para jogar baralho, formam uma configuração, pois o jogo é uma unidade que não pode ser concebida sem os participantes e sem as regras. Sozinho, nenhum deles consegue jogar; juntos, cada um tem a própria estratégia para seguir as regras e vencer.

Vamos citar um exemplo mais brasileiro. Em um jogo de futebol, temos outra configuração, ou seja, há um conjunto de “eus”, de “eles”, de “nós”. Um time de futebol é composto de vários “eus” — os jogadores —, que têm um objetivo único ao disputar com os do outro time. Há também as regras que devem ser levadas em conta e a presença de um juiz e dos bandeirinhas, que lá estão para marcar as possíveis infrações. Além disso, há a torcida, que também faz parte do jogo e congrega vários outros indivíduos com interesses diferentes, mas que, nessa configuração, têm um objetivo único: torcer para que seu time vença.

Assim, durante o jogo há um fluxo contínuo, que só pode ser entendido nesse contexto, nessa configuração. Essa relação acontece entre os jogadores, entre eles e a torcida, entre eles e o técnico, entre os torcedores, e entre todos e as regras, os juízes, os bandeirinhas, os técnicos e os gandulas. Fora desse contexto, não há jogo de futebol, mas apenas pessoas, que viverão outras configurações, em outros momentos.

No grupo social é assim: não há separação entre indivíduo e sociedade. Tudo deve ser entendido de acordo com o contexto; caso contrário, perdem-se a dinâmica da realidade e o poder de entendimento.

O conceito de configuração pode ser aplicado a pequenos grupos ou a sociedades inteiras, constituídas de pessoas que se relacionam. Esse conceito chama a atenção para a dependência entre as pessoas. Por isso, Elias utiliza a expressão sociedade dos indivíduos, realçando a unidade, e não a divisão.

Nas palavras de Elias – Escolhas e repercussão social

Toda sociedade grande e complexa tem, na verdade, as duas qualidades: é muito firme e muito elástica.

Em seu interior, constantemente se abre um espaço para as decisões individuais. Apresentam-se oportunidades que podem ser aproveitadas ou perdidas. Aparecem encruzilhadas em que as pessoas têm de fazer escolhas, e de suas escolhas, conforme sua posição social, pode depender seu destino pessoal imediato, ou o de uma família inteira, ou ainda, em certas situações, de nações inteiras ou de grupos dentro delas.

Pode depender de suas escolhas que a resolução completa das tensões existentes ocorra na geração atual ou somente na seguinte. Delas pode depender a determinação de qual das pessoas ou grupos em confronto, dentro de um sistema particular de tensões, se tornará o executor das transformações para as quais as tensões estão impelindo, e de que lado e em que lugar se localizarão os centros das novas formas de integração rumo às quais se deslocam as mais antigas, em virtude, sempre, de suas tensões.

Mas as oportunidades entre as quais a pessoa assim se vê forçada a optar não são, em si mesmas, criadas por essa pessoa. São prescritas e limitadas pela estrutura específica de sua sociedade e pela natureza das funções que as pessoas exercem dentro dela. E, seja qual for a oportunidade que ela aproveite, seu ato se entremeará com os de outras pessoas; desencadeará outras sequências de ações, cuja direção e resultado provisório não dependerão desse indivíduo, mas da distribuição do poder e da estrutura das tensões em toda essa rede humana móvel.

O conceito de habitus

Habitus é outro conceito utilizado por Norbert Elias. Além de ser esclarecedor, esse conceito estabelece uma ligação entre o pensamento de Elias e o do francês Pierre Bourdieu. Para Elias, habitus é algo como uma segunda natureza, ou melhor, um saber social incorporado pelo indivíduo em sociedade. Ele afirma que o destino de uma nação, ao longo dos séculos, fica sedimentado no habitus de seus membros. É algo que muda constantemente, mas não rapidamente, e, por isso, há equilíbrio entre continuidade e mudança.

A preocupação de Bourdieu, ao retomar o conceito de habitus, era a mesma de Elias: ligar teoricamente indivíduo e sociedade. Não há diferença entre o que Elias e Bourdieu pensam em termos gerais; apenas na maneira de propor a questão.

Para Bourdieu, o habitus se apresenta como social e individual ao mesmo

tempo, e refere-se tanto a um grupo quanto a uma classe e, obrigatoriamente, também ao indivíduo.

A questão fundamental para ele é mostrar a articulação entre as condições de existência do indivíduo e suas formas de ação e percepção, dentro ou fora dos grupos. Dessa maneira, seu conceito de habitus é o que articula práticas cotidianas — a vida concreta dos indivíduos — com as condições de classe de determinada sociedade, ou seja, a conduta dos indivíduos e as estruturas mais amplas. Fundem-se as condições objetivas com as subjetivas.

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Pobres e ricos- desigualdade social

Para Bourdieu, o habitus é estruturado por meio das instituições de socialização dos agentes (a família e a escola, principalmente), e é aí que a ênfase na análise do habitus deve ser colocada, pois são essas primeiras categorias e valores que orientam a prática futura dos indivíduos. Esse seria o habitus primário, por isso mais duradouro — mas não congelado no tempo.

À medida que se relaciona com pessoas de outros universos de vida, o indivíduo desenvolve um habitus  secundário, não contrário ao anterior, mas indissociável dele. Assim vai construindo um habitus individual conforme agrega experiências continuamente. Isso não significa que será uma pessoa radicalmente diferente da que era antes, pois se modifica sem perder suas marcas de origem, de seu grupo familiar ou da classe na qual nasceu. Os conceitos e valores dos indivíduos (sua subjetividade), segundo Bourdieu, têm uma relação muito intensa com o lugar que ocupam na sociedade. Não há igualdade de posições, pois se vive numa sociedade desigual.

Por exemplo, no Brasil, teoricamente, todos podem ingressar na universidade, mas, de fato, as chances de que isso aconteça são remotas, porque há condições objetivas e subjetivas que criam um impedimento: a falta de vagas, as deficiências do ensino básico, um vestibular que elimina a maioria ou um pensamento como este: “Não adianta nem tentar, pois não vou conseguir”. Ou este: “Para que ingressar em um curso superior se depois não terei possibilidade de exercer a profissão?”.

Nas palavras de Bourdieu  – Habitus, o que é isso?

Os habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas — o que o operário come e, sobretudo, sua maneira de comer, o esporte que pratica e sua maneira de praticá-lo, suas opiniões políticas e sua maneira

de expressá-las diferem sistematicamente do consumo ou das atividades correspondentes do empresário industrial; mas são também esquemas classificatórios, princípios de classificação, princípios de visão e de divisão e gostos diferentes. Eles estabelecem as diferenças entre o que é bom e mau, entre o bem e o mal, entre o que é distinto e o que é vulgar etc., mas elas não são as mesmas. Assim, por exemplo, o mesmo comportamento ou o mesmo bem pode parecer distinto para um, pretensioso ou ostentatório para outro e vulgar para um terceiro.

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Poder e Violência desde sociedades mais antigas

Como se pode perceber, a Sociologia oferece várias possibilidades teóricas para a análise da relação entre indivíduo e sociedade. Além dos autores aqui apresentados, muitos outros tratam das mesmas questões e propõem alternativas a fim de que se possa escolher a perspectiva mais apropriada para examinar a realidade em que se vive e buscar respostas para as perguntas que se fazem. A diversidade de análises é um dos elementos essenciais do pensamento sociológico.

Fontes:

www.sbsociologia.com.br

www.editorasaraiva.com.br

www.sbs2015.com.br

Fontes  complementares:

Weber, Max. Ação social e relação social. Apud: Foracchi,

Marialice  Mencarine; Martins, José de Souza. Sociologia e

sociedade: leituras de introdução à sociologia.

Rio de Janeiro/São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, 1977. p. 139.

Elias, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar, 1994. p. 48.

Bourdieu, Pierre. Razões práticas. 4. ed. Campinas:

Papirus, 1996. p. 22.

Carlos Evangelista é jornalista (ESEEI) e especialista em Sociologia Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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