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Política e Sociedade, Vinícius Armiliato

Pai de trigêmeos põe a cabeça tranquilamente em seu travesseiro todas as noites

É bastante sutil, mas uma sobrancelha, um respiro, uma mecha branca e uma balançada de pescoço podem em muito alterar o curso da história. E não é apenas com relação a colocar ou tirar um presidente do poder. Pode ser também nas discussões sobre Drogas (O Clone, 2001-2), fim do mundo (Fim do Mundo, 1996), crianças desaparecidas (Explode Coração, 1995), Movimento dos Sem Terra (Rei do Gado, 1996-7), corrupção (A Indomada, 1997), relação homoafetiva entre caminhoneiros (Carga Pesada, 2003-8). Ué, mas o que o homem da mecha branca tem a ver com esses roteiros gravados? Tem a ver que são esses temas que compõem a pauta das discussões polêmicas, as quais fazem nossas almas se dedicarem a pensa-las e discuti-las na vida cotidiana. Se tem na novela, discutamos o beijo lésbico este mês. Às vezes a visita de um papa, que não está prevista na novela, também compõe a pauta da semana. A televisão é genial porque contribui para construir não só uma série de ideologias, como também as críticas às próprias ideologias ou à sua atuação enquanto tv. Por exemplo, não são poucos os blogs e timelines que viabilizam reportagens e críticas consistentes às famílias mandatárias da informação no Brasil, às distorções das informações, às ideias conservadoras de candidatos. Mas o que me toca nessa discussão é como levantar essa própria discussão. Tenho a impressão de que não conseguimos personalizar algumas coisas. Reclamamos dos políticos, dos corruptos, das famílias brasileiras, dos banqueiros, dos capitalistas, da tv. Isso, tenho a impressão, nos afasta de um confronto mais direto, no qual tenhamos que assumir nossas posições enquanto máquinas de guerra. E aqui, a noção de politicamente correto, bem estabelecida depois de longos anos de transmissões televisivas, conduz nossos atos, palavras e omissões. Digo isso porque o politicamente correto nos coloca em uma tolerância a qual é administrada pelos meios de comunicação de massa. Eles nos ensinam a tolerar e nos dão as pautas das “tolerâncias”. Assim, brigamos pelas causas menores, pelas causas mais amplas, mas não encontramos um corpo personificado que a sustente (talvez haja aqui no argumento uma interpretação que enviesa um perigo: o da repetição de organizações fascistas, as quais determinam biótipos/filogêneses/profissões específicos para serem eliminados. No entanto, a discussão e a necessidade de personalização que defendo, não são com o fim de assassinar brutalmente o componente do casal mais imparcial do Brasil, mas sim outro, o qual apontarei ao final deste texto). Assim, não conseguimos fomentar ódio pelo homem que nunca mostrou suas pernas na tv, todas às noites, às 20h30. Por isso, não conseguimos imaginar que ele possa ser um perverso, um indiferente às demandas democráticas, alguém que não só responde a, como é um aparelho maior. Assim foi, que nos comentários dos debates das eleições, o mesmo foi cotado a presidente, certamente a partir de uma impressão de que este sujeito apenas transmite a verdade, os fatos como eles são, isento o apresentador, portanto, de julgamentos e de valores morais.

É preciso lembrar que tanto a CBF quanto os meios de comunicação de massa são empresas privadas, que tem donos, os quais visam lucros, e não verdades ou demonstrações da nata futebolística brasileira. A imagem de que tais meios possam ser parciais ou imparciais, a qual carregamos, nos coloca vítima dos mesmos, fazendo-nos demandar deles medidas mais justas de divulgação da notícia. Assim, se nas eleições de 2002, quando pouco nos importamos com o impulso dado à candidatura de Lula através dos imparciais balanceios da cabeça do âncora editor-chefe mais charmoso do país, hoje, reclamamos do explícito apoio à direita. Enquanto utilizarmos a voz do âncora como critério para ou nos sincronizarmos ao sistema, ou o revolucionar, seguiremos marchando às ruas com a ideia de que nossos protestos tem que ser divulgados pela boca do homem que senta ao lado da Poeta, e nos limitaremos à ingênua crença de que os donos e editores das empresas de transmissões televisivas, carregam consigo uma prudente ideia de bem, de democracia e de justiça.

Será que esse é o caminho do endereçamento e da contestação de nossas questões, especialmente via redes sociais? Quando assim fazemos, confiamos a um grupo seleto de jornalistas, industriais, donos de empresas de prestação de serviços, grandes latifundiários, a mediação da nossa relação com os três poderes. Dizemos: “isso tem que aparecer na Globo!”. Ou dizemos: “por que que a globo não falou isso, ora, eles tinham que falar!”, ou ainda, “Eles editaram o discurso da candidata, isso não pode, pois favorece seu adversário!”. Lembro que foi chamada de boicote a falta de cobertura pelos editores da emissora, da última greve nas universidades federais. Será que podemos qualificar tal ação como boicote? Por certo, é uma possibilidade, uma vez que dependemos dela para disparar nossas opiniões em um cenário mais amplo. Mas talvez seja preciso primeiramente fazer uma limpeza nas nossas lentes que miram o papel da televisão e do jornalismo da grande mídia. Esse olhar tende a enxergar a Globo como aquela que trata a informação com isonomia ou, se quando não trata assim, tem o dever de tratar, de se retificar, de mudar sua postura com relação a algum tema polêmico, mesmo que tenhamos que fazer uma petição no Avaaz. Como empresa, tem o direito de divulgar aquilo que melhor gerará lucro e poder no mercado. No entanto, até reclamamos sobre isso, e ela nos dá meios e “ideias-cabeça” para compartilharmos Muito além de Cidadão Kane no Facebook. No entanto, creio que é preciso organizar o olhar sobre a televisão, personalizar, dar nomes às pessoas e evitar falar em termos gerais. Creio que esse modelo não é simples, e reconheço que não o cumpro plenamente neste texto. Mas o exercício proposto é, gradativamente, “dar nome aos bois”. Para minha avó, que organiza sua rotina e seus assuntos a partir de uma televisão sempre ligada ao centro da sala, é muito mais duro se eu falo “O Willian Bonner é um dos grandes responsáveis pelas mazelas sociais” do que “A Globo é uma depravada”. Ou então: “O Luciano Huck e a Regina Casé apenas fazer a coisa ficar como está, ou seja, ruim e desigual” do que “O caldeirão do Huck e o Esquenta apenas deixam a coisa como está, alimentam um ‘como é bom ser lascado!’”.

O que tento propor no texto são três coisas: que uma perspectiva possível na manifestação contra o mass media seria a personalização, a qual daria nomes às pessoas e não às instituições, sublinhando a incompatibilidade da vida em sociedade, quando interesses entre pessoas conflitam (quem melhor do que Brecht ou Sergio Bianchi para tais demonstrações) e; da necessidade de construir a compreensão de que a tv é uma empresa semelhante a qualquer outra (Coca-cola, Mcdonalds, ou aquelas que aparecem em The Corporation), tornando enfadonho querer que esta propague ideias para avanços da humanidade ou da vida em sociedade.

Há também outra ação que proponho: desligar a tv, jogá-la fora, queimar seu receptor ou, a que mais recomendo, doar o aparelho para algum artista. Ele certamente terá ideias mais criativas sobre o que fazer com ela.

A questão pode ser tão “polêmica” quanto aquela que versa sobre legalização das drogas, a qual levanta o argumento de que as mortes decorrentes da ilegalidade do tráfico são muito maiores do que aquelas por abuso de substância. Quanto à tv, não é muito diferente. Vive mais gente morta se a tv estiver em casa ligada, do que morre gente infeliz por não ter um barulhinho à noite, quando chega em casa. Por conta disso, precisamos cuidar, pois as redes sociais não representam emancipação direta da informação. Enquanto assistirmos tv todas as noites, calibrarmos nossas opiniões com o jornal, comparando-as com aquilo que passou ou que deixou de passar, como se sincroniza um aplicativo, ou seja, pensando as opiniões com relação à nuvem a qual contém o que o Willian Bonner disse ou não disse, não sairemos de dentro do círculo delimitado pelo homem que embranqueceu seu cabelo conosco nos últimos anos, e discutiremos as pautas do editor-chefe da nossa vida. Assim, nosso movimento se paralisa ao repetir contradições ou concordâncias com os temas polêmicos da semana. Patinamos no caminhar da discussão, nos hipnotizamos na tolerância, nos abaixamos nas manifestações para policiais identificarem e prendem supostos vândalos, deixamos de sair às ruas por causa desses mesmos vândalos e sprays de pimenta. Se não desligarmos a tv, personalizarmos os responsáveis, e não a entendermos como uma empresa, o homem ao qual me referi recorrentemente neste texto, sempre antes de dormir, vai cumprir a manchete anunciada no título deste post.

Pai de trigêmeos

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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