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Vinícius Armiliato

Da espera. Do orgulho. Da fantasia. Da dissimulação. Sobre o espetáculo Do cão fez-se o dia

INOMINÁVEL CIA DE TEATRO

Assim, do cão fez-se o dia. Porque a construção de verdades sobre as violências incompreendidas do mundo, transmitem a sutil fragilidade e potência das ideias de uma criança. Fragilidade porque a ingenuidade da crença de uma criança se torna o avesso da esperança fria, formal e politicamente correta dos adultos, de que as coisas fiquem bem, mesmo sabendo que não ficarão. Potência, pois a crença no querer, como artimanha para conseguir o que se deseja, como tornar a ver quem partiu, ou conhecer quem nunca existiu, revela a força fantástica do mundo das ideias de um infantil sujeito. Basta querer, que quem partiu voltará, ou quem nunca existiu, virá a ser. Aquilo que se ignora da verdade da guerra, por um criança, se esconde em pequenas dissimulações cotidianas de uma mãe. Assim, o espetáculo trata de uma guerra que é também de cada um que o assiste, com suas verdades falsamente construídas. É esse um dos pontos que o espetáculo Do cão fez-se o dia, da Inominável Companhia de Teatro, fez ressoar com as verdades de seus espectadores.

Uma dramaturgia que leva aquele que assiste a um obrigatório confronto com suas veladas crenças infantis. É possível localizar no espetáculo um elo com aquilo que construirmos enquanto crianças, para nos sustentarmos simbolicamente, diante de um mundo perverso, frio e em guerra. Verdades que podem ressoar na plateia como toscas ou fantasiosas, não porque a criança não sabe da verdade das coisas, mas porque nós, adultos, que nos encontramos com aqueles personagens, sentimos nosso próprio mal-estar de ter renunciado às nossas mais autênticas esperanças infantis. A noção de esperança, que nasce de um mundo em ruinas, só se aplica ao nosso olhar já morto para a ordenação fria e truculenta do mundo. E é nesse lugar que o espetáculo tem possibilidades potentes para gerar afetações em seu publico. Como aponta o programa, há um menino que busca nos livros chaves para suportar a dor. Assim como nós que vamos ao teatro para, às vezes disfarçada e inconscientemente, suportar essa dor.

O encontro na troca de olhares dos atores com a plateia, especialmente quando o mais íntimo é revelado, toca. Porque falar de si, Fabiane de Cezaro, de fato não é simples. Falar de uma dor, de uma falta que poderia ser diferente, de uma espera desconfortável, precisa de posição franca, firme e sincera. Use o teatro sempre para falar de si, nem que seja por meios indiretos e sutis. Pois é onde, em cena, você aparece com brutal força. É onde a gente esquece que está vendo uma peça com personagens, e materializa a rudeza das imagens da dor e do orgulho que te invadem, enquanto atriz, enquanto pessoa. Vida longa a esse orgulho! Orgulho de subir a um palco e de não sucumbir quando te expulsam de casa justamente porque te orgulhas. Orgulho potente para perfurar esse espectador que nunca vai ser quem você quis que fosse todas as noites, durante tuas temporadas.  Espectador que está lá para te ouvir e que irremediavelmente estará lá para trocar a dor da vida ingrata que leva, suportando a barbárie de nossos orgulhos grosseiros.

Que a Inominável não cesse sua investigação dramatúrgica e de linguagem, a qual indica, e é o que se pôde ver em Do cão fez-se o dia, um futuro promissor!

(o espetáculo ficou em cartaz entre 18 e 28 de setembro de 2014, no Miniauditório do Teatro Guaíra)

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

Um comentário sobre “Da espera. Do orgulho. Da fantasia. Da dissimulação. Sobre o espetáculo Do cão fez-se o dia

  1. Belíssima convocação a uma crua reflexão acerca do “eu-puro”, caro amigo Vinicius. “Falar de uma dor, de uma falta que poderia ser diferente, de uma espera desconfortável, precisa de posição franca, firme e sincera.” Sem comentários, né…abraços querido amigo.

    Publicado por edervedder74 | 10 de outubro de 2014, 8:04 pm

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