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Eder Silva, Violência e Cidadania

Ditos, ritos e mitos na violência urbana

Lembrei-me de um trecho de uma canção ao deparar-me com este video, uma entrevista um tanto bizarra, mas com algum aspecto de realidade social. Me senti um tanto culpado, pesado e sombrio. Caí naquele velho dilema: é a sociedade que produz o indivíduo ou indivíduos, em suas interações, que produzem a sociedade… Não sei responder. Me atrevo a sugerir que a imagem deste indivíduo possa ser o reflexo da reprodução daquilo que desperdiçamos de puro, ambicionando toda ganância, acumulação de ilusões perecíveis e deslealdade aos da mesma espécie. A canção dizia assim: “… e há tempos nem os santos tem ao certo a medida da maldade; e há tempos são os jovens que adoecem; e há tempos o encanto está ausente, e há ferrugem nos sorrisos e só o acaso estende os braços à quem procura abrigo…”.

Quando penso por este prisma: do que erroneamente, mas insistentemente chamamos de “sociedade”, o que me vem no estomago é uma vontade de vomitar. Vomitar toda hipocrisia, toda arrogância e mesquinhês que desfila nas esquinas, nos jornais, nos pontos de ônibus, nas solenes reuniões e até mesmo nos porões de nossa própria consciência.

Me arrependo de um dia ter acreditado que poderíamos ter chances de mudança, que poderíamos evoluir (só não sei pra onde). Vejo ilusões de toda espécie, pintadas nas paredes branqueadas das estruturas de poder que insistem em se fazer normatizadoras. Vejo caras dissimuladas e encobertas de truculências, dispostas a almejar o mais alto lugar nesta Torre de Babel, dispostas a passar a perna até no Criador que as tolera, pelo menos por um pouco de tempo.

Se você leitor, ainda não desistiu de ler este post, tenho-o por excessão, percebendo sua virtude traduzida na paciência em aturar palavras tão pesadas e lúgubres.

Pergunto-me às vezes aonde está a humanidade? Será que se escondeu por detrás da relva, amedrontada pela engrenagem robotizante materialista? Será que ela foi assassinada e entregue ao exu-caveira, ao tranca-ruas ou ao zé pilintra??? Será que foi oferecida em sacrifícios como holocausto e libação num ritual macabro? Ou se foi comercializada juntamente com a dignidade, trocadas por um prato de lentilhas nas portas dos templos pelos pródigos cambistas pós-modernos? Não sei…só sei que o que vejo são ferrugens, corações entorpecidos e robotizados por um sistema complexo, destemido e avassalador. Quem me dera Cazuza estivesse certo ao dizer que o mundo tá ficando oriental. Não acho não. Me arrisco em dizer que somos vítimas de nossa própria existência, de uma antropofagia pré ordenada e tirânica, simulacro coercitivamente promulgado pela propaganda no estilo do Big Brother (não o da Globo, mas o de Orwell), o admirável mundo novo onde não há lugar para o selvagem, como a profecia huxleiana. E olha que minha fase de ler o Huxley, o Zamiatyn e o Orwell já passou há tempos.

Não tenho, assim, mais ânimo de dizer: fora os corruptos! ou fora a direita! ou, no nossa caso, fora a esquerda! Visto que tais fenômenos são a força motriz que movem a engrenagem das ilusões. Mas o que me cabe neste latifúndio é apenas sussurrar: fora nosso ego, nosso eu! Chega de nós mesmos! Vamos fugir enquanto há tempo, enquanto a banda está passando. Apanhemos o primeiro vôo em direção à Passárgada!

Eder Silva é iniciante nas ciências sociais, especialista em Sociologia Política (UFPR); bacharel em Turismo (UP). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Sobre Eder Silva

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Discussão

2 comentários sobre “Ditos, ritos e mitos na violência urbana

  1. COM CERTEZA O RITUAL É UM MITO.. AS PESSOAS DÃO AS DESCULPAS PARA AS VIOLENCIAS.

    Publicado por LUCIENE MOREIRA | 27 de novembro de 2013, 12:51 pm
    • Acho que também caberia os trocadilhos: ritos, ditos e mitos, o ser humano por detrás da folha de figueira (a velha mania de encontrar desculpas para disfarçar a maldade que infectou o coração humano).
      Brigado pelo comentario.

      Publicado por Eder Silva | 27 de novembro de 2013, 5:21 pm

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