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Carlos Evangelista, Poesia

PAULO LEMINSKI: Silêncio nos ensaios e anseios crípticos sobre a profundidade do pensar

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No dia 7 de junho de 1989, aos 44 anos de idade, morreu o poeta curitibano Paulo Leminski; uma espécie de rigor e humor no estilo “anárquítero de desengenharias” como ele mesmo se denominava, com sua dicção contundente e irreverente a serviço da competência do escrever e da profundidade do pensar. Queremos também ainda e sempre lembrar Leminski.
Em 1997, Alice Ruiz e Aurea Leminski, através da Secretaria da Educação e Secretaria da Cultura do Paraná, durante o governo Jaime Lerner, organizaram o livro Ensaios e Anseios Crípticos, reportando em prosa, o melhor do pensamento poético de Paulo Leminski, que todos sabemos transitou pelos movimentos simbolismo, modernismo, concretismo, poesia marginal e poesia participante, ou seja, passou por todos os movimentos da poesia brasileira do último século. Movimentos estes processados por seu crivo rigoroso e bem humorado. A fusão de rigor e humor é, provavelmente a marca mais característica deste curitibano irreverente, imortalizado pelas autoras e pólo editorial do Paraná.
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Mas o que faz de alguém um poeta? Quais sãos os caminhos, as buscas, os estudos, as leituras, as inquietações que estão por trás da escrita? E quantos, desenvolvendo uma metalinguagem, deixam um guia para a compreensão do fazer poético? A Liberdade do poeta, sem as grades acadêmicas e talvez por isso mesmo, tendo muito para ensinar às academias. Na crítica instigante, na proposta de revolução e ousadia do pensamento e sempre com humor, esta expressão tão especial do intelecto, já escrito ou ainda por vir como proposta poética, tal qual em Catatau ou Manifesto 2:
A literatura de um país pobre
Não pode ser pobre de ideias.
Pobre da arte de um país
Pobre de ideias
Num país pobre.
Num país pobre
Não se pode desprezar
Nenhum repertório
Muito menos
Os repertórios mais sofisticados
Os mais difíceis de aceitar
A primeira vista.
Lembrem-se de Santos Dumont
Sempre haverá quem diga
Que num país pobre
Não se pode ter energia nuclear
Antes de resolver o problema
Da merenda escolar
Errado.
Num país pobre
Movido a carro de boi
É preciso por o carro na frente dos bois.
A cultura letrada já tem um destino no Brasil. Uma história, uma direção, em sentido. Alienada ou não, foi na literatura que surgiram os primeiros gestos de autêntica conscientização da especificidade dos problemas brasileiros. O grande marco foi Euclides. Seus “Sertões” euclidianos abriram os olhos, trouxeram perante a consciência afrancesada da elite brasileira o outro Brasil, o Brasil que lutou nas caatingas de Canudos contra as tropas da república, positivista, juridicamente yankee, branca.
Assim como sempre
É sempre o futuro
Que faz o passado.
A imaginação é o limite
Caso extremo, o da simulação da “inspiração divina”. Mas quem fala na realidade é Deus.
Emissor como mediador.
Receptor-alvo invisível do texto de criação.
Os veículos de massa que envolvem grandes financiamentos exigem retorno de capital
Operam dentro do mais absoluto realismo de comunicação. O público-alvo não é ficção nem abstração, tem que ser um grupo real de compradores-consumidores. Assim é a publicidade. A resposta do público deve ser rápida, contábil, concreta. Já no campo da literatura, qual a função do texto de imaginação? Neste terreno teóricos e artistas perdem-se em nebulosidades de difícil aferição; transformar o mundo e a vida, dar prazer à inteligência, devolver a sensibilidade , despertar consciências, denunciar a injustiça e a opressão, etc, etc.
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A revolução do silêncio.
A voz da maioria silenciosa é silêncio cúmplice.
O silêncio de quem compactua com o silêncio de Hitler e deixa prosseguir o silêncio de Graciliano, o silêncio como desta dos que dançam conforme a música. O silêncio dos que fingem que não sabem o silêncio dos que fazem de conta que não tem nada com isso.
O silêncio comprado com a boa vida
O silêncio dos que dizem viva e deixe viver um toque de silêncio, um minuto de silêncio antes da iluminação. São muitos os silêncios; de Buda, de Jesus, de Pitágoras, de Pascal, de Hermes, de Hitler, de Vargas, de Graciliano, de Werbern, de Spender, de JK, de Jango, de Quadros, de Sarney, (de Collor, de FHC, de Lula e de Dilma diria hoje) e de cada um de nós brasileiros ou não e meu fim silencioso, mas: “não há muito mais a fazer neste mundo”.
Fonte:
Paulo Leminski – Ensaios e Anseios Crípticos. Editora Posigraf, 1997, Curitiba-PR
WWW.todosimesimbolo.com.br
Carlos Evangelista é jornalista (ESEEI) e especialista em Sociologia Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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