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Cotidiano, Eder Silva

Não há mentiras nem verdades aqui … só há música urbana!

E mais uma criança nasceu, nesses dias, iluminada não pela estrela de Belém, mas pelas vertentes de indignação e repúdio aos ditames insanos do sistema rançosamente podre do mandonismo herdado dos nossos colonizadores inquisidores.

E essa criança ainda não tem nome, nem pai, nem mãe. Por enquanto é um simulacro abortivo de tantas outras inseminações. Mas desta vez soltou seu “uivo poético” (ainda não sei se profético) nos tímpanos já entorpecidos de uma nação que se diz “gigante pela própria natureza”.

Há, no mínimo, um paradoxo a ser considerado: “mas que gigante é esse, que dorme em berço esplêndido”, mas que sua luz fora ofuscada desde os idos tempos de uma teimosia ditatorial?

Enfim, a criança nasceu, e seu grito se faz ouvir pelas ruas enlameadas da chuva atípica do inverno.

Quanto ao seu nome, soa no mínimo deselegante arriscar algum para se lhe atribuir. Deixemos que os ventos gélidos se encarregue disso!

Há os que se regozijam com esta nova aurora, com a possível ruptura da letargia ora reinante em nossa sorrateira personalidade.

E há os que torcem o nariz, sentindo pena de um governo no qual necessita muito ainda treinar seu “jeitinho malicioso de se governar”. Que Maquiavel não venha ressuscitar ou aparecer em sonho… Mas navegar é preciso, embora o mar não esteja pra peixe, e sim pra tubarões. Para estes zelosos conservadores de plantão vos digo: Se estão com dó, é simples – levem pra casa!”.

Se há algum trejeito a se notar nessa nova criança nascida em uma manjedoura no meio dos subúrbios, das periferias e dos centros urbanos, é o fato de que não se chama pelo nome, mas por adjetivos cujos signos nos leva a refletir sobre o tempo que se passou onde as mudanças não ocorreram de fato, onde as ideologias já gastas pela demagogia não mais comovem a plateia. Onde o cenário se transfere para as praças, para as arenas; e a disputa não é na agenda pública; a mídia não mais consegue manipular os desejos da massa ou se colocar como interlocutora ou mediadora, mas quem assume a ação neste ritual de interação (GOFFMAN), é a rede social, a matrix onde os simulacros e simulações adquirem “corpus” e notoriedade.

Uma coisa é certa: a mesma ingenuidade de uma democracia principiante não está mais incutida no (in) consciente coletivo. Agora há um quê de maturidade mesclada com intolerância e senso de realidade, onde a crítica, as palavras de ordem e manifesto não são dirigidas à personalidades representativas de governo (s) e sim ao sistema ineficiente, cuja explicação supõe-se decorrente de uma crise de ideologia partidária há muito impregnada na conjuntura política do país, decorrente das necessidades de conchavos (conspirações) de uma elite que rapidamente aprendera a lutar para se manter no poder através de discursos utópicos a uma maioria de eleitores cuja cultura política é ainda rústica e ingênua, mesmo que decorrente das conquistas denominadas sufrágio universal. E desta ambientação (sufrágio universal) nos acomete também derrotas, ou seja, é o mesmo que dar uma ferramenta mas não ensinar o trabalhador o que deve-se fazer com ela. É o mesmo que nos servir um prato de filé mignon contaminado por uma mosca…

Contudo, nessa trajetória que já dura mais de uma semana, eu me arrisco em dizer que o mais certo nesta crise de identidade e de necessidades é que o inimigo se faz conhecer, a saber: a falácia dos sistemas e dos discursos políticos caíram na esquerda do povo. E o que se pode pensar de positivo, é de que a cultura política está se reformatando, se projetando talvez tornando-se mais madura e auto-reflexiva. É uma conjectura a se pensar.

“Pensar é pensar contra. A favor, já bastam os policiais de plantão, a censura dos acomodados, a inércia dos puristas, a visão cega dos falsos gurus. Então, zagaia a ponto de sonhar uma posição improvável: a esquerda da esquerda. Nossa política é a estética do imponderável. Sejamos sinceros: joguemos pedras nos porcos.” (Manifesto Zagaia – http://zagaiaemrevista.com.br/)

“Os tiranos, uma vez saciada sua ferocidade, tornam-se inofencivos; tudo voltaria ao normal se os escravos, ciumentos, não pretendessem também saciar a sua. A aspiração do cordeiro a converter-se em lobo suscita a maioria dos acontecimentos. Quem não tem presas, sonha com elas; deseja devorar por sua vez e o consegue pela brutalidade do número. A história, esse dinamismo das vítimas!” (Cioran, Silogismos da Amargura)

Até quando esperar, a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus…” (Plebe Rude, banda de Brasília).

Eder Silva é especialista em Sociologia Política (UFPR); bacharel em Turismo (UP). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

4 comentários sobre “Não há mentiras nem verdades aqui … só há música urbana!

  1. Concordo plenamente Eder…

    Os protestos não são movimentos meramente isolados, unificados ou badernas de extrema esquerda, como parte da imprensa brasileira afirma. Não é uma rebelião adolescente. É o levante da porção mais intelectualizada da sociedade que deseja pôr fim a esses problemas brasileiros. A classe média jovem, que sempre se mostrou insatisfeita com o esquecimento político, agora “despertou” – na palavra dos manifestantes.”

    Publicado por Fernanda Paula | 23 de junho de 2013, 11:48 am
    • Olá Fernanda. Excelentes apontamentos. Acho que o caminho é por aí mesmo… Depois de muitas reflexões, então inflexões na jugular de um sistema já gasto pelo uso de um mandonismo descabido e covarde! Navegar é preciso. É na desconstrução que se pode acordar um gigante adormecido há séculos.
      Muito obrigado pelo comentário.

      Publicado por Eder Silva | 24 de junho de 2013, 7:22 pm
  2. Bela música urbana, meu caro! temos que conversar hein… estes acontecimentos vem de encontro com as nossas ‘discussões’ néh… a Esperança se alimenta de Coragem!, abç

    Publicado por anovamente | 23 de junho de 2013, 2:30 pm

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