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José Augusto Hartmann, Política e Sociedade

Uma democracia

A política brasileira passa, ao mesmo tempo, por uma estabilização democrática (o que é muito importante) e uma crise ética (o que é preocupante). Estabilizando-se democraticamente, consolida dois grandes partidos que ocupam o espectro “centro” – seja mais para a “direita” ou mais para a “esquerda”.

Do lado da “direita”, o PSDB assume a incumbência de representar uma ideologia (entendida aqui como um conjunto de valores, cultura, ideais, crenças, etc.) que visa avançar num programa em que predomine a competição individual, valorize-se o capital privado (internacional), estimule-se a intolerância religiosa, a repressão sexual e o controle policial. Por outro, o PT passa a ocupar a “centro-esquerda”, propondo-se representar todos os movimentos de distribuição de renda, valorização do capital público (ou estatizado), a liberdade religiosa, sexual e social.

Entretanto, ao buscarem assumir esses espaços no espectro ideológico, esses partidos praticamente excluem da disputa outros, com posições mais definidas quanto a esses aspectos. Assumem-se como representantes de todos os posicionamentos de esquerda ou direita, mas muitas vezes assumem-se somente como centro – e, então, como representantes de qualquer interesse. Em nome de uma governabilidade, fazem acordos entre direita e esquerda, confundindo os programas. Estabiliza-se a democracia, valor raro enquanto promotora da participação popular, porém cria-se pequenos castelos em que se acantonam lideranças híbridas, sorrateiras e muitas vezes mesquinhas.

Nesse ponto, passa-se a sofrer um problema ético. Programas são deformados e alianças inesperadas passam a ocorrer. Uma nova eleição pode ser resposta a alianças indesejadas pelos eleitores, mas corre-se o risco de alimentar o oponente, posicionado no campo ideológico oposto. Poder-se-ia questionar que o eleitor tem a escolha de ir mais à direita ou à esquerda. Entretanto, como passam a criar excelentes máquinas competitivas, devido a sua forte capacidade de realizar alianças, os partidos de centro deixam o eleitor que acompanha eleições, um tanto quanto atado, sem contar a estranha busca pelo “voto válido”.

Assim, ao mesmo tempo em que iniciamos um processo de consolidação democrática, falta-nos desenvolver mecanismos realmente capazes de valorizar uma oposição (e posição) ideológica, que possa apresentar abertamente um programa – e não viver como um abutre dos erros de comunicação do governo. Valorizar o legislativo requer, contudo, que se ocupe em pensa-lo mais atentamente nos meios de comunicação e, até mesmo, na escola. Ciência Política em escolas de Ensino Fundamental ou, ao menos, Médio seria uma boa forma de ligar uma maior parte da população e as instâncias organizadas da política, assim como, talvez, fortalecer a posição ideológica mais perene dos partidos. Poder-se-ia também, ser um mecanismo contrário a posicionamentos antidemocráticos.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL), historiador (UFPR), especialista em Sociologia Política (UFPR) e mestrando em Ciência Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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