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José Augusto Hartmann, Política e Sociedade

Bolsa escravidão. Ou um texto irônico e de mal gosto.

Com a aprovação da formalização da profissão de empregados domésticos uma velha crise veio à tona: o Brasil sem escravidão vai acabar? Assim disseram os donos dos cafezais, juntando-se (numa rara união) com os oligarcas do açúcar. Nossa imprensa, que já não leva mais o nome de “Senhor”, esbravejou: as nobres famílias brasileiras não conseguirão pagar por seus empregados, o Estado deve nos restituir de nossos investimentos! Assim, pensou-se em como a Previdência poderia resolver o problema de nossa triste, porém mui nobre, classe senhorial. Diminuir a contribuição para esse tipo de contrato de trabalho, talvez. Uma bolsa empregados domésticos, talvez.

No dia 05/05/2013, num muito reputado diário de nossa aristocrática nação, uma dama de nossa sociedade (colunista do tal diário) expressou sua indignação com a regulamentação da dita profissão.[1] Escreveu a eminente colunista: “Também não foi falado, mas é bom lembrar,  que as empregadas passaram a ter direito a todos os feriados: os três dias de carnaval, dia 1º de janeiro, dia de S. Jorge, sexta-feira da Paixão, etc. etc. E não vai mais ser preciso chamá-las de secretárias do lar; agora são empregadas, o que antes era considerado ofensivo.” Realmente, feriado para empregados domésticos já está parecendo muito ofensivo. O que vão pensar de nós no Reino Unido?! Que não sabemos o lugar de nossos subalternos? Ainda bem que já podemos chamar essas pessoas como bem quisermos! Ou quase isso.

A colunista segue com sua indignação, e expõe uma cena odiosa: “Dúvidas: elas podem se recusar a trabalhar de uniforme? Se puderem, tente imaginar a cena: servir a mesa em casa de Paulo Maluf, por exemplo, de shortinho de lycra, tomara que caia e sandália havaiana.” Meu Deus!!! Coitado do senhor Paulo Maluf!!! Uma das mais respeitadas personalidades de nosso país. Criado a pão-de-ló por nossa respeitabilíssima direita, para agora cair na desgraça de ter uma pobre de shortinho de lycra em sua casa? Revoltante!

Saindo da reportagem e das opiniões da colunista, lembrei-me de como não ficaram os ilustres fazendeiros brasileiros com a Lei do Ventre Livre. Quando se começa a dar muitos direitos aos subordinados, como crescerá nossa muito justa e cristã nação? Como vai crescer esse bolo, se nem mesmo pessoas como Maluf serão mais respeitadas? Para onde vamos? Barbárie, anarquia? Deus nos livre da ignomínia e abençoe!


[1] LEÃO, Danuza. Alguns palpites, algumas curiosidades. http://www1.folha.uol.com.br/colunas/danuzaleao/2013/05/1273487-alguns-palpites-algumas-curiosidades.shtml. Acesso em 06/05/2013 as 11:47.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL), historiador (UFPR), especialista em Sociologia Política (UFPR) e mestrando em Ciência Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

6 comentários sobre “Bolsa escravidão. Ou um texto irônico e de mal gosto.

  1. será que só a nobre ‘Direita’, usufrue os ‘Direitos’? e os Sinistros Canhotos, continuam andando pela Esquerda, na Contramão? pra valer os ‘Direitos’ integralmente, é inevitável incluir o ‘Esquerdo’…

    Publicado por anovamente | 10 de maio de 2013, 4:46 pm
  2. Não sei o que está considerando como esquerda. Caso seja a parlamentar e burocrática, tudo bem. Caso seja uma posição ideológica não é consistente.

    Publicado por joseaugustohartmann | 11 de maio de 2013, 9:56 am
  3. É, nobre amigo Hartmann, o mandonismo ainda continua sendo um dos alicerces que conduzem nossa nação. Ainda continuo teimando que em nada evoluímos. Mudam-se as cartas, mas o jogo continua o mesminho.
    Abç

    Publicado por Eder Silva | 11 de maio de 2013, 8:26 pm
  4. é Eder…mas vamos com calma…pequenos avanços…

    Publicado por joseaugustohartmann | 11 de maio de 2013, 11:26 pm

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