//
você está lendo...
Adriano Anovamente Woellner, Poesia

Qual a experiência por trás das palavras? Renato Russo escreveu a “PERFEIÇÃO”

PERFEIÇÃO

I.
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões…
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.

II.
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros…
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.

III.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão…

IV.
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada…
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto – com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção.

V.
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera –
Nosso futuro recomeça:
Venha que o que vem é perfeição.

” Urbana Legio 6:4 ”

Adriano Anovamente Woellner é artista das letras, formas, cores e sons, bacharel em Gravura (EMBAP). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

Anúncios

Sobre a n➐w ame n t e

m e s m O u t r o

Discussão

4 comentários sobre “Qual a experiência por trás das palavras? Renato Russo escreveu a “PERFEIÇÃO”

  1. Impactante e real, então penso com meus botões: Será que existe provação maior que nossa existência na terra?. Será que a busca incessante por resposta (ou saída), faz pessoas procurarem a religião em cada esquina? Por enquanto vou lá no dia 3 de maio ver o filme “no cume calmo de meu olho que vê a sombra sonora de um disco voador”.

    Publicado por elicordeirojr | 1 de maio de 2013, 12:24 pm
    • A existência é a nossa “prova real”… a busca pelo “sentido da vida”, está na Fé… sendo assim, cada um busca a sua própria maneira, mas penso que este tal Sentido, A prova real, é Provar do Universo Interior, esse que nos faz existir nessa terra…

      Publicado por anovamente | 2 de maio de 2013, 1:07 pm
  2. Acredito que o Renato Russo foi muito enfático e feliz nesta canção que traduz toda nossa miserabilidade. De maneira intensa, extremamente sensível e perceptível, a Legião Urbana nos brinda denunciando toda sorte de hipocrisia que está enraizada em nossa estrutura psicosocial e espiritual.
    É uma denúncia desconstrutivamente apelativa ao chamado à “conhecer-te a ti mesmo”. Acho que era isso que o Renato sempre buscou incansavelmente em suas poesias melodiosamente magníficas! Parabéns pela ênfase em tão singelo mas significante evento em rememorar a trajetória de um personagem que muito conclamou a juventude na inserção político-democrática em um Brasil com sua ditadura já desgastada. É a inserção dos movimentos de juventude na participação política, visto que a geração anterior (tropicália) tinha sido massacrada pelos podres poderes de uma aristocracia idiotizante. Viva o Rock de Brasília, a turma da Colina e a dança frenetica morrisseyriana.
    P-a-r-a-b-é-n-s

    Publicado por Eder Silva | 3 de maio de 2013, 10:31 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: