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Filosofia, José Augusto Hartmann

O humanismo e a política

Os humanistas realizaram a defesa de uma nova visão para o estudo de filosofia. Thomas More, considerado um dos maiores representantes do Humanismo do norte europeu será, então, um dos mais destacados desses filósofos. Este Humanismo teria como característica a crítica. Crítica enquanto análise histórica, textual e documental. Por isso mesmo, sua análise acabou iluminando também a política. More foi contemporâneo à privatização de terras comunitárias na Inglaterra, os cercamentos. Sendo assim, sua crítica focou esta questão. More, em sua “Utopia” faz uma crítica muito tenaz à propriedade privada. Como os demais humanistas, defende a felicidade da humanidade, e vê na propriedade privada a força motriz da infelicidade dos homens. Isto se encontra exposto na fala do personagem Rafael Hitlodeu, no livro I da “Utopia”: “Eis o que invencivelmente me persuade que o único meio de distribuir os bens com igualdade e justiça, e de fazer a felicidade do gênero humano, é a abolição da propriedade”[1].

Portanto, More, inserido num contexto de caos social devido a falta de terras para muitos exercerem seu trabalho, utiliza-se da apresentação de um diálogo quimérico para expor sua crítica à política inglesa. No fim de sua obra apresenta um ligeiro ceticismo em relação à fala de seu personagem Rafael. Porém, estavam já lançadas várias das ideias utópicas, que são, todavia, representantes de um modelo teoricamente aplicável. Contudo, se utópicas, pois More defende suas ideias inserido num contexto político inglês do século XVI, não descarta ao menos parte de sua realização. Consequentemente, afirma: “Se não se pode desarraigar de uma só vez as máximas perversas, nem abolir os costumes imorais, não é isto razão para se abandonar a causa pública”.[2]

Assim como Thomas More, Erasmo foi outro representante do Humanismo do Norte que apresentou críticas ao poder. Podemos verificar, inicialmente, a forma literária do seu texto. Erasmo fala através da Loucura. É uma obra literária onde uma personagem fala, e através dela o autor expõe suas ideias. More, na “Utopia” já havia utilizado o mesmo mecanismo. Rafael Hitlodeu é um personagem que viajou para várias partes do mundo. A partir deste personagem, dos conhecimentos dados a ele, More faz sua crítica aos problemas ingleses. Um terceiro autor do momento analisado, Etienne de La Boétie, em seu “Discurso da Servidão Voluntária”[3] escreve uma crítica mais direta. Uma obra onde o narrador é o próprio autor e este faz um discurso direto ao leitor. Uma segunda diferença em relação aos outros é o destinatário da crítica. Erasmo, no “Elogio da Loucura” faz uma crítica contundente à hipocrisia social e ironiza a pouca sabedoria de muitos governantes e clérigos. Erasmo defende que os governantes sejam instruídos. Sendo a Loucura quem fala, escreve Erasmo: “Mas, afinal de contas, por que é que esse grande homem foi acusado perante os Magistrados? Por que foi ele condenado a beber cicuta? Não teria sido, talvez a sua sabedoria a causa de todos os seus males e, finalmente, de sua morte?”[4]  Mas a própria Loucura, pretendendo defender ser ela parte da essência do homem, evidenciando uma visão inatista, argumenta para que os homens assumam sua condição. Diz a Loucura que “nós nos enganamos redondamente quando queremos distinguir-nos no gênero humano, recusando-nos a nos adaptar aos tempos”[5]. More faz a sua crítica das divisões e vendas de terras na Inglaterra, mas não rompe com a ordem de “poder político”, se adotarmos uma noção maquiavélica. More escreve em uma fala de Rafael: “Se me referisse às teorias da República de Platão, ou aos usos atualmente em vigor entre os utopianos, coisas melhores e infinitamente superiores às nossas ideias e costumes, então, poder-se-ia crer que eu vinha de outro mundo, porque (…) lá todos os bens são comuns”[6]. Deste modo, estes dois autores exploram problemas internos do poder mas não se desligam de uma organização assim constituída. Erasmo critica a hipocrisia daqueles que são próximos ao príncipe e do próprio príncipe, porém não o sistema de governantes. More, aponta sua crítica, ainda que discordando em alguns pontos de seu próprio personagem ao final do livro, à organização social vigente de governo mas não a necessidade de governo. Na “Utopia” está exposta a defesa dos Clássicos, na defesa a Platão. O sistema de Utopia é inspirado no sistema da “República”, e assim como Erasmo, More defende que os reis sejam sábios. La Boétie rompe radicalmente com esta organização. Seu discurso ataca o conceito de governo. A dominação do homem por um monarca se dá por ser este jugo aceito. O jugo cujo La Boétie ataca, More e Erasmo não cogitaram eliminar.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL), historiador (UFPR), especialista em Sociologia Política (UFPR) e mestrando em Ciência Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.


[1]MORE, Thomas. A Utopia. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1988, pg. 206.

[2]Idem, 202.

[4]ERASMO. Elogio da Loucura. São Paulo; Editora Nova Cultural Ltda, 1988, pg. 35.

[5]Idem, pg. 44.

[6]MORE, Thomas. Op. Cit., pg. 203.

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Discussão

Um comentário sobre “O humanismo e a política

  1. Caro Hartmann, ótimas tags, ótimo texto. Tanto Erasmo quanto Thomas More a meu ver eram sim utópicos, pois criticam atitudes (Erasmo) e sistema (More), mas deixam de criticar a consciência interior, decaída, desprovida de condições mínimas para avançar à individualidade, coisa que La Boétie faz com maestria no Discurso da Servidão Voluntária, explanando magistralmente as raízes da coerção / dominação. Junto à clássicos como Walden, Doutor Jivago, Os Miseráveis e inquestionavelmente “Os Evangelhos da Bíblia Sagrada”, constitue-se em um livro imprescindível aos que desejam conhecer a “verdadeira liberdade”!
    Abraços e meus parabéns, novamente!

    Publicado por Eder Silva | 8 de abril de 2013, 8:06 pm

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