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Filosofia, José Augusto Hartmann

Nietzsche e o conhecimento suprassensível

Nietzsche ironiza a pretensão humana, quando compara a soberba daqueles animais que inventaram o conhecimento e acreditavam ser isso algo muito grandioso, como “o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’”[1] Esse, entretanto, seria também, “somente um minuto”.[2] A partir de uma pequena história, o filósofo expõe “quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza.”[3]Esse filósofo apontava para o caráter subjetivo da ciência, que queria ser objetiva desde Descartes (ou desde Sócrates e Platão).

Quando Descartes fundou o sujeito pensante, como alguém para além da natureza, criador de uma filosofia e ciência que visaria controlar e modificar a natureza, não podia perceber o quanto esse sujeito estava afundado nessa própria natureza. Somente séculos depois, Freud poderia apontar para as três “feridas narcísicas” que o homem sofreria, sendo tirado do centro do universo, da criação e da própria consciência.[4]

Com a (re)valorização da subjetividade, a arte retorna para uma posição de relação com a existência, libertando-se do conhecimento racional e das algemas (que se tornou) da perspectiva vitruviana. Sua relação com a existência tem impulso. Desde final do século XIX e, principalmente, no século XX essa subjetividade será sentida, não somente na pintura, mas também na poesia ou na escultura. O retrato de Jeanne Hébuterne  de Modigliani, a poesia de Lorca, “O beijo” de Rodin, são obras em que a existência está lá, gritando junto ao mundo.

Valorizar a discussão estética no ensino é uma boa possibilidade de valorização dos alunos numa escola em que o currículo nem sempre lhes permitirá grandes êxitos futuros. Discutir a arte, e também arte marginal, como o grafiti, pode possibilitar um reencontro desses alunos com um mundo mais digno, em que pode perceber um espaço. A discussão estética do grafiti, aqui exemplificado, pode contribuir com uma relação mais profunda do artista com a sociedade e vice-versa. Entretanto, a própria marginalização das disciplinas de filosofia e arte, dentro de um currículo que supervaloriza o tecnicismo e o cientificismo, reforça a marginalização de tudo aquilo que tenta romper com essas amarras do indivíduo não-crítico.[5]

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL), historiador (UFPR), especialista em Sociologia Política (UFPR) e mestrando em Ciência Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.


[1] NIETZSHE, Frederich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. In: Antologia de textos filosóficos. Jairo Marçal org. Curitiba: SEED, 2009. pp 530-541. p. 530.

[2] Id.

[3] Id.

[4] CHAUÍ, Marilena. Freud: A consciência pode conhecer tudo? http://www.cefetsp.br/edu/eso/filosofia/freudchaui.html Acesso em 24/03/2013 a 01:25.

[5] Texto adaptado.

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Discussão

4 comentários sobre “Nietzsche e o conhecimento suprassensível

  1. Nossa Hartmann, que petardo, amigo. Então, pelo que entendi, faz-se mais útil o eterno retorno (retrocesso), desconstrução, para que, na tentativa da recriação de algo menos artificial e tecnocrático, possamos então repensar a subjetividade. É o uivo tentando redescobrir-se, no âmago, a natureza ora decaída e alheia às espasmódicas trocas simbólicas que somos, intermitentemente, inclinados na busca de mapear nossa (in) significância.
    Parabéns pela ousadia em nos conduzir à Nietzsche para abordar tema tão essencial!
    Gostei do trecho: “…são obras em que a existência está lá, gritando junto ao mundo”. Lembra o Uivo jazzístico e frenético dos beats, na busca de suas significâncias contraculturais…

    Publicado por Eder Silva | 1 de abril de 2013, 5:56 pm
  2. desconstrução de valores…isso aí Eder, redescobrir-se…

    Publicado por joseaugustohartmann | 1 de abril de 2013, 7:15 pm
  3. que artigo mais contracultural, publicado no primeiro dia de abril, que abriu mais janelas, portas para o (re)valorizar da subjetividade… “redescobrir-se” é a palavra!

    Publicado por anovamente | 2 de abril de 2013, 9:00 pm
  4. tbm acho que surgiu essa palavra: redescobrir-se…

    Publicado por joseaugustohartmann | 2 de abril de 2013, 11:10 pm

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