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Filosofia, José Augusto Hartmann

Albrecht Dürer, o Renascimento e a ruptura com o medievo

O Renascimento pode ser entendido como uma apropriação cultural do período Clássico. Os renascentistas viam-se com alteridade aos medievais e a restrição da produção de conhecimento que a Igreja proporcionava. Da mesma maneira, viam-se como continuadores dos antigos, jamais como copiadores, uma vez que propunham retomar a tradição antiga para continuar seu trabalho interrompido.

Mas o Renascimento não é apenas a retomada da Filosofia Clássica. A arte, a poesia, a retórica e o estudo das línguas também são reavivados conforme a tradição dos antigos. Este movimento foi realizado por humanistas, eruditos dos assuntos humanos, conhecidos por “studia humanitates”. Originários da Europa mediterrânea, em especial da atual Itália, os humanistas passaram a valorizar o humano, em detrimento do teológico.

Neste contexto é realizada uma icônica obra de Albrecht Dürer, “a queda do homem”. O historiador Quentin Skinner tratando sobre a “difusão da erudição humanista”[1] escreve que a partir da Itália este movimento foi levado ao Norte da Europa. Dürer fora nascido em Nüremberg, na atual Alemanha, fazendo parte do Renascimento que ocorreu no Norte. Mas, este pintor, viajou até a Itália, como também outros interessados pelos “studia humanitates. Dürer, assim como outros pintores renascentistas, privilegiaram as formas e os detalhes, como a mão de Eva, em “Adão e Eva” pousada ao ventre, como que posando, ainda que despretensiosamente. Outro elemento que pode ser observado e que tocava esses renascentistas é a presença de símbolos em suas obras. O mistério do olhar e do sorriso da Gioconda de da Vinci, assim como os objetos, como que esquecidos, da “queda” de Dürer. A placa com o nome do autor em meio ao Jardim do Éden, o papagaio, ave exótica à Europa pousada num galho. Esses símbolos, em geral, remetiam à razão e as possibilidades que o engenho humano pode realizar. Eva aceita a maçã, e o fruto do conhecimento tinha de ser provado por aqueles que enfrentam a ruptura.

O que o “Adão e Eva” e “A queda do homem” de Albrecht Dürer deixam transparecer, é que os renascentistas valorizaram o real, o observável, rompendo com a filosofia medieval, aceitando um novo paradigma apesar do receio do desconhecido. Tenha-se como exemplo a América descoberta e os estudos de proporção e anatomia. Ao mesmo tempo, deu-se uma grande importância aos “studia humanitates” no Norte da Europa, o que pode ser relacionado à ascensão que se deu do empirismo nas ilhas britânicas.


[1]SKINNER, Quentin. A Difusão da Erudição Humanista. As Fundações do Pensamento Político Moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, 213-231.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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