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Eder Silva, Política e Sociedade

Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?

São sempre os mesmos governantes,
Os mesmos que lucraram antes.
Os sindicatos fazem greve
Porque ninguém é consultado,
Pois tudo tem que virar óleo
Pra por na máquina do estado“.

(Titãs, Desordem)

Tenho lido muitos artigos no Blog “Ateísmo Político”, sendo que este especialmente me chamou a atenção pelo fato de apresentar uma provocação muito enfática e empirista ao que chamamos “intelligentsia” na qual, em alguns estudos, Gramsci se dirigiu. É um ensaio que me abriu um outro viés a se pensar a teoria política contemporânea com suas inquietações… Tenho que o marxismo foi e está sendo uma teoria muito enfatizada nos meios acadêmicos, e muito pouco sucesso se encontra por parte dos discursos que tentam sucumbí-la. Enraizou-se, valendo-se de modelo a ser utilizado como parâmetro avaliativo de outras teorias. Daí minha satisfação em tomar conhecimento deste artigo que apresento linhas abaixo. Sei que não é a palavra final, e acredito não ser isso o propósito desta reflexão; também afirmo que este texto veio de encontro de modo a descontruir muitos de meus pre (concentos) e ideais. Confesso que ainda estou digerindo-o. Mas prefiro acreditar que o texto seja uma oportunidade para que a sociologia política seja praticada aqui como provocação construtiva de modo a trazer amadurecimento à mim e a você, leitor.

Por que os intelectuais sistematicamente odeiam o capitalismo?  Foi essa pergunta que Bertrand de Jouvenel (1903-1987) fez a si próprio em seu artigo Os intelectuais europeus e o capitalismo.

Esta postura, na realidade, sempre foi uma constante ao longo da história.  Desde a Grécia antiga, os intelectuais mais distintos — começando por Sócrates, passando por Platão e incluindo o próprio Aristóteles — viam com receio e desconfiança tudo o que envolvia atividades mercantis, empresariais, artesanais ou comerciais.

E, atualmente, não tenham nenhuma dúvida: desde atores e atrizes de cinema e televisão extremamente bem remunerados até intelectuais e escritores de renome mundial, que colocam seu labor criativo em obras literárias — todos são completamente contrários à economia de mercado e ao capitalismo.  Eles são contra o processo espontâneo e de interações voluntárias que ocorre de mercado.  Eles querem controlar o resultado destas interações.  Eles são socialistas.  Eles são de esquerda.  Por que é assim?

Vocês, futuros empreendedores, têm de entender isso e já irem se acostumando.  Amanhã, quando estiverem no mercado, gerenciando suas próprias empresas, vocês sentirão uma incompreensão diária e contínua, um genuíno desprezo dirigido a vocês por toda a chamada intelligentsia, a elite intelectual, aquele grupo de intelectuais que formam uma vanguarda.  Todos estarão contra vocês.

“Por que razão eles agem assim?”, perguntou-se Bertrand de Jouvenel, que em seguida pôs-se a escrever um artigo explicando as razões pelas quais os intelectuais — no geral e salvo poucas e honrosas exceções — são sempre contrários ao processo de cooperação social que ocorre no mercado.

Eis as três razões básicas fornecidas por de Jouvenel.

Primeira, o desconhecimento.  Mais especificamente, o desconhecimento teórico de como funcionam os processos de mercado.  Como bem explicou Hayek, a ordem social empreendedorial é a mais complexa que existe no universo.  Qualquer pessoa que queira entender minimamente como funciona o processo de mercado deve se dedicar a várias horas de leituras diárias, e mesmo assim, do ponto de vista analítico, conseguirá entender apenas uma ínfima parte das leis que realmente governam os processos de interação espontânea que ocorrem no mercado.  Este trabalho deliberado de análise para se compreender como funciona o processo espontâneo de mercado — o qual só a teoria econômica pode proporcionar — desgraçadamente está completamente ausente da rotina da maior parte dos intelectuais.

Intelectuais normalmente são egocêntricos e tendem a se dar muito importância; eles genuinamente creem que são estudiosos profundos dos assuntos sociais.  Porém, a maioria é profundamente ignorante em relação a tudo o que diz respeito à ciência econômica.

A segunda razão, a soberba. Mais especificamente, a soberba do falso racionalista.  O intelectual genuinamente acredita que é mais culto e que sabe muito mais do que o resto de seus concidadãos, seja porque fez vários cursos universitários ou porque se vê como uma pessoa refinada que leu muitos livros ou porque participa de muitas conferências ou porque já recebeu alguns prêmios.  Em suma, ele se crê uma pessoa mais inteligente e muito mais preparada do que o restante da humanidade.  Por agirem assim, tendem a cair no pecado fatal da arrogância ou da soberba com muita facilidade.

Chegam, inclusive, ao ponto de pensar que sabem mais do que nós mesmos sobre o que devemos fazer e como devemos agir.  Creem genuinamente que estão legitimados a decidir o que temos de fazer.  Riem dos cidadãos de ideias mais simplórias e mais práticas.  É uma ofensa à sua fina sensibilidade assistir à televisão.  Abominam anúncios comerciais.  De alguma forma se escandalizam com a falta de cultura (na concepção deles) de toda a população.  E, de seus pedestais, se colocam a pontificar e a criticar tudo o que fazemos porque se creem moral e intelectualmente acima de tudo e todos.

E, no entanto, como dito, eles sabem muito pouco sobre o mundo real.  E isso é um perigo.  Por trás de cada intelectual há um ditador em potencial.  Qualquer descuido da sociedade e tais pessoas cairão na tentação de se arrogarem a si próprias plenos poderes políticos para impor a toda a população seus peculiares pontos de vista, os quais eles, os intelectuais, consideram ser os melhores, os mais refinados e os mais cultos.

É justamente por causa desta ignorância, desta arrogância fatal de pensar que sabem mais do que nós todos, que são mais cultos e refinados, que não devemos estranhar o fato de que, por trás de cada grande ditador da história, por trás de cada Hitler e Stalin, sempre houve um corte de intelectuais aduladores que se apressaram e se esforçaram para lhes conferir base e legitimidade do ponto de vista ideológico, cultural e filosófico.

E a terceira e extremamente importante razão, o ressentimento e a inveja.  O intelectual é geralmente uma pessoa profundamente ressentida.  O intelectual se encontra em uma situação de mercado muito incômoda: na maior parte das circunstâncias, ele percebe que o valor de mercado que ele gera ao processo produtivo da economia é bastante pequeno.  Apenas pense nisso: você estudou durante vários anos, passou vários maus bocados, teve de fazer o grande sacrifício de emigrar para Paris, passou boa parte da sua vida pintando quadros aos quais poucas pessoas dão valor e ainda menos pessoas se dispõem a comprá-los.  Você se torna um ressentido.  Há algo de muito podre na sociedade capitalista quando as pessoas não valorizam como deve os seus esforços, os seus belos quadros, os seus profundos poemas, os seus refinados artigos e seus geniais romances.

Mesmo aqueles intelectuais que conseguem obter sucesso e prestígio no mercado capitalista nunca estão satisfeitos com o que lhes pagam.  O raciocínio é sempre o mesmo: “Levando em conta tudo o que faço como intelectual, sobretudo levando em conta toda a miséria moral que me rodeia, meu trabalho e meu esforço não são devidamente reconhecidos e remunerados.  Não posso aceitar, como intelectual de prestígio que sou, que um ignorante, um parvo, um inculto empresário ganhe 10 ou 100 vezes mais do que eu simplesmente por estar vendendo qualquer coisa absurda, como carne bovina, sapatos ou barbeadores em um mercado voltado para satisfazer os desejos artificiais das massas incultas.”

“Essa é uma sociedade injusta”, prossegue o intelectual.  “A nós intelectuais não é pago o que valemos, ao passo que qualquer ignóbil que se dedica a produzir algo demandado pelas massas incultas ganha 100 ou 200 vezes mais do que eu”.  Ressentimento e inveja.

Segundo Bertrand de Jouvenel,

O mundo dos negócios é, para o intelectual, um mundo de valores falsos, de motivações vis, de recompensas injustas e mal direcionadas . . . para ele, o prejuízo é resultado natural da dedicação a algo superior, algo que deve ser feito, ao passo que o lucro representa apenas uma submissão às opiniões das massas.

[…]

Enquanto o homem de negócios tem de dizer que “O cliente sempre tem razão”, nenhum intelectual aceita este modo de pensar.

E prossegue de Jouvenel:

Dentre todos os bens que são vendidos em busca do lucro, quantos podemos definir resolutamente como sendo prejudiciais?  Por acaso não são muito mais numerosas as ideias prejudiciais que nós, intelectuais, defendemos e avançamos?

Conclusão

Somos humanos, meus caros.  Se ao ressentimento e à inveja acrescentamos a soberba e a ignorância, não há por que estranhar que a corte de homens e mulheres do cinema, da televisão, da literatura e das universidades — considerando as possíveis exceções — sempre atue de maneira cega, obtusa e tendenciosa em relação ao processo empreendedorial de mercado, que seja profundamente anticapitalista e sempre se apresente como porta-voz do socialismo, do controle do modo de vida da população e da redistribuição de renda.

Jesús Huerta de Soto , professor de economia da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, é o principal economista austríaco da Espanha. Autor, tradutor, editor e professor, ele também é um dos mais ativos embaixadores do capitalismo libertário ao redor do mundo. Ele é o autor da monumental obra Money, Bank Credit, and Economic Cycles.Fonte: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1487
(Retirado do Blog Ateísmo Político, sob a autorização de Fabio Sandi)
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Eder Silva é especialista em Sociologia Política (UFPR); bacharel em Turismo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.
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Discussão

7 comentários sobre “Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?

  1. Certa vez em uma conversa com um amigo, refletimos sobre nosso trabalho musical que desempenhávamos no em uma obra no Guaíra, ele pela vasta experiencia que tinha com cantores me disse: Aqui no Guaíra quando o “povo” era convidado para cantar de graça, todos se esforçavam, estudavam e cantavam maravilhosamente bem, hoje, todos não fazem isso, e ficam exigindo mais dinheiro e até um salario para cantar. Em resumo, me parece que existe uma relação inversa entre capitalismo versus intelecto, parece que quanto mais buscamos dinheiro, mais distante ficamos do desenvolvimento de potenciais intelectuais ou criativos. Grande reflexão Eder.

    Publicado por elicordeirojr | 13 de março de 2013, 9:56 am
    • Aí vai um intelectual potencialmente lúcido e artisticamente convincente:
      “Do fundo desta noite que persiste
      A me envolver em breu – eterno e espesso,
      A qualquer deus – se algum acaso existe,
      Por mi’alma insubjugável agradeço.

      Nas garras do destino e seus estragos,
      Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
      Nunca me lamentei – e ainda trago
      Minha cabeça – embora em sangue – ereta.

      Além deste oceano de lamúria,
      Somente o Horror das trevas se divisa;
      Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
      Não me amedronta, nem me martiriza.

      Por ser estreita a senda – eu não declino,
      Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
      Eu sou dono e senhor de meu destino;
      Eu sou o comandante de minha alma.”
      William Ernest Henley

      Publicado por Eder Silva | 13 de março de 2013, 8:13 pm
  2. É isso aí Eli, uma grande reflexão, mas também um grande “pepino” pra se digerir!!! (rs).
    Abraços e até.

    Publicado por Eder Silva | 13 de março de 2013, 11:17 am
  3. Muito interessante o “principal economista austríaco da Espanha” se referir aos intelectuis como pessoas anti-capitalista. Ainda bem que esse senhor não se considerou um pensador…
    Também achei interessante como esse professor da universidade “por que não te callas” nos apresenta a luz: ler Hayek diariamente, abandonar sua soberba e não se sentir ressentido por ser um intelectual (?). Será que o “principal economista” nos mandará (aos ditadores) orar para o deus mercado também?

    Publicado por joseaugustohartmann | 13 de março de 2013, 5:25 pm
  4. Olá Hartmann, realmente o texto é provocativo e aguça nos colocar em posicionamento. Tenho a dizer que o capitalismo fundamentado em intervencionismo governamental é uma nova forma de “imperialismo”. Só que disfarçada e elitizante. Já o capitalismo na forma de livre comércio é uma outra maneira de se pensar uma teoria que pode sim dar certo em prática; mas depende de muitos fatores ainda. Já o socialismo, acredito eu, não funciona nem com os animais (que são em natureza menos corruptos que os humanóides), tampouco irá funcionar conosco. O socialismo é um sonho para a coletividade que têm bonança e um pesadelo para os que nada têm para repartir. Enfim, considero mais uma utopia bem próxima de um comunismo totalitarista… Acredito que a “luz” ainda esteja muito distante destes inúmeros “ismos”, até mesmo o intelectualismo; mesmo que uns opostos aos outros. Também acredito que é quase impossível um consenso nessa questão. O bom desses impasses é que sempre nos moverá a articular, pensar, debater, desconstruir e reconstruir nossos (pre) conceitos. Nessa história acredito que há vários deuses (com minúsculo); mas o pior deles, acredito, não é o deus mercado, e sim o deus poder, o deus dominação, o deus “controle”. Lembro-me de um refrãozinho do Engenheiros “… toda forma de poder é uma forma de morrer por nada, Fidel e Pinochet que tiram sarro de você que não faz nada…”. E aí a coisa vai ficando cada vez mais perigosa…

    Publicado por Eder Silva | 13 de março de 2013, 8:06 pm
  5. 1929 e 2008 são ótimos exemplos de como o livre comércio pode dar certo…

    Publicado por joseaugustohartmann | 13 de março de 2013, 10:57 pm
    • Mas 1929 e 2008 são épocas em que não houve “livre comércio”, mas sim, uma economia extremamente dependente à uma única moeda, de um país “imperialista” e predominantemente selvagem, conquistador, dominante. Quando me refiro a “uma possibilidade” de dar certo o livre comércio, não me refiro à FMI, e a outras tentativas anteriores de dominação. Há um estudo muito interessante que o Fábio (Ateísmo Político) me expôs, sobre a economia “baseada no valor do ouro” e não do “dóllar” o qualquer outra moeda oriunda de um Estado controlador. Ainda ressalto: o problema é baseado em um sistema dominó de concentração de poder e dominação de uma nação / Estado. Uma peça cai, cai outras também que estão “enrabichadas”. Olha, sei que há muitos detalhes específicos que não sei expôr aqui, assumo que sou leigo em Economia, mas há princípios os quais não necessitamos de especificidades técnicas para compreender. Não estou falando de Mov. Zeitgeist (sei que não é por aí a solução). Mas também não é o socialismo a maneira mais coerente de proteger o “indivíduo / cidadão”. O Estado já provou que nunca foi competente para tal, mesmo com seus tentáculos e aparelhos ideologizantes, sempre foi pacial, negligente, egocentralizado, e monstruozamente tirano. É o mesmo que se fazer barganha com o diabo. A gente sempre acaba nocauteado; mas, aqui, um nocaute anesteziante… Deixo neste diálogo um espaço para propormos um sistema mais viável e saudável à subsistência do pacato cidadão, amigo.
      Vamos exercitar os neurônios e continuar dialogando neste quesito. (rs rs rs). Respeito seu ponto de vista quanto ao socialismo, ou quanto a crítica que fizeste ao livre comércio. Mas, admito que não me agrado muito, pelo menos ainda (…). Abraços.

      Publicado por Eder Silva | 14 de março de 2013, 4:27 pm

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