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Cotidiano, José Augusto Hartmann

O médico e o monstro?

Na última semana fomos “abalados” pelas notícias de horríveis crimes no Hospital Evangélico de Curitiba. A médica Virgínia Soares de Souza foi presa no dia 19/02, acusada de comandar o desligamento de aparelhos da UTI do hospital. No final da semana mais quatro funcionários, sendo três médicos e uma enfermeira também foram presos.[1] Inicialmente as acusações foram enfocadas na chefe de UTI, quando passou a correr o antigo mito do “médico e monstro”.

Cabe lembrar a famosa análise da filósofa judia-alemã Hannah Arendt, que acompanhando o julgamento de Eichmann em Israel verificava o erro da acusação. Eichmann e outros nazistas não eram monstros, eram humanos, demasiadamente humanos, bons cumpridores de ordens. Eram personagens típicos da sociedade burocratizada, em que a vida perde valor e nos deparamos com a banalidade da violência. Aqui, nos deparamos com a mesma situação, afinal, a doutora Virgínia Soares de Souza não poderia agir sozinha, e até onde as investigações parecem levar, esses casos estariam acontecendo há algum tempo, talvez anos.

Se Virgínia não é um monstro, além de termos de nos olhar no espelho sem tanto orgulho, o que mais podemos concluir? Um fato parece merecer destaque. O que ganharia a chefe da UTI do Hospital Evangélico comandando a morte de pacientes do SUS para trocá-los por particulares? Seu salário, certamente, não subiria a cada nova internação. Os lucros ficariam, portanto, com o próprio Hospital? Se algum grupo se beneficiaria com isso, deverá constar nas investigações, esperamos. Mas grita o problema ético da fetichização da saúde, da transformação da saúde em mercadoria.

Revejamos o caso. Um paciente era internado na UTI do Hospital Evangélico. Como não tinha dinheiro para pagar, teria sua conta custeada pelo Sistema Único de Saúde pública. O SUS, por sua vez, visa ser um sistema universal, e abrange uma grande gama de atendimentos, desde menos até mais complexos e caros. Entretanto, o valor que paga pelas consultas e procedimentos não é o mesmo que os hospitais privados gostariam. Na verdade o valor não é o ideal nem mesmo para hospitais públicos. Contudo, num hospital privado, e poderíamos pensar no Hospital Universitário Evangélico, deseja-se que se pague os valores de mercado, afinal, empresas privadas desejam lucro. Tudo bem, o Hospital Evangélico deve afirmar que esse não é o seu caso, afinal é uma instituição sem fins lucrativos, não afirmaremos o contrário. Peguemos um caso hipotético, portanto. Um hospital particular qualquer recebe pacientes pelo SUS e está com suas vagas na UTI completas. Chega um paciente que deseja ser internado, mas seu pagamento será particular, logo, num valor mais alto que o do SUS. O que faz o nosso hospital particular: desliga os aparelhos dos pacientes que não lhe dão tanto lucro e acham um lugar para o paciente mais monetarizado! Repito, não digo que esse é o caso do Hospital Evangélico de Curitiba, que é uma instituição muito religiosa e sem fins lucrativos! É, somente o caso do nosso hipotético hospital particular. No caso real, somente as investigações poderão afirmar qualquer coisa, e, jamais um reles blogueiro.

O que choca, portanto, não é a audácia de alguns funcionários permitirem a morte de pessoas em recuperação, mas o sistema que permite isso. A perda de valor da vida diante da valorização do capital e da transformação de todas as relações humanas em mercadoria. Isso aponta para uma necessidade urgente, a estatização da saúde, a proibição de comércio nessa área. Lembremos do lobby que os grandes laboratórios fazem, sendo que médicos acabam empurrando medicamentos desnecessários somente para retribuir agrados recebidos. Esperar ética profissional, quando a profissão é posta na lógica do mercado é ingenuidade.

[1] http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1347728&tit=Justica-determina-mais-quatro-prisoes-no-Hospital-Evangelico. Acesso em 24/02/2013 as 17:23.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

5 comentários sobre “O médico e o monstro?

  1. Fala Hartmann! Polêmico mas importantíssimo tema!
    Olha, minha posição é de que o sistema não age por si só, precisa dos humanóides para a engrenagem girar. Então, nessa caso, nada justifica obedecer uma ordem tão absurda. Estatizando ou privatizando “todos” os hospitais não creio ser o caminho. Mas defini-los, seria ideal, ao meu ver. O problema inicia quando o governo injeta fundos nesses hospitais privados exigindo que eles disponibilizem um numero x de vagas para o SUS. Isso gera insanidades e não o sistema. Sejamos homens ou lobisomens, mas os dois juntos pode gerar crise de identidade, diria um advogado amigo meu…Vamos aprofundar nessa questão, amigo. Abçs

    Publicado por Eder Silva | 25 de fevereiro de 2013, 9:47 am
  2. Salve Éder. O que digo é aquilo que o Adriano destacou, quando as relações humanas são transformadas em mercadoria, como afirmava o velho Marx, já não se pode esperar que os simples humanóides resistam. A capitalização da saúde é uma obscenidade, meu amigo. E acho que o caso da educação é o mesmo. Abraço.

    Publicado por joseaugustohartmann | 25 de fevereiro de 2013, 8:24 pm
    • Junto-me neste raciocínio, na minha crença que o homem nunca evoluiu e nunca evoluirá. Sempre trocando a primogenitura por um “prato de lentilhas”… Isso é desde os primórdios, e confirma ao longo dos tempos. Infelizmente, minha visão só alcança a decadência iminente. Quanto a educação, já caducou desde sempre, desde a ruptura da Ágora para um sistema sofista e mercenário. E no mais, saúde é o que interessa; o resto, não tem pressa! Que nossa essência almeje muito mais eternamente que o vil metal malicioso. Valew pela exemplificação em Marx, já havia me esquecido.

      Publicado por Eder Silva | 25 de fevereiro de 2013, 8:51 pm
  3. é isso aí Eder, mas o estudo dos primatas nas diverte e dá bastante assunto, que bicho curioso esse homem…

    Publicado por joseaugustohartmann | 25 de fevereiro de 2013, 10:12 pm

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