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Cotidiano, Eder Silva

Volta às aulas, volta à vida: Paradigma de uma alienação industrializante

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Há um chavão ufanista nacionalizante carnavalesco onde diz que “aqui o ano só inicia após o carnaval”… Ouvi esses dias uma jornalista dizer que isso não é a realidade, que isso não se pode atribuir à cultura do brasileiro.

Bem, fiquei pensando… e cheguei à discordar da jornalista, mesmo não sendo carnavalesco ou nacional ufanista. Posso dizer que se o Brasil tem alguma identidade, é o Carnaval. Por mais que isso incomode muita gente disposta a subir em um pedestal e discursar o mais veemente e acalorado moralismo, ainda assim essa voz da intolerância não passará de um burburinho bem miúdo em meio a uma cultura latente e visceral.

No todo, ao passar o período de natal e a chegada do ano novo, a sociedade transpira uma esfera hedonista, algo como se estivéssemos em meio a uma prolongada colônia de férias urbana, ritualizando a abolição da disciplina do trabalho. Nas ruas, nos guetos, nos bairros de periferia há um clima festivo, despojado, espontâneo de os cidadãos se manifestarem. Mesmo tendo aqueles que não conseguiram tirar suas férias neste período de confraternização e festividades, o que predomina é o que chamamos de ruptura da rotina… O que importa é que mergulhemos nessa esfera e finjamos estar num outro patamar, num outro prisma, mesmo se isso venha nos custar, a posteriori, o olho da cara.

Bom, esse período tem um fim com o início das aulas, o grande momento onde o Brasil começa a “funcionar” de verdade, onde nossos filhos, naquela ansiedade costumeira, retomam os contatos com os amiguinhos, onde os pais no agito frenético da compra de material escolar entram num quê de ansiedade pelo melhor preço, almejando amenizar os gastos feitos em lazer, enxugando ao máximo as despesas com educação e podendo tirar um pouco o fardo de uma consciência pesada. E por aí vai…

Temos então a volta às aulas como o retorno ao real, à importância de projetar na Escola um novo ritual, o ritual do processo civilizador, o ritual da significância em lançar nossos filhos na mesma teia e tentáculos que nos aprisiona, que tenta sugar ao máximo nosso supra sumo, nossa essência. Na volta às aula vemos um simbolismo ritualístico que se traduz em um bom profissionalismo. Mas não se pode falar mais em cidadania. Aliás, se pode falar, mas não se consegue pratica-la no “sistema” de ensino. Mas o que vem a ser realmente voltar às aulas? É voltar à vida? Que vida? Estudar é projetar futuro? É progredir em algo ou para algum lugar? Ou isso tudo não passa de uma sutil hipocrisia em mascarar nossa real necessidade: comida, diversão e água? Ou como diria os césares, “pão e circo”? Enfim, temos que estudar para poder ganhar mais dinheiro, e, finalmente, destina-lo para nossos próprios desejos hedonistas tipificados em um círculo vicioso? Há, minha cabeça tá explodindo e não quero mais pensar… pelo menos nisso (…).

Temos aí um paradoxo: Pra que serve todo esse aparato de volta às aulas como se nossa vida tivesse que levar esse choque todo ano para sabermos que então o ano já começou? A vida simplesmente começa quando começa o trabalho, a escola, etc? Ou não seria o contrário, que a vida somente reinicia-se com as férias, com os gastos em lazer, viagens, churrascos, etc…

Bem, é complexo e difícil de submeter a uma análise sociológica da questão, mesmo tendo alguns expoentes no assunto como Domênico de Masi, Marcuse, Maffesoli, entre outros tantos…

Vejo o problema quando nos atiramos de cabeça em um ultra-estoicismo moralizante ou num ultra-hedonismo desmoralizante decadente imoral…

Afinal, qual o preço da nossa verdadeira educação?

E você, em qual margem deste rio você está?

A burocracia é a alma da Rússia, a agricultura, só o estômago! (Anna Karenina, Tolstoi)

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Sobre Eder Silva

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Discussão

2 comentários sobre “Volta às aulas, volta à vida: Paradigma de uma alienação industrializante

  1. Destaco duas coisas de seu texto, Eder. 1º a importância social da escola. 2º há alguma coisa de errada com a estrutura escolar…

    Publicado por joseaugustohartmann | 21 de fevereiro de 2013, 10:01 am
    • É isso mesmo amigo Hartmann. Infelizmente muitos não compreende a função da escola, confundindo sua missão social com missão familiar/educacional. Educação se pratica em casa, instrução é na escola! Por isso é que a vaca sempre está indo para o brejo, e tanto se fala em ética, moral ou os “cambau à quatro”, mas pouco se pratica… Abraços e agradeço pelo feedback.

      Publicado por Eder Silva | 25 de fevereiro de 2013, 9:14 am

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