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Carlos Evangelista, Violência e Cidadania

TRAVESSIAS: Vivendo a Vida antes e depois de conhecer o ECA

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Bazuka completou oito anos de idade saiu de casa e foi morar nas ruas de Curitiba até os seus dezesseis anos. Durante o período que foi morador de rua Bazuka comia, dormia e vivia em terrenos baldios, praças, calçadas, viadutos e mocós, principalmente na praça da antiga estação rodoferroviária.
Bazuka diz que preferiu às ruas por não suportar ver aos oito anos seu pai bêbado espancando sua mãe, seus irmãos e a si próprio.
No começo ganhava dinheiro como guardador de carro no centro da cidade. Com as moedas ganhas comia e bebia. O que sobrava gastava nos Cines Plazza e São João na região central da Capital.

“Quando criança vivia numa situação pobre, mas feliz… Subindo em árvores, soltando pipas e nadando em rios, interagindo com a natureza”

Influenciado pelos mais de quarenta menores de rua, na época, Bazuka deixou de cuidar de carro para roubar carteira no “cavalo loco”. Por sua estatura baixa e franzina preferia roubar carteiras de velhinhos e mulheres. “O chefe da turma sempre dizia que bater carteira de homem, só em último caso. Uma vez o Polaco pegou a carteira de um cara e correu. O dono da carteira correu atrás, sacou da arma e atirou pelas costas na nuca do Polaco que caiu morto na Boca Maldita.”.
Bazuka gostava de cheirar cola de sapateiro, esmalte e tinner. “Era um “baratão” ver aranhas, lagartos, luzes, raios e sombras multicoloridas vindo das ruas e prédios. Das chaminés dos restaurantes e das fábricas saiam naves espaciais teleguiadas por extraterrestres. No entanto, sempre tive medo de injeção e por isso nunca me piquei na veia”.
Lá a cada seis meses, um ano, lembrava que tinha mãe e irmãos e retornava pra Vila Verde, onde morava na região do CIC. Logo brigava com o pai, inventava ir comprar pão na padaria e desaparecia na rua, por meses a fio.
“Nunca usei armas, mas briguei quase todos os dias durante o longo período de rua. Fui preso umas quarenta vezes. Ficava lá na delegacia dois dias e fugia. Apanhei bastante, levei muitos afogamentos no vazo sanitário, ripada na mão, caneta nos dedos e tapão na cara. Chorei muito…”
Certo dia, ao amanhecer num banco da Praça Osório, Bazuka acordou assustado com um temporal que chegava, viu ao seu lado um policial militar fardado dizendo que ele era um adolescente apresentável e que deveria sair daquela vida de resto humano. __Porque você nunca vai lá ao abrigo de proteção nas Ruínas de São Francisco, logo depois do “cavalo babão”? Convidava o policial.

“Na adolescência, minha revolta era pelo estado de pobreza que a minha família vivia. Faltava consciência social e a realidade dura e cruel na rua me alucinava”.
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“Um dia fui ao tal abrigo e gostei da comida, lá podia tomar banho, sempre tinha roupa limpa pra gente escolher. Eu gostava da comida e das roupas de lá. Em vez de participar das atividades eu sempre acabava no cinema e até dormi lá algumas vezes. Assisti muitos Rambos, Vandames, Lúcio Flávio, Pixote, Os Trapalhões, Tarzan. Admirava os atores, atrizes, cineastas e os donos de cinema.
Sempre tive medo de morrer na calçada, na praça, de doença, agredido ou queimado pela turma da pesada. Todo dia a gente ficava sabendo de alguém da turma que morreu disso ou daquilo.
Me lembro que tinha umas tias da assistência social e do Conselho Tutelar, que sempre falavam coisas boas pra mim. Contavam dos meus direitos enquanto adolescente e ser humano. __Ó, se você quiser a gente te encaminha para a Assoma (Associação de Proteção ao Menor Abandonado), lá você poderá comer, dormir, escolher um dos cursos de datilografia em máquina elétrica, jardinagem, panificação, artesanato, teatro, banda de música, futebol, culinária e o melhor, lá cada um ganha pais sociais.
Aos dezesseis anos de idade, quis ir para a Assoma e frequentei quase todos os cursos oferecidos. Daí os meus pais sociais, me induziram a estudar numa escola regular. Conclui o ensino fundamental, em seguida terminei o ensino médio.
Por isso hoje costumo dizer que tive uma vida antes e outra depois de conhecer o ECA. Sou testemunha de que estou vivo graças a proteção que recebi do Estatuto da Criança e do Adolescente. Aprendi ler obras sobre o capitalismo, liberalismo, socialismo, comunismo e social democracia. Aos poucos, através dos livros fui lapidando a minha identidade e aprendendo a lidar com o meu papel na sociedade. Apaixonado por cinema vi na arte o poder de transformação do homem. Ao sair da casa de apoio ao menor, sob proteção do ECA, fiz curso de modelo/manequim, culminando com mais de dez comerciais produzidos.
Mesmo na condição pomposa de modelo, uma colega falou da minha timidez. Concordei e iniciei os estudos teatrais e me tornei ator profissional. Em meio as várias apresentações nos diversos espaços, em 2010 estive com voz, corpo e mente, participando do Festival da Loucura, em Barbacena-MG, apresentando a peça Faces da Loucura, interpretando um personagem esquizofrênico.

“Hoje a melhor droga é o estudo, o amor, a família, a mão amiga e um grande projeto de vida”.
Quanto ao meu pai, peço perdão por sua ignorância, vítima de um sistema perverso para geração da pobreza. Hoje convivo com minha família verdadeira, mas não me esqueço dos pais sociais e sonho retribuir os defensores do ECA, auxiliando-os na produção e apresentação teatral, como ferramenta de proteção e reconstrução dos menores que atualmente estão em abrigos, desamparados ou na criminalidade”.
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Sonho maior de Bazuka é criar um teatro que rompa barreiras, preconceitos e aponte direções para a superação das mazelas sociais. “É preciso vislumbrar uma vida melhor e possível a partir do amparo legal, educação politizadora e perseverança em querer reverter a triste condição social de extrema marginalidade, ainda na tenra idade”, resume o ex-morador de rua.
Nota- Carlos Evangelista participou com este trabalho no 7º Concurso Nacional de Contos/2011, cujo tema foi a importância do ECA na vida de uma pessoa.

Fonte:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm
http://www.reformadocodigopenal.com/
http://www.promenino.org.br
Carlos Evangelista é jornalista (ESEEI) e especialista em Sociologia Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

Um comentário sobre “TRAVESSIAS: Vivendo a Vida antes e depois de conhecer o ECA

  1. É bom saber que ainda há algum sistema que realmente funciona nesse país, o amparo ao adolescente e a criança. A boa vontade das pessoas ligadas ao ECA que doam suas experiências e seu tempo em re-socializar essas crianças é um exemplo para toda a sociedade e acredito que deveriam receber apoio maior para crescerem em todo o país. Papel que deveria ser assumido pela mídia televisiva, internet e rádio e principalmente pelas autoridades detentoras do poder. O grande mal de ainda existirem crianças e adolescentes nas ruas é a educação precária que se prolonga há anos no Brasil. O caso do garoto Bazuca ilustra apenas um de muitos que passaram por situação parecida com membros da família e não tiveram outra opção a não ser fugir de casa entre outros motivos. Todavia, a melhoria da Educação não deveria ser apenas pauta dos que estão no poder pois quem realmente pode fazer a diferença é a população. Só que estamos vivendo tempos descrentes, nos quais a corrupção e o mal exemplo vem de cima e a população simplesmente já não aguenta mais nem ouvir ou saber, definitivamente perdeu o interesse. Eu mesma em alguns momentos deixo de acreditar que o poder público aparecerá com alguma solução para melhorar a Educação. É mais cômodo sugerir o aumento dos seus salários…e garantir assim caviar e vida boa pelo resto da vida. Enquanto isso a população tem que sobreviver com salários miseráveis e benefícios do Governo, mixarias que não mudam em nada a vida do povo, enfim sistemas pouco eficientes tais como a Educação precária que não é capaz nem de capacitar os cidadãos a terem uma vida digna. A Educação é a única que pode transformar a nação. Ela tem que ser reformulada por toda a sociedade. Os valores devem ser revistos, e devem ser baseados na construção da moral, do respeito, da honestidade, e do bem do povo. Chega de um Brasil hipócrita! O povo Brasileiro necessita ser reconhecido pela sua capacidade criativa, e pela igualdade a todos os brasileiros.

    Publicado por Odete Carmen Demichei | 18 de fevereiro de 2013, 11:45 pm

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