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Filosofia, José Augusto Hartmann

Maquiavel e os espelhos de príncipe medievais

O filósofo florentino Nicolau Maquiavel, ao escrever “O Príncipe”[1], realiza uma ruptura com os espelhos de príncipe medievais. Estas obras medievais partiam da premissa de que o príncipe deveria estar indissociável à ética religiosa. A justiça, caráter essencial de um príncipe, segundo esses espelhos medievais, estava associada a “defesa dos oprimidos”, o que não se via na prática, e da religião.  Nessas obras a Bíblia é utilizada como principal fonte. Assim, o poder, poderia ser uma força positiva se conduzido da maneira como ensinada pelos mestres, respeitando os ensinamentos da religião.

Este justo poder, defendido por esses mestres medievais não era questionado. Estava intrínseco na sociedade cristã, apenas havia a necessidade de, o príncipe, seguir as doutrinas religiosas para bem conduzir o poder que lhe era confiado. Maquiavel rompe com esta formulação de lugares estabelecidos para um poder temporal e outro religioso. Pelo contrário, Maquiavel não entra no mérito da questão. O autor de “O Príncipe”, não realiza uma análise moral ou ética do poder, também não faz a defesa do poder religioso como uma estrutura garantida, um poder acima de qualquer outro. Maquiavel escreve para o príncipe. A religião encontra-se em uma posição diferente, podendo ser boa ou má para as empresas do príncipe. Já na carta a Lorenzo Médici, que inicia sua obra, o autor explica que seu texto é uma obra empírica, de suas observações sobre o poder, para que o príncipe a utilize na condução do poder que detêm. Mas “O Príncipe” é uma completa obra sobre as formas do poder secular. Maquiavel escreve sobre várias possibilidades. Assim, em um capítulo pondera sobre as possibilidades de um príncipe manter o poder em um principado conquistado pelas armas, ou por herança. Pode também pensar sobre as formas de exército e sobre a religião. Porém, ao referir-se à religião, Maquiavel reflete sobre como o príncipe deve agir para com a religião para manter seu poder e não, como no espelhos de príncipe medievais, como o príncipe deve  ser obediente e temente às doutrinas da Igreja. Há uma clara desvalorização do papado, que caracterizaria os Estados Nacionais que surgiam.

Assim, enquanto as obras de aconselhamento de príncipes eram discursos relacionados à ética do poder, inseparável da religião, no “Príncipe” de Maquiavel decorre diferente, pois se pensa em Estado e na figura que seria sua fundamentadora e garantidora, o príncipe.

[1]MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Atena Editora, 1973.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

Um comentário sobre “Maquiavel e os espelhos de príncipe medievais

  1. Acredito que nesta obra há um primeiro vislumbre sobre a complexidade da ciência política levando-se em conta as diversas culturas e características sociais. Maquiavel nos mostra as inúmeras possibilidades de se criar uma identidade em uma Italia falida e desgastada… Apresenta uma nova abordagem na legitimação do poder. É uma obra que merece bastantes abordagens e fonte inesgotável de estudos.
    Valew e abraços amigo.
    Eder.

    Publicado por Eder Silva | 12 de fevereiro de 2013, 3:56 pm

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