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Economia e Negócios, José Augusto Hartmann

(Des)industrialização de Argentina e Brasil

Os anos de 1990 foram marcados, na Argentina, assim como no Brasil, pela implementação de uma política econômica neoliberal. Grandes empresas estatais, como a YPF no país platino e a  Vale do Rio Doce, no Brasil foram privatizadas. No final do período, o modelo mostrava sinais de esgotamento. Essas economias não conseguiram se desenvolver a ponto de diminuir os altos índices de desemprego e desigualdade social. Em 2001 a Argentina passou por uma de suas maiores crises. Nesse ano a economia entrou em colapso e dois presidentes não conseguiram se sustentar. Chegou à presidência, então, Néstor Kirchner, propondo resgatar os princípios do justicialismo peronista. Kirchner decretou a moratória da elevada dívida do país. Conseguiu conter a onda inflacionária e o desgaste daquela economia, rompendo com o modelo de “Estado mínimo”. No mesmo período, o Brasil também passaria a adotar medidas para conter a baixa produtividade, impulsionando a economia ao invés de diminuí-la com excessivos cortes de gastos e quase nenhum programa de distribuição de renda, que caracterizava o período anterior.

Entretanto, as coincidências entre Argentina e Brasil param por aí. Ambos tinham uma industrialização clássica, dividiam a influência na região, passaram por momentos políticos equivalentes, com instabilidade política nas décadas de 1960, 1970 e 1980, governos neoliberais nos anos de 1990 e rompiam com esse modelo nos anos 2000. Mas enquanto a economia argentina não conseguia romper com um processo de desindustrialização, iniciado nos anos 1990, o Brasil entrava num momento de industrialização que se sustenta até hoje.

Na nação platina, a bola de neve do desaquecimento produtivo não deixou de rolar. As indústrias automobilísticas, por exemplo, praticamente deixaram de existir. Trocaram aquele país pelo Brasil, que conseguia incluir no mercado de consumo milhares de pessoas até então excluídas. O Brasil tem uma população mais que duas vezes a da Argentina, entretanto se no vizinho grande parte da população pertencia a uma classe média, aqui a desigualdade era abissal. Na medida em que houve interesse em incluir essa população brasileira na economia capitalista, surgiu um interessante mercado para as indústrias. Reforçava essa realidade as novas regras fiscais e alfandegárias da região. Uma vez que o Mercosul flexibilizava a venda de produtos entre as nações participantes passou a valer a pena investir no Brasil e abandonar a Argentina. Motivou isso, sobretudo, o crescente mercado interno no Brasil e facilidades para exportar à Argentina.

Se, inicialmente, isso é bom para o Brasil, cria uma grande desigualdade entre os países e enfraquece a região e o bloco econômico. Por outro lado, parece muito difícil que os platinos consigam romper com isso e não vir a se tornar, nos próximos anos, uma grande nação agropecuária.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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