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Cotidiano, José Augusto Hartmann

Feliz Natal (ou carta para o senhor)

Caro senhor Pastor,

Sei que este é um momento de muitas felicidades para você. Afinal, o aniversário de um filho é uma data especial. Não posso lhe dizer que sei como é, pois resolvi não compartilhar com esse sentimento. Sei também que muitos dizem serem todos filhos do senhor, entretanto, não se preocupe, não venho reclamar reconhecimento. Se não sabe, não creio nisso e tenho um pai muito amoroso. Mas não falemos nisso agora, afinal queria lhe desejar felicidades.

Sei que nossa relação foi bastante confusa, nesses curtos anos de minha vida, ah como a vida é curta! É uma pena não possa ter esse sentimento. A nós, mortais, parece impossível de suportar tal angústia, mas vamos levando, lhe garanto. Mas quero falar que não lhe guardo rancor. Não lhe culpo de nada. Já o fiz, não nego. Já tive medo do senhor, já lhe temi. Já quis machucar-lhe, já quis me punir por achar esse um sentimento freudiano, se é que me entende. Mas descobri, amigo, que todas essas coisas estavam erradas. Não podes, se me permite tratar-lhe assim, ter culpa por minha covardia, ainda mais se falaram por ti enquanto apenas gozava a eternidade no Paraíso! Também não poderias ser um sentimento freudiano, e aí estava eu novamente errado, pois não és meu pai. Pois é, confesso-lhe, mas veja, não fui o único a acreditar. Falam horrores do senhor aqui.

Como vês, tentei muitas vezes lhe falar, acreditava que as palavras têm esse poder. Vejas o que faço agora! Falava-lhe baixinho, no escuro, com medo, angústia, temor. Pedia-lhe que resolvesse meus problemas, que confortasse minha consciência perante um mundo tão vasto, que não me castigasse com tua ira. Depois passei a questionar essa ira. Sentia-me como o filho rebelde. Ah, não queria crer-me filho e ovelha ao mesmo tempo. Tentei me resignar com a condição de parte do rebanho, então me veio uma nova consciência. Foi aí, amigo, que passei a sentir-me confortável em relação a ti. Deixei de cobrar-lhe, e percebi que não tinhas culpa de nada. Hoje temo, mas não ao senhor, e sei que nenhuma culpa tens disso. Temo os “mano”, quando falam que quem não acreditas em ti não é “sangue bom”. Não me julgo mau, veja o senhor. Temo o Datena, quando diz que todos aqueles que não acreditam em ti são criminosos (e que todos os criminosos não acreditam em ti – apesar de quase me parecer exatamente o contrário). Temo os “pastores” de igreja. Pois atacam-nos com suas injúrias. Temo aqueles que se dizem seus filhos, pois maltratam àqueles que não acreditam nisso, acusando-nos de ser mal-caráter, pois autossuficientes, perigosos, pois detentores de “forças do mau”, seja lá que mágica ou feitiço seja isso, ignoro, garanto-lhe.

Bem, mas repito-lhe, nada de rancor, sei que não tens culpa. Quero deixar-lhe um abraço e dizer que valeram aqueles velhos momentos. Novamente, parabéns pelo acontecimento. Muitas felicidades ao senhor e sua família.

De uma ovelha que se acha águia, ou de uma águia que já se achou ovelha,

Feliz Natal!

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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