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Eder Silva, Teoria do Estado Moderno

Ascenção da Democracia Representativa – Parte 2

8-cc269bc93e(Progresso americano, 1872, por John Gast)
 

Dando continuidade à conversa anterior (Ascenção da democracia representativa parte 1), consideremos que os Estados Unidos, de fato, tenham adquirido sua independência, tornando-se uma nação. O que se propõe aqui, são justamente os paradoxos que, logo estabelecida a independência, surge no bojo da consciência coletiva uma mistura de extase com o medo de seguir adiante com as próprias pernas. E este medo é parte integrante de qualquer ato que se intitule por “libertário”. Ora, a liberdade é uma virtude, mas também uma responsabilidade, que, se direcionada de um modo x, pode realmente se consolidar como uma verdadeira liberdade, quando interpreta como válida a liberdade de vizinhos. Mas, nesta situação específica, isto não pode ser observado quanto aos ianques.

Decorrente do medo em perder seus territórios ora conquistados, um espírito expansionista se apossou peremptoriamente dos que se proclamavam libertos das influências da opressora e, também expansionista Inglaterra.

Inicia-se um processo expansionista tendo como estandarte correr na frente dos ingleses, franceses ou, a posteriori, qualquer outra nação que viria a ameaçar sua estabilidade. Anexam as terras ao norte, avançando sobre um pedaço de terra do Canadá, que pertencia então à enfraquecida França (os mesmos que patrocinaram o processo de independência americana) comprando de Napoleão o imenso território da Lousiana, que depois viria a se fragmentar em 13 estados, por 15 milhões de dólares em 1803. Em 1819 seria a vez da Espanha ceder a Flórida por apenas 5 milhões. Em 1821, com o aval do próprio governo mexicano, anexam boa parte de suas terras, em troca de manter o catolicismo como religião oficial neste novo pedaço de terra anexado. Em 1846 o Oregon é cedido pela Inglaterra, também enfraquecida. Já em 1867 a Rússia vende o Alasca por 7 milhões. Mas os Estados Unidos, ainda insatisfeitos com suas apropriações, entram em guerra contra os mexicanos em 1845-1848, uma guerra terrível que faz com que os mexicanos, depois de massacrados, cedam o Texas, além do Arizona, Novo México, Califórnia, Utah, Nevada e boa parte do Colorado. Sem contar que, entre essas guerras, os EUA praticavam inescrupulosamente o genocídio dos povos indígenas, seguindo o chavão propagado pelo general Armstrong de que “um índio bom é um índio morto”.

Neste processo de dominação, incluía-se também a aculturação destes povos conquistados, de modo a promover uma propaganda lisonjeira à potência que surgiria a partir destas conquistas.

Com este novo Estado de democracia (representativa), nasce então uma nova ordem mundial, na qual a cultura política norte americana se projetara, buscando influenciar todo o mundo ocidental, com a premissa de que nascera a partir daí um novo conceito de liberdade, ora apregoada pela sua Carta Magna, mas que, na prática, se traduzia em uma república impositiva do medo, onde se galgava no instinto expansionista, a qualquer preço, buscando amenizar seu sentimento de insegurança, promovendo uma admiração (aculturação) forjada à base da imposição do medo às outras nações que ora se projetavam na Europa. Com isso, incentivavam as colônias americanas a se libertarem de seus opressores europeus, mas logo em seguida partiam para a ofensiva fazendo-os presa fácil, sem chances de qualquer tipo de resistência. Propagavam falaciosamente a frase: “a América para os americanos”, mas que depois, melhor se traduziria em “a América aos norte-americanos”.

De duas possíveis ameaças (Inglaterra e França), agora todos se tornariam inimigos em potencial. Mas, a máquina de guerra impõe-se também como aparelho ideológico do Estado acompanhada por uma pseudo religiosidade messiânica, promovendo a idéia de uma América cujos cidadãos eram livres.

Ao debruçar-me no livro “A Fabricação do Império americano”, atrevo-me a citar aqui uma passagem que pode muito bem traduzir o que tenho comentado nas parcas linhas anteriores: “Tão logo uma nação pare de se expandir, começa a declinar. Assim, a força de uma sociedade está em seu vigor militar. Seus ideais, leis e constituições são apenas cintilações temporárias. Os Estados Unidos (…) foram construídos a partir de espólios de combate e conquista de tribos indefesas, e agora devem continuar essa irrepreensível expansão contra nações que têm uma habilidade militar igual ou superior à sua. Uma vez que parem de fazer isso, sua morte será inevitável”.

No entanto, havia ali um remanescente que ainda persistia em abolir as influências derivadas do sangue e da genética de seus ex-colonizadores ingleses. Estes homens, denominados Sons of Liberty (filhos da liberdade), era uma associação secreta de comerciantes, advogados, jornalistas e artesãos contrários à Lei do Selo de 1765, que depois acabou transformando-se numa organização que aglutinou o espírito de resistência das colônias americanas. Contradiziam as vozes de John Quincy Adams cujo lema era: “Todo o continente da América do Norte parece estar destinado pela Divina Providência a ser povoado por uma nação, falando um idioma, professando um sistema geral único de princípios religiosos e políticos e acostumada a um mesmo padrão de usos e costumes sociais”, o que mais tarde veio a ser interpretado como o “Destino Manifesto” de Theodore Roosevelt, que tentava esconder a fome de terra dos americanos sob o pretexto de exercer a justiça às nações inadimplentes com suas dívidas, a ponto de exercer o poder de polícia internacional.

Vozes avassaladoras contra o sistema expansionista se levantaram ousadamente, denunciando a hipocrisia e a falsificada idéia de liberdade muito apregoada pelo governo e pela elite, que aos poucos se enraizava no novo continente. Podemos citar homens como Samuel Adams, Henry David Thoreau, John Brown, Noah Worcester, A. J. Mustre, Daniel Webster, Glover Cleveland, Robert M. La Follette, George W. Norris, Wayne Morse, George Mc Govern e Eugene McCarthy. Também podemos citar John Woolman (ministro quaker, 1720-1772) que mesmo antes da independência já viajava pelas colônias pregando contra o alistamento militar, os impostos e, principalmente a escravidão, promovendo o boicote dos produtos de trabalho escravo.

O que se pode avaliar dos paradoxos democratizantes é justamente a pergunta de como se pode associar, de fato, a idéia de igualdade ou de liberdade em um sistema que muito bem pode ser questionado pela nova roupagem dominadora, vestindo um velho sistema absolutista e autoritário? Porventura não se traduziria, assim, na citação de “sorrateiramente tentar colocar vinho novo em odres velhos”?

(Fonte para algumas citações: Sidney Lens. A fabricação do império americano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. 669p.)

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

2 comentários sobre “Ascenção da Democracia Representativa – Parte 2

  1. Fora a ridícula grosseria da teoria do Destino Manifesto – sustentação ao imperialismo ianque – é de deixar incrédulo quando, em pleno século XXI, o governo Bush defendia impor democracia à força…Até quando manterá sua expansão militar?

    Publicado por joseaugustohartmann | 29 de janeiro de 2013, 10:22 am
  2. Olá Hartmann, penso que a teoria do Destino Manifesto é somente mais um dos argumentos utilizados para a dominação! Abçs

    Publicado por Eder Silva | 30 de janeiro de 2013, 9:01 am

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