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Instituições e Processos Políticos, José Augusto Hartmann

Considerações sobre neoliberalismo e neopopulismo

A década de 1990 viu a decadência de um modelo e a ascensão de um novo. Iniciado no final dos anos de 1970, o neoliberalismo , fundamentado nos Estados Unidos e Inglaterra, ganhou força nos anos 1980 e no início da última década do século XX parecia a solução para os problemas latino-americanos. Isso pois, esses países vinham de uma altíssima inflação, descontrole nos gastos públicos e altos índices de corrupção, que fizeram da década de 1980 uma “década perdida” (pelo menos no Brasil). Para solucionar esses problemas seguiu-se a cartilha do Consenso de Washington. Abertura da economia, diminuição radical do Estado, controle dos gastos (inclusive de investimento), superávit e, claro, acordos comerciais de livre comércio.

Argentina, Brasil, Perú, México, vários foram os países que aderiram ao modelo. No Brasil iniciamos a abertura da economia com Collor de Mello e o restante fizemos com Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Esse último teve um governo símbolo do neoliberalismo latino-americano. Várias empresas estatais foram privatizadas (como Vale do Rio Doce e Telebrás). Combateu-se a inflação com o Plano Real e quase nos associamos à ALCA. Esse modelo conseguiu introduzir o Brasil no capitalismo globalizado, ainda que como coadjuvante, ou emergente para os mais otimistas. Os cortes nos gastos públicos produziram um alto índice de desemprego, principalmente entre jovens, idosos e mulheres. A previdência social sofreu reformas que diminuíram os benefícios. Houve arrocho salarial à medida em que passavam-se os anos e a frágil economia “emergente” passava pelas crises globais. Esses problemas pareciam levar ao esgotamento do modelo e davam margem ao novo modelo que, esse sim, emergia.

Em 2002, Fernando Henrique Cardoso não conseguiu fazer seu sucessor, sendo eleito Luís Inácio “Lula” da Silva. Com Lula, um novo modelo também era estabelecido. Retomava-se o papel do Estado como indutor da economia. Isso já fora pensado pelos defensores do Estado de Bem-Estar Social assim como pelos populistas latino-americanos, como Vargas, Perón e Cárdenas. Estabelecia-se o que já se chamava de neopopulismo. Juntamente à Lula, viu-se a ascensão de Néstor Kirchner, na Argentina, Chávez na Venezuela, Morales na Bolívia e Correa no Equador. O que esses governos têm em comum, e em comum com os populismos do século XX é a figura marcante de uma liderança e a indução da economia capitalista pelo Estado, com controle de sindicatos e alguns benefícios aos trabalhadores.

Desses governos, houveram algumas sucessões. Néstor, antes de morrer, fez sua sucessora, Cristina Fernández. No Brasil, Lula conseguiu fazer eleger-se Dilma Rousseff. Fica a questão para os mais personalistas entre esses modelos: Venezuela, Equador e Bolívia. Chávez passa pelo combate a um câncer persistente. Em caso de sua morte, ventila-se a possibilidade de indicação de Nicolás Maduro, alguém bem menos popular e extrovertido que Chávez. Estaria a Venezuela preparada para uma sucessão pacífica, assim como os países do Cone Sul? Nesse caso uma eleição sem Chávez seria uma grande prova da maturidade da democracia venezuelana.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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