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Educação, José Augusto Hartmann

A nova matríz curricular do Paraná

[Texto de José Augusto Hartmann, Educação] Nas últimas semanas o Governo do Paraná vem divulgando sua proposta de implementação de uma nova matriz curricular, uma matriz única, para o Estado do Paraná. Com esse projeto, o Governo visa aumentar as aulas de Língua Portuguesa e Matemática, afim de melhorar sua avaliação no SAEB (Prova Brasil), que caiu na última avaliação. No Ensino Fundamental essas disciplinas passariam a ter 5 aulas semanais, enquanto no Médio 4, mais duas novas disciplinas (Produção de Texto e Fundamentos da Matemática).

Segundo a última avaliação do INEP, que propõe um índice de qualidade da educação, o Paraná  caiu de 4º para 6º. Como a nota é composta, além de critérios como a reprovação e evasão, pela SAEB, a Prova Brasil, que avalia conteúdos de Português e Matemática, o Governo resolveu botar suas fichas aí, em detrimento de outros conteúdos. As demais disciplinas terão sua carga horária reduzida para suprir a necessidade da nova grade. Mas isso somente ocorre porque não se propôs investir mais em educação, mas cortar as disciplinas que passaram a ser vistas como “inúteis” pelo Governo. No Ensino Fundamental nada mudará na quantidade de aulas, enquanto no Médio aumentarão apenas duas aulas semanais.

A situação fica mais visível ainda quando se analisa a nova grade do Ensino Médio. Isso pois além de ter-se diminuído todas as “outras” disciplinas, algumas passarão a ficar numa situação bastante capenga. Filosofia, Sociologia, Arte e Língua Estrangeira Moderna terão, em alguns anos somente uma aula semanal ou mesmo nenhuma. Deste modo, a resposta do Governo do Paraná para a queda da qualidade de ensino é a exclusão de algumas disciplinas menos utilitárias para seu programa. Se a proposta de criação de uma avaliação para o ensino no Brasil visava políticas para a sua melhoria, não foi o que ocorreu no Paraná. Aqui propomos a solução mais fácil: achar as brechas no sistema. Adestraremos nossos alunos para a SAEB, enfocando um ensino vazio ou ralo. Nossa resposta para a queda não é melhorar o investimento, pensar em Ensino Integral, holístico, que vise a formação de cidadãos completos (ou o mais próximo a isso), mas o jeitinho para alcançar o índice – mais ou menos como faz um funcionário de vendas, despreocupado com a ética ou com a sociedade, mas somente com sua meta e seu emprego. Não que esse funcionário tenha muito a fazer, pois o patrão é implacável, mas estamos falando de um Governo de Estado, que só tem função se visar o bem-estar social.

Assim o Paraná se põe ao lado de tantos Estados que não fazem nada pela melhoria do Ensino e da Educação, seja por incompetência, seja por má-fé. Não esqueçamos que temos o 5º maior PIB do Brasil. Parece, no mínimo uma reposta equivocada essa de diminuir as disciplinas citadas, senão uma visão utilitarista e fragmentada do que seja educação.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

6 comentários sobre “A nova matríz curricular do Paraná

  1. está soando que o Enfoque é: reduza o campo de visão do estudante para um Cidadão-Objeto-Letrado ou a um Número-Objetivo mesmo! ” Enforque o pensamento crítico… Asfixie a subjetividade… Cale a boca do povo, silenciando o que Civiliza uma população… “

    Publicado por anovamente | 3 de dezembro de 2012, 7:04 pm
    • Caro amigo Adriano, em poucas palavras você disse tudo acerca das projeções futuras na educação. Aliás, passando para a esfera universitária, há tempos que estamos retrocedendo.
      Parabéns, Hartmann, por mais uma provocação, uma crítica construtiva. Ainda tenho por certo que a humanidade (no geral) jamais evoluiu e jamais evoluirá. Enquanto houver o jogo do poder, a rebuscagem do domínio perdido, seremos sempre massa de manobras. A humanidade se movimenta, mas nunca evolui! Em muitas vezes, a tecnologia existiu, mas sempre inversamente proporcional à durabilidade do bom senso, do consenso…
      Abraços e até a proxima.

      Publicado por Eder Silva | 4 de dezembro de 2012, 5:27 pm
  2. Parece isso mesmo, infelizmente. Leitores de bulas e receitas, isso parece o suficiente para esse modelo que se instalou na SEED. Visão muito limitada do que venha a ser educação, um tema muito grave para ser deixado de lado…

    Publicado por joseaugustohartmann | 3 de dezembro de 2012, 9:45 pm
  3. Obrigado Eder. E esse movimento da humanidade parece ser em círculos, não? Técnica para dominarmos e sermos dominados… Abraço!

    Publicado por joseaugustohartmann | 4 de dezembro de 2012, 6:30 pm
  4. E o medo que a população comece a pensar de verdade? Ah tá, já que vocês querem pensar pensem em números e em como entrar para o soletrando da globo! Como pode nossos políticos terem uma visão tão limitada do que realmente é importante?

    Publicado por Deise | 30 de março de 2013, 1:33 pm

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