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Educação, José Augusto Hartmann

Mídia, neoliberalismo e educação

[Texto de José Augusto Hartmann, Educação] Que os meios de comunicação têm posição no espectro político e têm partido quase todos (salvo ingênuos) já sabem. Acontece que no caso brasileiro torna-se irritante a velha tentativa de parecerem “imparciais”. Vivem anunciando sua “imparcialidade”, ao mesmo tempo que defendem ideias e, mesmo, divulgam que têm opinião. Não é uma contradição? Pois é.

A última que me chamou a atenção foi a reportagem da Gazeta do Povo de domingo 11/11/12.[1] Um título anunciava: Ensino público S/A. Pensei, volta esse jornal a defender o ensino privado em detrimento do público. Quando li não me restou mais dúvidas, era isso mesmo. Convido o leitor a perder alguns minutinhos com o texto.

Em linhas gerais a reportagem afirmava o seguinte. O ensino público na cidade de Apucarana, norte do Paraná, tornara-se muito superior ao de outros municípios, pois adotou práticas “empresariais” na sua gestão. Até aí tudo bem, é a defesa de um modelo de gestão. Mas que melhoras foram essas? O município criou uma autarquia para gerir a educação, tirando essa função da Secretaria Municipal. Isso teria feito com que a nota do IDEB atingisse um patamar elevado e as escolas, em sua estrutura física, se aproximassem “da qualidade da rede privada de ensino”. Isso tudo, pois o sistema atuaria “quase como uma empresa, onde a secretária de Educação é a presidente e os pais, os acionistas.”

Onde mora a falácia? Primeiro que o sistema continua público e gestão pública pode ter qualidade e isso não a fará parecer “privada”. Aliás, a “privada” pode ser bem ruinzinha, como muitas empresas por aí (incluindo escolas). Depois, que um dos principais motivos para a melhora do ensino foi sua transformação em integral, para o que, segundo o prefeito, foi necessário aumentar o investimento em educação de 25% para 32%. A melhora da estrutura física anunciada passa por livros enviados pelo MEC “decorando” as salas de aula. Fora isso, pode-se ver nas fotos da reportagem que, apesar de bem feitas, não escondem a necessidade de investimentos a serem feitos. Ainda por cima, chamam os pais de acionistas! Acionista visa lucro meus caros! O que ocorre é que os pais participam e isso poderia ocorrer em qualquer escola pública e ocorre em muitas, não somente em Apucarana. Entretanto, os pais colaboram com 2 ou 3 reais, o que auxilia na compra de materiais de limpeza. Outra antiguidade quentinha apresentada pelo jornal. Para informação da brilhante jornalista, existe em muitas escolas públicas a possibilidade de contribuir para a APMF (Associação de pais, mestres e funcionários) e ninguém é impedido de doar nenhum centavo em nenhuma época do ano. Porém, o ensino público é gerido com recursos do Estado e ninguém pode ser obrigado a contribuir com nada! Obrigação de cobrança pode até transformar um pai em acionista, mas é crime.

Assim que, mais uma vez, uma reportagem da Gazeta do Povo defende uma visão neoliberal. Ataca o Ensino Público, utilizando-se de falácias grosseiras. Parece-me má-fé, pois os argumentos são bastante fracos. O que incomoda na leitura é saber que esse jornal continua a esconder-se atrás do véu pudico da “imparcialidade”. Até parece.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.


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Discussão

7 comentários sobre “Mídia, neoliberalismo e educação

    • É por isso que os professores exigem autonomia em seu trabalho. Teoricamente as escolas têm autonomia, mas o curriculo continua fechado. Para piorar, o estado do Paraná está propondo um currículo único para 2013, com mais aulas de “português” e matemática…(e menos de história, filosofia, sociologia, arte…?)

      Publicado por joseaugustohartmann | 13 de novembro de 2012, 11:55 am
  1. Um grande descaso se sustenta até hoje desde dos tempos áureos de Getúlio Vargas, em novembro de 1930 foram feitas reformas na área educacional referentes a quantidade de horas da permanência de crianças na escola e bases do sistema universitário brasileiro voltado para pesquisa e o ensino. Ações claras e de grande impacto estão em déficit (ao meu ver) hoje em dia, e o que vem acontecendo é a “descentralização” das políticas publicas, delegando poderes e afirmando que é de responsabilidade de todos as questões de saúde, educação, sergurança etc, logo o “terceiro setor” cresce com ONGs e incentivos privados. Assim o poder público “lava suas mãos” em uma via de mão dupla deixando a via mais rápida para responsabilidade da administração indireta “autarquias” , “pais” e terceiro setor. Grande reflexão Hatmann.

    Publicado por Eli | 13 de novembro de 2012, 10:03 am
  2. O poder público parece estar submisso ao privado, interessado mais em formar mão-de-obra do que cidadãos.
    Obrigado pela análise Eli.

    Publicado por joseaugustohartmann | 13 de novembro de 2012, 11:56 am
  3. na atual conjuntura,o s governantes estão preocupados com os seus interesses..a escola pública de qualidade deveria ser imprescindível para a formação do sujeito,mas infelizmente criaram a lei de diretrizes e bases com um lindo discurso que não condizem com a realidade em que estamos inseridos,.são teorias que colocadas em prática demonstram cada vez mais a necessidade de políticas públicas e investimento em educação.!

    Publicado por rosimary machado tostes | 20 de fevereiro de 2013, 8:53 pm
  4. Realmente, Rosimary. É revoltante ouvir sempre o mesmo discurso de que educação é prioridade, quando na realidade a prioridade é o conchavo, atender os interesses de apoiadores lobísticos…

    Publicado por joseaugustohartmann | 21 de fevereiro de 2013, 9:57 am

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