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Carlos Evangelista, Comunicação Política

Um olhar sociológico sobre quatro cidades do Brasil

Foi encerrado no último domingo de outubro o processo das eleições municipais de 2012, no Brasil. Para melhor compreender este fenômeno social, político e financeiro, estivemos coletando amostras do processo conforme traduz a sociologia política, através dos debates, modelos de campanhas, mão forte do governo federal, empenho das equipes, estratégias e os resultados obtidos. Foram escolhidas Curitiba e São José dos Pinhais, no Paraná e São Paulo e Campinas, no Estado de São Paulo.

Em Curitiba a imagem de bom moço, sério, responsável, inteligente,  capacitado e  comunicativo fortaleceu a  campanha no  segundo  turno para Gustavo Fruet,  contra o  deputado  federal, Ratinho Junior,  que no segundo  turno ficou  perdido  no quesito marketing,  confundindo  com propaganda e  agressão. Agredir na mídia é perder nas urnas. Com 60,65% contra 39,90% dos votos válidos, foi eleito Gustavo Fruet- PDT, prefeito de Curitiba, com 1.054.583 eleitores, onde 16,92% votaram nulos, brancos ou se abstiveram. Fruet recebeu apoio do PT que tem uma petista na vice.

Em São Paulo, com mais de oito milhões de eleitores, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva e a presidente Dilma Roussef trabalharam com afinco e elegeram Fernando Haddad prefeito de São Paulo. Numa estratégia feliz do ex-presidente Lula, São Paulo, a maior cidade do Brasil, será administrada pelo PT, após oito anos, enterrando de vez a saga tucana de embromar em nome de uma política da social democracia. Ainda que o PT tenha  feito  acordos  com Paulo Maluf, é preciso  reconhecer a  estratégia  petista  de  fazer  campanha  em São Paulo.

Entretanto, na cidade de Campinas, com 785 mil eleitores, terceira  economia  do Estado  de São Paulo, mesmo  reunindo o  candidato Marcio Pochmann, Lula, Dilma e o  atual  prefeito  derrotado, o  vencedor  foi   Jonas Donizete do PSC,  com 59% dos  votos  contra  41% do  oponente. Num debate realizado pela TV Record, no segundo turno, o candidato petista bateu forte no adversário. Jonas, com melhor preparo político soube jogar Pochamann contra a população e conquistou a prefeitura da cidade, que nos últimos quatro anos teve três prefeitos.

Em São José dos Pinhais, com 178 mil eleitores, terceira economia do Estado do Paraná, das quatro cidades enfocadas é a única que não teve 2º  turno e o  vencedor  foi  o  ex-prefeito e  atual  deputado  federal, Luiz Carlos Setim-DEM,  seguido por Rodrigo  Rocha Loures-PMDB,  que  deixou a  terceira  posição  para o  atual  prefeito Ivan Rodrigues,  do PSD. Os são-joseenses optaram eleger a melhor estratégia de campanha, deixando o melhor candidato em segunda colocação e disseram não a melhor propaganda do atual prefeito.

Para melhor dinamizar as eleições e os resultados, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) investe pesado em tecnologia da informação e vimos um processo  ágio,  confiável e  bem comandado  pela Justiça Eleitoral,  sendo  Curitiba  a  cidade  brasileira mais  rápida  na  apuração  dos  votos,  em  menos  de  trinta minutos, enquanto  a apuração  nacional  foi  de menos  de  cinco  horas.

 

Abstenções

Chama atenção o crescente número de abstenções no processo eleitoral. Em Curitiba, chegou a quase 17% os eleitores que se abstiveram, votaram nulo ou branco, porém  em São Paulo  este  índice  chegou  a 31,59%. Sem  dúvida, um fenômeno social que  certamente  obriga  partidos  e  justiça eleitoral, mudarem  as  regras, obrigatoriedade, multas,  etc,  Vai  a justiça eleitoral ouvir essas pessoas que  repudiam e  ameaçam a  democracia brasileira? Longe disso, mas talvez  essas pessoas  querem  dizer apenas  que  gostariam  antes  de  defenderem  a  democracia  participativa;  aquela  em  que  o povo  é  soberano,  diante  dos políticos. Ou essa parcela de não votantes gostaria do exercício sagrado do voto nas decisões do aumento  dos  impostos,  temas sociais  para  definição  de políticas públicas, modernização  das leis e muito mais,  que  só  os  referendos, plebiscitos e  iniciativa popular possibilitam.

Mas no Brasil, infelizmente, o eleitor é convidado a participar somente de dois em dois, ou de quatro em quatro anos, fora desse período o eleitor é extremamente desrespeitado em ver, por exemplo, ajudar eleger fulano a um cargo e ele opta por outra função, ao seu bel prazer e vantagens, perpetuação pessoal e familiar no legislativo, etc.

Assim, este modelo de democracia representativa no Brasil, ludibria o povo, que nas urnas dá uma banana as blindagens no processo político, as agressões no horário político gratuito, ao exibicionismo das carreatas sinalizando e surpreendendo os mais experientes postulantes a cargos políticos. Mas é o modelo que temos na atualidade. Ainda que defensor dos políticos profissionais (partidários e apadrinhados) da hereditariedade (familiares de políticos) a democracia representativa assim como tudo muda, fica evidente nas urnas que perde espaço para a democracia participativa, sem a exigência da filiação a esse ou aquele partido. Mas para mim basta que o novo prefeito seja como um pai de família, no amor, na ética e na justiça, conforme reza este ano a CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Cidadania Ativa

Como afirma a cientista política Maria Victória Benevides, da USP, no livro A Cidadania Ativa, 1991, da editora Ática, “a definição de democracia enfatiza soberania popular, mas com a clara definição de seus limites para que não ocorra a tirania da maioria. Assim a democracia representativa continua indispensável. Mas se quero desenvolvimento com democracia tenho de querer também um sistema de solidariedade social, com reflexões sobre direitos humanos à temática da educação para a democracia participativa e que a cidadania ativa é indispensável entre democracia participativa e educação política do cidadão para compreensão dos valores republicanos, com respeito às leis, ao bem público e com virtudes do amor e igualdade e respeito integral aos direitos das minorias à informação e expressão”.

 

Resultados das eleições 2012 em:

São Paulo:

8.619.170 eleitores, com 31,59% dos votos nulos, brancos e abstenções, Fernando Hadad-PT obteve 55,57% contra  44,43% de José  Serra-PSDB.

Campinas: 785.274 eleitores, com 32,83% de abstenções, votos nulos e brancos, Jonas Donizete do PSB teve 57,69% dos votos, contra 42,31% do petista Marcio Pochamann.

Curitiba:

1.054.583 eleitores, Gustavo Fruet- PDT, com 60,65% dos votos contra 39,35% de Ratinho Junior. 16,92% dos eleitores votaram nulos, brancos ou se abstiveram.

 

São José dos Pinhais:

Com 178.151 eleitores o eleito foi Luiz Carlos Setim-DEM, que obteve 39,97% dos votos contra 26,51% pró Rocha Loures-PMDB,  com  24,27% de  votos  nulos,  brancos e  abstenções.

Fonte (Tribunal Superior Eleitoral- www.divulga.tse.jus.br


Carlos Evangelista é jornalista (ESEEI) e especialista em Sociologia Política (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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