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Filosofia, José Augusto Hartmann

A fábula da formiga e da cigarra

Durante muitos anos concordei com uma crítica à fabula da formiga e da cigarra. Segundo essa crítica, a tal fábula representaria o que há de mais hipócrita na sociedade capitalista: a falsa ideia de que existe mesmas condições para todos, e que aqueles que trabalham mais, com mais afinco, prosperam, enquanto os demais continuam pobres. Não que eu discorde que tal ideia é hipócrita – pelo simples motivo que deve haver patrões e empregados para esse tipo de economia funcionar.

Recapitulando a fábula, a cigarra passa o verão inteiro a tocar e cantar. Enquanto isso, a pobre formiga trabalha, faz “hora extra”, dedica toda sua força e seu tempo para acumular, pensando no inverno que virá. A cigarra, despreocupada, vê a formiga e pergunta: – por que não paras um pouco de trabalhar e senta-te comigo? A formiga responde: – preciso trabalhar enquanto há tempo bom, e você, o que fará quando o inverno chegar? – Ah, não sei, pensarei nisso outra hora, responde a cigarra. Quando chega o inverno, as árvores já varridas pelo outono nada mais têm a oferecer aos insetos. A cigarra está com frio e procura abrigo. Está com fome, mas não há mais folhas ou frutos. Precisa, então, pedir, e vai bater a porta da precavida formiga.

Essa fábula, apresentada para educar as crianças na sociedade capitalista ocidental negaria a exploração do homem pelo homem (representados pelos insetos). Por isso, foi escurraçada da cabeceira dos filhos de muitos pais. Entretanto, reanalisando a fábula, a vi por outra perspectiva, e ela que quero compartilhar. A formiga, trabalhadora dedicada, teve ao fim de seu longo verão, a possibilidade de descansar o inverno. Não precisou se expor ao rigoroso frio e a um clima hostil. Do contrário, os trabalhadores não têm descanso. Muitos não conseguem míseras férias de 30 dias. São expostos a jornadas extensas, em condições insalubres. Faça chuva, sol, muito frio ou calor, lá estão eles (e elas). Sua roupa, quase um uniforme, não pode mudar em certas empresas. Muitos ficam horas em pé, ouvindo músicas irritantes (de causar transtornos psíquicos), em ambientes úmidos, malcheirosos.

Devíamos olhar a fábula da formiga e da cigarra como algo que ainda temos que alcançar. Poderíamos ter horários diferenciados durante o período mais rigoroso do inverno. Profissões com melhor qualidade de trabalho. Seres-humanos levados em consideração como dignos de direitos (humanos). Sem considerar que a cigarra, como artista, foi desvalorizada pelo trabalho já realizado, a fábula tem muito a nos acrescentar.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

6 comentários sobre “A fábula da formiga e da cigarra

  1. …quem trabalha duro, chega Lá? e o que vem a ser o LÁ? curti a questão que tbm levantou sobre a Cigarra Artista… as Artes nem sempre são respeitadas como um ofício…

    Publicado por anovamente | 24 de outubro de 2012, 3:29 pm
  2. “e o que vem a ser o LÁ?”… também não sei…talvez muita grana…mas acho que isso só o trabalho não consegue arrumar, aliás acho que o trabalho é uma das formas menos significativas para arrumar.
    Acho que o debate deve ir pro campo da dignidade. Discutimos isso pouco em nossa sociedade, sejamos pobres ou ricos. (debate de modo sincero, objetivo) ….

    Publicado por joseaugustohartmann | 24 de outubro de 2012, 6:13 pm
  3. A nota “lá” na música, é usada como referência de altura para todas as outras notas e por isso costuma-se fazer referência ao “diapasão” de lá sempre que se deseja indicar qual a freqüência das demais notas.
    “Lá” na música juntamente com o diapasão seria um nota universal para afinação de todos os instrumentos. Então, eu como sou “cantor tenor” arriscaria falar que quem trabalha duro em vós, chegaria no “Dó de peito” nota mais aguda que um tenor pode emitir e não chagar no “Lá”. heheheheheh brincadeiras a parte, concordo com Adriano e José Augusto, rumo a dignidade humana.

    Publicado por Eli | 28 de outubro de 2012, 1:13 pm
  4. Sendo “lá” um norte seguro, somente chegaríamos como uma orquestra, afinada, tocando uma mesma música. Porém como vamos, cada um “toca” o que pode e salve-se quem puder..rsrsrrsrs

    Publicado por joseaugustohartmann | 28 de outubro de 2012, 11:32 pm
    • O problema é que, depois da torre de babel, a humanidade não se dispõe muito em cantar todos num mesmo tom ou ritmo… E, pior, além de não se ter a mesma afinação, o agravante é que não se se preocupa em ouvir a canção, mas sim, unicamente “agitar o esqueleto”. Todavia, é uma boa reflexão para repensarmos sobre a condição humana e seus dissabores! Valew pelo post, Hartmann.
      “Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo,obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um – resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial – tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.” (Hermann Hesse, em “Demian”).

      Publicado por Eder Silva | 29 de outubro de 2012, 9:25 am

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