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Eder Silva, Instituições e Processos Políticos

A religião como política de mudança ao longo do tempo

A religião é uma instituição eminentemente social, coletiva, e, que, portanto, expressa as realidades coletivas; os ritos são maneiras de agir que só surgem no interior de grupos coordenados e se destinam a suscitar, manter ou refazer alguns estados mentais desses grupos.”  (ÉMILE DURKHEIM, em “As formas elementares da vida religiosa”)

Aproveitando-me dos últimos fatos ocorridos em nossa política tupiniquin, no qual, quase que de maneira inexplicável, a elite do poder foi passada pra trás, golpeada em seu calcanhar, e, pasmem, derrotada por um jovem candidato afiliado a um pequeno partido, PSC (Partido Social Cristão), venho trazer-vos à memória alguns dos fatores que originaram o ideário da Reforma Protestante e as influências que motivaram John Locke a escrever os dois tratados que vieram a provocar o estabelecimento dos princípios de liberdade social e política na Inglaterra do período medieval.

Não querendo fazer nenhum link entre as duas épocas, distintas, mas simplesmente salientar que há ainda na plebe algum resquício de esperança em mudanças, toma o que GRAMSCI expressou: “a história dos partidos e das correntes políticas não pode ser separada daquela dos grupos e das tendências religiosas.” (Passato e Presente, p. 207).

Isso ocorreu também na Inglaterra vitoriana (em maior grau, a meu ver), quando, governada por uma elite que teimava sufocar, a toda custo, quaisquer ensejos de mudança sócio-política, eclodia na europa um movimento crescente e contagiante, patrocinado por alguns políticos.

Diferentemente da Revolução Francesa (que se caracterizou pelo descontentamento a um sistema de governo), tais mudanças, que mais tarde contagiaria a Inglaterra, pautavam-se essencialmente em fatores que já vinham acompanhando questionamentos sobre a necessidade ou não de um soberano ou até mesmo a idéia de uma hierarquia pré-estabelecida com o pretexto de melhor organizar a sociedade ou favorece-la nas condições básicas de sobrevivência.

Geralmente pensa-se na Reforma Protestante com as 95 teses de Lutero, em Wittemberg. Mas devemos levar em conta a inobservância, por parte de alguns historiadores, sobre as muitas forças que se movimentaram sob a égide de pensadores mais antigos.

A idéia de reforma já ocorrera antes mesmo do início da era cristã. Os essênios, descontentes com o sincretismo religioso imposto aos judeus pelos colonizadores romanos, afastaram-se da sociedade judaica de modo a estabelecer uma distinta comunidade em pleno deserto, próximo ao Mar Morto (fortaleza de Massada). Esta facção adquiriu seu próprio ethos ao longo do período em que se afastara da civilização. Seguiam ao pé da letra os princípios da Torah e assim acreditavam estar seguindo uma suprema ordem divina, sem intermediadores humanos.

Seguindo a trajetória, Agostinho de Hipona no século IV dC defendia a libertação do homem ao sistema “mundano”, dando início ao que se chamou monasticismo (monges agostinianos), que apregoava sob o pretexto de purificação da alma, votos de castidade, de isolamento (enclausuramento), a meditação, etc. Mais tarde, houve reformadores como Robert Grosteste (1175-1253), John Tauler (1290-1361), John Huss (1369-1415), Desidério Erasmo (1466-1536), William Tyndale (1492-1536) que, embora adotassem pensamentos diferentes, criticando a igreja institucional de suas épocas, “eram todos unânimes em afirmar que a religião cristã estabelecera uma relação direta entre Deus e o homem, por intermédio do espírito do homem, pelo que este era obrigado a viver pelo conhecimento que Deus lhe concedera e não pela orientação de qualquer instituição humana ou algum outro mediador humano, como o sacerdote; “descobriram dentro do próprio homem, e não na Igreja, a autoridade da relação do homem com Deus”.

John Huss lançou críticas de cunho reformista dentro da igreja cristã de sua época, mas não estabeleceu um programa prático para a concretização das suas idéias. Estes homens, em suas posições críticas ao sistema vigente, “em virtude de não terem alcançado o apoio do poder político que os protegesse, não foram colocados em posições suscetíveis de obriga-los a tornar explícitas suas idéias. Viram o problema da liberdade do homem e seu direito a exprimir um juízo privado, mas não foram capazes de adaptar essas visões a um contexto prático. Os reformadores de quem a Igreja protestante brotou, foram, por outro lado criativamente construtivos… Ordens enviadas pela Igreja eram ignoradas agora, e os governantes locais agiam por sua conta. O novo espírito do homem começava a ter expressão no domínio político; os homens emancipavam-se, também, nas suas posições governamentais, assumindo-as livremente e em plena responsabilidade.

É importante e notável considerarmos que a Reforma Religiosa teve sucesso mediante o apoio dos poderes políticos.

O Protestantismo foi estabelecido com êxito nos países do Norte da Europa. Ali as Igrejas protestantes tinham o apoio dos poderes políticos e atraíram para o seu seio vastos setores da crescente classe média.

As nações escandinavas, consideráveis zonas da Alemanha, a parte setentrional dos Países-Baixos, a Inglaterra e a Escócia tornaram-se terras protestantes. Deixaram de viver como até então tinham vivido, ao descobrirem que eram homens livres. O protestantismo era, na sua essência e na sua estrutura, uma experiência humana.

O homem tornou a sua própria razão autoritária e autônoma; ganhou um conhecimento ordenado da natureza, da história e dos seres humanos. Era inevitável, pois, que o homem relacionasse esse conhecimento auto-adquirido com as suas crenças religiosas.

A teologia aceita, nos dias atuais, ensinou-nos, neste ponto, a doutrina de Locke, tão claramente articulada por ele próprio. “A razão é a revelação natural por onde o eterno Pai da Luz e fonte de todo o saber comunicou à humanidade aquela porção de verdade que ele colocou ao alcance das nossas faculdades naturais: a revelação é a razão natural ampliada por um novo conjunto de descobertas comunicadas imediatamente por Deus, cuja razão garante a verdade de que, pelo testemunho e provas que ela fornece, derivaram de Deus. (Locke, Ensaios, IV, 19, iv)

A ordem social só pode ser reformada por pessoas cujas vidas encontraram uma nova orientação. Ignorar esse fato, na política, ou na prática, é pretender iludir as realidades da vida e refugiar-se num mundo de sonho, criado por imaginações fantasiosas, mas vazio de toda esperança…

Referências:
John Locke, “Ensaio sobre o entendimento Humano”
J. Leslie Dunstan, “Protestantismo”
Martinho Lutero, “A liberdade de um cristão”
Antonio Gramsci, “Passado e Presente”.
Èmile Durkheim, “As formas elementares da vida religiosa”

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações

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Discussão

3 comentários sobre “A religião como política de mudança ao longo do tempo

  1. Contudo, Eder, parece não ser possível que alguém encontre essa nova orientação, exatamente porque, assim como a política, a “religião éuma instituição eminentemente social” e está atolada até os ossos nas relações humanas, e como diria um filósofo, “demasiadamente” humanas. Prova disso é a Reforma, como você mostrou muito bem em seu texto.

    Publicado por joseaugustohartmann | 11 de outubro de 2012, 8:02 am
  2. Daria continuação a este texto, citando uma sugestão, que viria com os quakers (Sociedade dos amigos). É onde acredito que se chegou mais próximo da referida nova orientação à qual citei. Mas, a religião, enquanto instituição, é meramente política, podendo exercer semelhante instrumento para reformas, mas temporal, pois, uma das propostas da reforma (esquecida pelos próprios reformadores), é a de “igreja reformada, sempre reformando”.
    Por outro lado, o ideário da reforma, enquanto “desatrelado da hierarquia clerical” (modelo quaker, desinstitucionalizada), agrega mais responsabilidades ao indivíduo enquanto ser pensante. É aí onde pretendo me expor. Há um texto pequeno em http://www.cristianismooutsider.wordpress.com onde me enveredo um pouco mais pelo lado “transcedental”, o qual tenho mais intimidade para me expor.
    Agradeço os apontamentos ao texto acima. Fique sempre à vontade para comentar lá também, amigo. Sempre é bom explorarmos mais as arestas que deixamos abertas! Abraços.

    Publicado por Eder | 11 de outubro de 2012, 10:06 am
  3. essa discussão é essencial caros amigos… vamos nessa pegada aí… hehe

    Publicado por anovamente | 11 de outubro de 2012, 12:39 pm

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