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Comunicação Política, José Augusto Hartmann

A Curitiba perdida

[Texto de José Augusto Hartmann, Comunicação Política] Faltando poucos dias para a eleição algumas coisas parecem estar consolidadas. Esse é o caso da ascensão do candidato do PSC, Ratinho Júnior. Outra coisa é que muito possivelmente haverá segundo turno, deixando a decisão somente para o final do mês de outubro. Quanto ao segundo turno, ainda não se tem definição em relação aos disputantes. Ratinho Júnior parece estar garantido, enquanto Ducci, Fruet e até Greca disputam a segunda vaga. Se nada mudar até o final da semana, apontam os institutos de pesquisa, Ratinho e Ducci duelarão até 28 de outubro. Em relação à consolidação de Ratinho Júnior cabe um pouco mais de reflexão, uma vez que muitas pessoas ainda não entenderam bem o que está acontecendo.

Desde que Jaime Lerner assumiu a prefeitura de Curitiba, como tecnocrata do regime militar, um grupo e uma ideia/modelo se instalou na administração da cidade. Isso se deu com alguns altos e baixos até que nos anos de 1990 se tornasse hegemônico. Nessa era, forjou-se o mito da capital ecológica, atingindo seu ápice com os novos parques e a novela “Sonho Meu”, que apresentava uma Curitiba romantizada. Como governador, Lerner trouxe, num contexto de guerra fiscal (benefícios fiscais oferecidos pelos estados para atrair investimentos), algumas montadoras para o Paraná (entorno de Curitiba), como a Renault e a Chrysler. Conjuntamente à política de atrativos fiscais, o governador pefelista (para os choros do senil Brizola) lançou uma agressiva publicidade na TV, em que apresentava aos outros estados da nação a “maravilhosa” cidade da “família Folha”. Isso pois, talvez esperasse atrair novas pessoas para a ascendente zona industrial, talvez (creio nisso) para lançar sua candidatura a presidência (o que não foi bem sucedido devido a decadência do neoliberalismo e ascensão do petismo/lulismo).

Essa Curitiba foi querida por muitos curitibanos e imigrantes de outros centros e interiores. Uma classe média que podia deleitar-se por viver num “Sonho Meu”, visitar parques, separar o lixo, usufruir de ruas asfaltadas. Os pobres eram acolhidos em bairros cada vez mais distantes, Bairros Novos. Com Cássio Taniguchi houve um programa de asfalto (na verdade “antipó”) para os vários quilômetros sem pavimento. Ônibus biarticulados eram o metrô de superfície e encantavam as classes médias pela sua inovação. Enfim, havia alguma harmonia entre a vida estressante da cidade e um charme interiorano do caminhão de lixo com sininho. Nesse contexto governaram Lerner, Greca, Taniguchi, Beto Richa e, talvez o último, Luciano Ducci.

E por que agora Ducci, o candidato de Beto Richa (que por sua vez tem Taniguchi como secretário), ainda não conseguiu superar Ratinho? O que terá ocorrido para essa ascensão do candidato do, até então, nanico PSC? Uma resposta definitiva é difícil, mas tudo indica que há uma nova Curitiba que se identifica com esse candidato. Que Curitiba seria essa?

Com a atração de muitas pessoas para a cidade, Curitiba passou de cerca de 500 mil habitantes na década de 1970 para quase 2 milhões em 2010 (mais de 2.000.000 se considerarmos região metropolitana). Ironicamente, lembremos, um dos grandes responsáveis por isso foi o próprio Jaime Lerner. Na última década também vimos a ascensão da “nova Classe Média”. Esse grupo se estabeleceu nos bairros da cidade e já não liga mais Tanguá e Tinguí ao modelo idílico de cidadania proposto pelos antigos moradores. Esse grupo quer consumir, ter ruas com bons asfaltos para trafegar com seus carros, quer postos de saúde com médicos e creches para seus filhos. Querem ônibus menos cheios.

Assim, enquanto a população dos bairros mais tradicionais da cidade ainda compartilha de uma Curitiba perdida, as pessoas dos Bairros Novos vêm a possibilidade de eleger alguém com quem se identificam. Alguém que veio ainda criança para a cidade, com seus pais pobres que ascenderam socialmente, um evangélico, morador de um bairro distante do centro, sorridente e, sobretudo, carismático, se não por si, por seu pai. Curitiba é a cidade dos Ratinhos.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

4 comentários sobre “A Curitiba perdida

  1. poxa cara… muito bem desenvolvido o teu texto… tava querendo ler algo assim, hehe… ” To puxando o saco, pra ver se consigo um vaguinha em algum lugar, hehe… “, no fim pareceu que você tomou “partido” do Ratinho… não falando ser bom ou ruim… mas no sentido da esperança de mudar e pra melhor, claro… tipo, é o que temos pra hoje… ou A Envelhecida Capital do Sorriso Modelo (Curitiba Perdida)… ou a Possível Cidade do Encontro com ela Mesma… e Esperança não é mandamento religioso não… é Valor Humano!

    Publicado por anovamente | 4 de outubro de 2012, 12:55 pm
  2. [Já fiz alguns comentários, respondendo ou comentando outros posts que não saíram. acho que não pus a senha no final. rsrs. Bem somente agora percebi. Assim que havia tentado te responder antes, mas não ficou registrado] Concordo contigo. Curitiba parece a cidade “do Encontro com ela Mesma”. E é mais ou menos isso: é o que temos para hoje. Não me empolgo com nenhum dos dois grupos. São duas classes médias bastante conservadoras, a estabelecida e a nova, ascendente. Mas confesso achar alguma graça em cair o modelo da cidade modelo (modelo falso). A atual eleição evidencia essa cidade rachada que ha muito tempo Curitiba vem se tornando (se não foi sempre assim)..

    Publicado por joseaugustohartmann | 5 de outubro de 2012, 10:32 pm
    • toda mudança de padrão, de cultura começa de forma “estranha”… tipo, são apostas neh… dar oportunidade ao “desconhecido”… parece que Curitiba já se encheu de Slogans de Parques Temáticos Politicamente Corretos… e tá tendo que lidar com o seu Conteúdo… além da Embalagem…

      Publicado por anovamente | 7 de outubro de 2012, 11:18 pm

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