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Eder Silva, Resenhas

Bob Dylan, o outsider poeta e visionário

Quem se lembra daquela canção que tanto tocava nas rádios curitibanas em fins da década de 90, de uma banda curitibana chamada Sr. Banana?

Então, aí vai um trechinho: “…Ê dignidade, foi se embora prá onde. Ninguém sabe onde se esconde. Êiê  dignidade, foi se embora prá onde. Ninguém sabe onde se esconde. Dignidade é o sentimento inexistente no coração dessa gente que não sabe seu poder. O problema é a pobreza que invade a cidade que não pára que não para  de crescer. Passando fome não espere que um homem tenha capacidade de refletir e opinar. Ficando muito mais fácil prá quem domina já que o povo se escraviza prá poder se alimentar.

Mas o problema da dignidade não confronta só o espírito do povo brasileiro. Há quem diga que nos states a Dignidade também não somente acha-se escondida, mas também há aqueles que nem sequer querem procurá-la.

Robert Allen Zimmerman (nome hebraico: Zushe ben Avraham) ou artisticamente chamado Bob Dylan somente lançou esta música muito tempo depois de escrevê-la, ou seja, num terceiro volume de uma coletânea, em 1994.

Vale lembrar que o visionário poeta do Folk Rock já tivera um encontro com o cristianismo no ano de 1978, fato este que causou muita consternação por parte de seus fãs, que imaginavam o abandono do músico dos palcos ou a migração deste para o mercado gospel. Mas, nem uma, nem outra opção, e sim três álbuns maravilhosos (Slow Train Coming, de 1979, Saved de 1980 e Shot of Love de 1981). Antes, em 1975, já havia lançado um álbum repleto de profundidades fundamentais, o consagrado Blood on the Tracks.

Durante seus días en Dinkytown, Zimmerman passou a chamar de “Bob Dylan“. Em uma entrevista concedida em 2004, Dylan disse: “Você nasce, sabe, com nomes errados, pais errados. Digo, isso acontece. Você se chama do que quiser se chamar. Este é o país da liberdade“… Em sua autobiografia, Crónicas, Vol. 1, Dylan escreveu sobre a mudança de nome:

 “Eu havia visto alguns poemas de Dylan Thomas. A pronúncia de Dylan e Allyn era parecida. Robert Dylan. A letra D tinha mais força. Entretanto, o nome Roberto Dylan não era tão atraente como Roberto Allyn. As pessoas sempre haviam me chamado de Robert ou Bobby, mas Bobby Dylan me parecia vulgar, e além disso já haviam Bobby Darin, Bobby Vee, Bobby Rydell, Bobby Neely e muitos outros Bobbies. A primeira vez que me perguntaram meu nome em Saint Paul, instintiva e automaticamente soltei: ‘Bob Dylan”.

Então, surge um dos maiores porta-voz da contracultura, que em suas letras havia “blood on the tracks“; havia esparramado poesia politizada ou politizante, em meio a um mundo entorpecido pelo espírito ufanista / triunfalista de uma sociedade morna e descompromissada com o próximo.

Aqui vai a letra da bela canção “Dignity”:

Fat man lookin’ in a blade of steel
Thin man lookin’ at his last meal
Hollow man lookin’ in a cottonfield
For dignity
 
O gordo procurando em uma lâmina de aço,
O magro procurando sua última refeição,
O homem vazio procurando num campo de algodão,
por dignidade.
 
Wise man lookin’ in a blade of grass
Young man lookin’ in the shadows that pass
Poor man lookin’ through painted glass
For dignity
 
O sábio procurando numa lâmina de grama,
O jovem procurando nas sombras que passam
O pobre procurando através do vidro pintado
Por dignidade.
 
Somebody got murdered on New Year’s Eve
Somebody said dignity was the first to leave
I went into the city, went into the town
Went into the land of the midnight sun
 
Alguém foi assassinado no Réveillon
Alguém disse que a dignidade é a primeira a partir
Eu fui até a cidade, fui até a vila
fui até a terra do sol da meia-noite
 
Searchin’ high, searchin’ low
Searchin’ everywhere I know
Askin’ the cops wherever I go
Have you seen dignity?
 
Procurando acima, procurando abaixo,
Procurando em todos os lugares que eu conhecia
Perguntando aos guardas de onde quer que eu fosse:
Vocês tem visto a dignidade?
 
Blind man breakin’ out of a trance
Puts both his hands in the pockets of chance
Hopin’ to find one circumstance
Of dignity
 
O cego saindo de um transe
coloca suas mãos nos bolsos
esperando encontrar uma circunstância
de dignidade
 
I went to the wedding of Mary-lou
She said ÒI don’t want nobody see me talin’ to you?
Said she could get killed if she told me what she knew
About dignity
 
Eu fui para o casamento de Mary-lou
Ela disse: Eu não quero que ninguém me veja conversando com você.
Ela disse que poderia ser assassinada se me dissesse que sabia
sobre a dignidade
 
I went down where the vultures feed
I would’ve got deeper, but there wasn’t any need
Heard the tongues of angels and the tongues of men
Wasn’t any difference to me
 
Eu desci para onde os abutres se alimentam
eu poderia ter ido mais fundo, mas não havia necessidade
Ouvi as línguas dos anjos e as línguas dos homens,
não fazia diferença para mim
 
Chilly wind sharp as a razor blade
House on fire, debts unpaid
Gonna stand at the window, gonna ask the maid
Have you seen dignity?
 
O picante vento afiado como uma lâmina.
Casa em chamas, dívidas não pagas
Estarão na janela, perguntarão à governanta:
Você tem visto a dignidade?
 
Drinkin’ man listens to the voice he hears
In a crowded room full of covered up mirrors
Lookin’ into the lost forgotten years
For dignity
 
O homem bebendo escuta a voz que ele ouve
uma sala lotada cheia de espelhos virados para cima
olhando para os perdidos e esquecidos anos
por dignidade
 
Met Prince Phillip at the home of the bluesSaid he’d give me information if his name wasn’t used
He wanted money up front, said he was abused
By dignity
 
Encontrei Príncipe Phillip na casa do blues
Disse que me daria a informação se seu nome não fosse mencionado
Ele queria dinheiro, disse que foi abusado
pela dignidade
 
Footprints runnin’ cross the sliver sand
Steps goin’ down into tattoo land
I met the sons of darkness and the sons of lightIn the bordertowns of despair
 
Pegadas correndo pela areia prateada
Passos descendo para a terra das tatuagens
Eu encontrei os filhos da escuridão e os filhos da luz
Nas fronteiras do desespero
 
Got no place to fade, got no coat
I’m on the rollin’ river in a jerkin’ boat
Tryin’ to read a note somebody wrote
About dignity
 
Não consegui um lugar para desvanecer não consegui um casaco,
Estou no rio rolante num barco repuxado
Tentando ler a nota que alguém escreveu
sobre a dignidade
 
Sick man lookin’ for the doctor’s cure
Lookin’ at his hands for the lines that were
And into every masterpiece of literature
for dignity
 
O homem doente procurando pela cura do doutor
Procurando em suas mãos, para as linhas que ali estavam,
e para cada obra de literatura
por dignidade.
 
Englishman stranded in the blackheart wind
Combin’ his hair back, his future looks thin
Bites the bullet and he looks within
For dignity
 
Ingleses encalhados no frio vento
Penteando seus negros cabelos para trás seu futuro parece estreito
Ele morde a bala e olha para dentro
por dignidade
 
Someone showed me a picture and I just laughed
Dignity never been photographed
I went into the red, went into the black
Into the valley of dry bone dreams
 
Mostraram-me uma imagem e eu apenas gargalhei:
A dignidade nunca foi fotografada.
Eu fui até o vermelho, e fui até o preto
Até o vale dos sonhos de ossos secos
 
So many roads, so much at stake
So many dead ends, I’m at the edge of the lake
Sometimes I wonder what it’s gonna take
To find dignity
 
Muitas estradas, muita coisa em jogo
Tantos impasses, estou na margem de um lago
As vezes me pergunto o que ele faráPara encontrar a dignidade.

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações

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I'm a outsider

Discussão

Um comentário sobre “Bob Dylan, o outsider poeta e visionário

  1. …e aí, alguém encontrou a Dignidade por aí, hein, Hein!??

    Publicado por anovamente | 3 de outubro de 2012, 6:45 pm

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