//
você está lendo...
Política e Sociedade, Vinícius Armiliato

Porque não devemos discutir as propostas de nossos candidatos.

[texto originalmente escrito em 2006, a propósito das eleições de então]

É impressionante como depois de assistir a um debate político, saímos por aí aclamando os nossos candidatos munidos dos argumentos que eles usaram na TV. O pior é que nem pensamos no que estamos falando, pois a TV passa para nós a ideia de que devemos argumentar, debater como os candidatos em seus palanques, pensando em simplesmente “responder melhor” ou em “humilhar melhor”, ou ainda, em contabilizar que o candidato adversário tem mais podres que o meu. Acontece, que nós apenas reproduzimos o que assistimos lá sem raciocinar o mínimo possível.

Pense um pouco, reflita: por acaso você muda de ideia quanto ao candidato escolhido? se muda, sabe porque faz a troca? Pense se você chega a escutar os argumentos do outro ou, se quando o outro se defende você já está pensando na tréplica, nunca admitindo que ele tem razão… afinal, nem refletimos o que ele fala.

A TV nos treina essas habilidades descritas acima, e nós, contaminados por musiquetas e por bordões, repetimos, papagaiando para todos os lados, sem pensar que o que está sendo discutido pelos candidatos são apenas números, números e mais números. Tantos milhões gastos com isso, tantos bilhões investidos naquilo. Nossa vida se resume a números?

Nós pouco paramos para pensar se cada revista, canal de TV, rádio, jornal, tem algum interesse maior do que transmitir uma notícia. Até sabemos que existe sempre um motivo oculto, mas continuamos gozando com as informações empilhadas uma em cima da outra, empurradas uma atrás da outra.

O problema não é se a Veja apoia o Alkmin ou se a Carta Capital apoia o Lula. O problema é que nós não sabemos por que elas apoiam… Será que elas apoiam porque estão interessadas nos eleitores? Será que as revistas fazem isso porque se preocupam com os pobres, com a distribuição de renda, com a sujeira da política? Será?

Recebemos e-mails argumentando coisas sem sentido: “cortou o dedo para ganhar seguro”, “torneiro mecânico não sabe administrar”,… e ninguém lembra que desde que o Brasil é Brasil, o governo sempre foi de direita e, se não foi, virou. Parece que seguimos um mesmo curso, com uma herança histórica que sedimenta o futuro da nossa própria história.

Usamos argumentos simples demais, em vista de toda a história da conjuntura político-social brasileira. Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, livros didáticos de história do Brasil facilmente nos levam a concluir que as supostas preocupações sociais que os presidentes (políticos) declararam ser em nome do povo eram (são) falsas. Pergunte a qualquer professor de história ele dirá: “Não. Presidente tal fez isso porque ele queria que o partido dele chegasse ao poder” ou; “Ele receberia tanto se deixasse que tal empresa entrasse no Brasil, por isso apoiou tal projeto”. Parece que ninguém se preocupou com algo mais simples, como as pessoas comuns, que andam nas ruas, pegam ônibus, etc. Os próprios teóricos da política não nos deixam esquecer que, para fazer um bom trabalho no governo, sem muitas preocupações e empecilhos, é preciso seguir as “dicas” do Príncipe, do Maquiavel. Políticos: a única coisa que querem é poder ($), poder ($), poder ($), poder ($)…

Nós não temos que repetir os argumentos deles quando discutimos política, pois desse jeito fazemos uma releitura da ideia de marionete, que preenche a vida do titereiro com o prazer que lhe proporciona ao deixar-se manipular.

Quem faz mais festa, mais musiquinha engraçada, mais plaquinhas espalhadas, mais kombis com luzinhas e caixas de som, mais caravanas, carretas e buzinassos, ganha a eleição. Quase metade do nosso país (país que é um dos últimos no mundo no quesito de distribuição de renda) vota em alguém que tem uma tradição política de séculos (qual é a proporção de políticos parentes)… e a outra metade vota em alguém que deu um passinho pra direita.

É engraçado como depois de séculos veem à tona tantos escândalos políticos, como esse que todo mundo fala nos últimos meses… Engraçado também que, paralelamente a isso, depois de séculos, um presidente das camadas mais pobres foi ao poder.

Mas, será que é possível perceber quem é quem em um debate? Todos fazem aulinha de preparação vocal e corporal, com bons publicitários. Todos fazem consultoria com especialistas, mestres e doutores sobre palavras que mais tocam o coração do eleitor. É um jogo de falácias: quem usa melhor a falácia da preocupação social, ganha.

Pensei que eu não podia deixar passar essa eleição sem mandar um e-mail colocando a minha posição frente à política de forma clara, pois é triste ver colegas, amigos, conhecidos, dando tiros no escuro quando falam de política, sem perceber o grau de implicação necessária que devemos ter com perguntas muito simples: porque estou votando? O que é política? O que é poder? O que é marketing? Para que serve um sistema representativo? Porque eu voto neste e não no outro? Porque eu discuto política tão entusiasmado a favor do meu candidato?

Não é assim que se faz política… Mas então, como se faz? Não fazendo política! Não criando músicas, não gravando o horário político na frente de um cenário, não passando maquiagem para falar com o eleitor, não andando pelas ruas abraçando o povo a cada quatro anos, não usando algum pop-star para a propaganda política, não fazendo adesivos para mostrar quem é a maioria…

O que devemos discutir, quando discutimos política?

A proposta de nossos candidatos?

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

Anúncios

Discussão

4 comentários sobre “Porque não devemos discutir as propostas de nossos candidatos.

  1. Bem, para evitar expor demais minha opinião de um ateu na política atual, vou me limitar em dizer que gostei muito da sua publicação. Fantastic!!!

    Publicado por fabiosandi | 1 de outubro de 2012, 10:04 pm
  2. Muito Rica Valio$a Valoro$a e Podero$a a sua abordagem… nem tão $imple$, totalmente Direta!

    Publicado por anovamente | 2 de outubro de 2012, 4:00 pm
  3. Crua, como o vento que sopra aonde quer, sem ninguém conseguir obstruí-lo, mas sim, senti-lo. Aprendamos então, com essas tuas palavras, sentir o espírito do vento e então evitarmos de ser, mais uma vez, marionetes nas mãos de um sistema tradicionalmente demagogo! Abraços, amigo. Parabéns, mais uma vez!

    Publicado por edervedder | 3 de outubro de 2012, 9:34 am

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: