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Educação, José Augusto Hartmann

O Ensino Básico e a escola pública no Brasil

Uma das instituições sociais mais importantes, acredito mesmo a mais importante, é a escola de Ensino Básico. Passa por ela a formação de uma sociedade. Desvalorizada contribui para uma sociedade pobre e ignorante, valorizada pode contribuir para o crescimento econômico, científico, artístico, filosófico, enfim, para uma relação menos parasitária e mais civilizada. No Brasil o ensino básico sofre a muitos anos (se é que já não sofreu alguma vez). As escolas são abandonadas pelo poder público, os professores são profissionais sem muita valorização (moral e econômica) e as famílias a enxergam como depósito dos filhos para poderem trabalhar (e precisam trabalhar).

Uma das principais barreiras para a valorização da escola pública e do ensino básico no Brasil é a existência das escolas privadas. Essas instituições contribuem para a desvalorização da escola pública, uma vez que são promotoras de um forte lobby, transformando a educação em negócio. Acabam por gerar um Apartheid intelectual, excluindo grande parte da população de bens culturais produzidos historicamente pela sociedade. A essência da educação é abandonada com a existência dessas instituições. Sua natureza deveria visar o conhecimento, esse deveria ser seu fim. Entretanto, o conhecimento passou a ser meio para o lucro. Desse modo, passa a ser limitado unicamente como meio à riqueza (capital). Aquilo que não gere capital é abandonado. A escola se torna formadora de mão-de-obra (barata ou não) e só. Quanto mais cara a mão-de-obra formada “melhor” é a escola – mas é fundamental que exista formação de mão-de-obra barata. Os mais ricos preferem destinar seus filhos a uma remuneração mais alta. Os políticos fazem parte dos mais ricos. Assim, a escola não-paga não pode formar mão-de-obra cara (salvo alguns casos). O critério é econômico e, nos dois casos, o conhecimento é mecânico, repetitivo.

Os índices que medem o conhecimento acabam por tentar verificar quais escolas são mais capazes de formar melhor mão-de-obra (maie especializada). Destacam-se, então, algumas escolas particulares, formadoras de excelente plantel. Mas por que isso ocorre? A escola pública não é capaz de proporcionar essas elementos aos alunos. A resposta não é essa, ou a pergunta não é bem formulada. Sabemos que a escola pública, quando seleciona seus alunos por faixa econômica e tem autonomia (mesmo que velada) de expulsar os seus “piores”, tem qualidade superior às escolas particulares. Veja as escolas federais e algumas estaduais/municipais que fazem o mesmo. Enquanto as escolas privadas escolhem seus alunos e excluem os problemas sociais, nas escolas públicas, geralmente de periferia e sem seleção, todos os problemas sociais se encontram.

Fácil afirmar que a solução seria somente investir mais na educação pública. Entretanto, esquece-se que dever-se-ia fortalecer a assistência social, distribuir renda, melhorar a moradia, o transporte, a segurança de todos, e não somente dos mais ricos. Por outro lado, dificilmente a escola pública (todas elas) conseguirá formar melhor mão-de-obra que escolas mais ricas em que se afasta problemas econômico-sociais. Por isso, uma das primeiras medidas para a melhoria do ensino público é o fim das escolas privadas. Depois disso podemos pensar em conhecimento livre, especulativo, comunicativo.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

3 comentários sobre “O Ensino Básico e a escola pública no Brasil

  1. Esta aí um grande desafio para as políticas sociais, públicas e política “pura”. Creio que estamos passando por uma fase de alto grau de irresponsabilidade com o trato “Estatal, principalmente quando vamos a analisar a precariedade do ensino fundamental e médio dentro da garantia universal ao ensino brasileiro. Chega a ser uma charada pensar no descaso quanto a formação do individuo na escola, ainda, mais quando pensamos em oportunidades para uma vaga em uma universidade por exemplo. “Brasil, ordem e progresso, sua bunda é um sucesso. Gabriel o pensador”

    Publicado por elicordeirojr | 27 de setembro de 2012, 11:38 am
  2. muito interessante sua colocação… ousada e sincera… trouxe um aspecto perverso e velado desse Sistema de Poder…

    Publicado por anovamente | 27 de setembro de 2012, 11:52 am
  3. A discussão, infelizmente, não chega nem a ser sobre educação ou conhecimento. Ainda devemos nos atentar para a miséria… é trágico. abraços à vocês.

    Publicado por joseaugustohartmann | 27 de setembro de 2012, 12:38 pm

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