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Convidados, Cotidiano

Cuba, vivendo o socialismo – parte 4

A CONTINUAÇÃO EM HAVANA

Havia mais duas semanas quando voltamos de Varadero e uma semana para acabar o curso, então planejamos ficar o próximo fim de semana em Havana para conhecer melhor a região.

Che Guevara e Camilo Cienfuegos en cera nel Museo Nacional

A semana correu bem, com apenas mais uma novidade notável que foi um dos dias em que eu estava voltando da Universidade e estava muito calor, então como eu estava na beira mar, resolvi tirar a camiseta mas observei que muitas pessoas ficavam me olhando e imaginei que não era porque eu era bonito então quando cheguei em casa comentei o ocorrido e só então me explicaram que era proibido andar sem camisa na rua e principalmente por onde o Chefe Fidel geralmente passava que por acaso era pertinho da casa da Mirabel, e se um guarda me visse sem camisa poderia me dar uma multa.

No fim da semana fomos convidados pela vizinha da Mirabel para ir ao Havana Club do Hotel Comodoro perto da casa no sábado à noite. Foi planejado para que a vizinha comprasse os ingressos para min e a Juliana por preços para cubanos e a filha da mãe comprou o ingresso dela e entrou não nos esperou, nem nos falou nada, e acabamos ficando para o lado de fora. Eu e a Juliana ficamos inconformados pois para estrangeiro entrar era U$20 morto sem consumação o que nós achamos absurdo, então ficamos no estacionamento sentados em um muro de costas para o mar e tomamos praticamente uma garrafa de rum sozinhos. Neste dia a Juliana ficou muito bêbada, sem contar que ela vomitou na bota da vizinha que estava com a gente.

Depois de afogarmos nossas magoas fomos caminhando para casa e entramos em um hotel para comer algo, porém neste nós pagamos, e fomos conhecer o hotel que por sinal era um espetáculo, saindo deste hotel no qual eu já tinha ido defecar no banheiro tivemos que fazer mais um parada técnica em outro hotel que também era muito elegante, tinha até musica ambiente no banheiro, demos mais uma volta pelo hotel e fomos embora. Quando eu cheguei acho que foi um dos dias mais embaraçosos da minha vida pois me deu outra dor de barriga e tive que ir ao banheiro, porém aquele banheiro não ajudou muito. Eu ficava quase cara a cara com o Maribel e seu filho dormindo na cama, porque a patente ficava bem de frete para a cama dela e com apenas uma cortina de plástico, foi praticamente uma hora me retorcendo sem contar que depois tinha que buscar água fora de casa com o balde para jogar no vaso.

No dia seguinte a Maria Cristina, uma amiga de trabalho do Reynaldo no Brasil, chegou e ficamos conversando e então combinamos de ir para uma praia muito famosa perto de Havana chamada Santa Maria. Então como o Manolito podia ele nos levou de manhã e ficamos o dia todo, e à tarde ele foi nos buscar, isso era segunda feira. Não achei a praia nada de tão fenomenal, mas sem dúvida era muito bonita.

Porém foi durante a volta que aconteceu um dos episódios mais revoltantes que vivenciamos. Um policial

Eu, Juliana, mãe e avó do Reynaldo, nosso anfitrião cubano

nos barrou quando estávamos saindo de Santa Maria, porque um Cubano não pode levar estrangeiro em carro particular sem licença, ou seja, pagar uma grande quantia do que ganha para o governo. O Manolito teve que ficar com o policial que por sinal nos tratou como cachorro e nos fez ter que pagar um táxi do governo para voltar até Havana. Por sorte o pai do Manolito era conhecido da policia e felizmente ele conseguiu sair com o carro sem pagar nenhuma multa que dizem que podia ser altíssima e nós que teríamos que pagar pois o Manolito nunca poderia ter condições de pagar.

Já na terça eu e a Juliana fomos caminhar para conhecer a parte oeste de Havana que nenhum de nós dois tinha ido e ainda tínhamos a esperança de encontrar uma praia que não precisasse pagar para entrar, porém ficamos apenas na vontade pois as pouca praias de areia que existiam eram pagas e nós nos recusamos à este desaforo, mesmo pensando na “Vergonha” que seria nós estarmos chegando da maior ilha do Caribe mais Branquelo que quem foi para Matinhos, claro sem desmerecer a magnífica praia de Matinhos.

Passamos quase o dia inteiro andando parando em alguns hotéis como de costume, este foi um dos dias que refletimos muito sobre o tal do socialismo, já estávamos vivenciando o sistema mais de 20 dias e constantemente concluindo que a teoria é muito bonita, mas a prática, bem na prática ficamos decepcionados e até um pouco revoltados. Ter uma TV em casa, mas ter apenas dois canais para assistir, sendo que a diferença entre eles é apenas os horários diferentes dos mesmos programa, estes que em 85% do tempo fala do governo ou está apresentando os discursos diários do Fidel.

No mesmo dia tivemos mais um exemplo de falsa escolha e exclusão do povo quando fomos a uma praça na região central de Havana tomar sorvete. Havia barraquinhas pequenas com sorvetes de vários sabores e que eram vendidos apenas para estrangeiros em U$ e a sorveteria central que era para cubanos, conseguimos ir nesta e constatamos que havia apenas 2 sabores disponíveis para a população, morango ou chocolate, e o mais cômico ambos com o mesmo gosto de uma massa gelada, pelo menos era bem mais barato. Claro que provamos o sorvete para turista para poder comparar, não era o melhor de todos mas… No fim da tarde fomos embora. Porém ainda não sabia o que me aguardava de surpresa esta viagem.

 PROCURA-SE UM PASSAPORTE

Na quarta de manhã quando eu comecei a arrumar minhas coisas como de costume, e também porque na sexta feira a tarde nós estávamos indo embora, eu me dei conta da falta do meu passaporte. Foi uma sensação que eu nunca tinha tido em minha vida pois minhas pernas, ou melhor, meu corpo inteiro começou a tremer. E além disto tinha junto UU$220 e R$50 junto que era das minhas economias de toda a viagem fiquei desesperado, procurei por todos os cantos na casa de Maribel e da Izelda mas nem sombra do passaporte ou do dinheiro. Então liguei para o consulado do Brasil e me informei de tudo o que eu deveria fazer. Fiz a queixa em uma delegacia lá perto e que foi de passar uma raiva com aqueles cubanos lerdos que não estão nem ai para você e apenas para seu dinheiro (apesar que no Brasil não é muito diferente) tirei as fotos necessárias, e vale a pena dizer que o equipamento para tirar foto deles era muito melhor todos que eu já havia visto no Brasil. Felizmente conseguimos fazer esta parte mais demorada a tempo de ir ao consulado e fazer todo o necessário para me regularizar, pois em menos de dois dias eu estaria embarcando de volta. Este foi o dia mais nervoso que passei em Cuba, entretanto graças a Deus dos males foi o menor, pois poderia ter sumido o meu bilhete aéreo e ai sim seria complicado. Tenho várias suposições do que tenha acontecido com o passaporte mas até hoje não posso afirmar nenhuma delas.

 AS ÚLTIMAS 24 HORAS

Protesto contra os USA no Malecón (avenida beira mar) em Havana

Superando mais uma situação difícil desta viagem na quinta feira à noite fomos para o centro na Havana Vieja com dois amigos que a Juliana conheceu, um deles era pintor e muito bom por sinal. Foi a primeira vez que andamos de Camello, que consiste em uma carreta de caminhão no formato de um camelo puxado pelo cavalinho do caminhão, este é um dos meios de transporte mais típicos de Cuba e principalmente de Havana. Também fomos ao show que todos tanto falavam que era o tal do Cañonazo. Eu e a Juliana achamos uma porcaria o show porém o lugar no forte onde se passava o show era muito bonito.

Depois disso fomos para a Havana Vieja e ficamos em alguns barzinhos, porém antes de ir para os barzinhos compramos uma garrafa de rum añejo 7 anos, que parecia uísque de tão forte, em um mercadinho porque os bares são muito caros, fomos primeiro em um bar na frente da catedral de São Cristóban, depois fomos à um outro bar que já quase quando não tinha mais ninguém e eu e a Juliana começamos a cantar o Hino Nacional em voz alta descobrimos um grupo de brasileiros lá dentro daí foi só festa. Nestas alturas do campeonato eu já estava vendo Guinomos tomando aquele rum que parecia metanol junto com um charuto Cohiba Explêndido, foi uma mistura explosiva. Depois que todos já haviam ido embora fomos caminhar pelo centro para matar tempo e depois fomos caminhando até La Rampa, enquanto víamos o dia amanhecer. Pegamos um carro e fomos para casa e dormimos um pouco arrumamos nossas coisas, almoçamos, nos despedimos de todos e fomos para o aeroporto de taxi com os dois amigos da Juliana. Que ficaram com nós por um tempo e quando nós entramos para o salão de embarque eles foram embora.

Para acabar com mais um acontecimento interessante quando chegamos no Brasil eu tinha que deixar o papel que recebi na embaixada do Brasil em Cuba no aeroporto porém ninguém me pediu nada e passei direto também sem nenhuma fiscalização sobre o que eu estava trazendo, tendo apenas que preencher um formulário.

Esta foi uma breve história da minha viajem à Cubaque estou relatando, para que futuramente eu possa me recordar com um pouco mais de detalhes e possa mostrar à outras pessoas. Este mês de Janeiro de 2001 foi um mês diferente em que eu saí um pouco do cotidiano capitalista explícito.

Agradeço muito à todos os Cubanos, especialmente à Teresita, Reynaldo, Izelda, e Maria. Também sem a companhia de Juliana talvez não teria acontecido muitas aventuras nesta viajem pois ela é uma garota que topa todas e não tem medo de passar por situações difíceis, e que também me ensinou muitas coisas tornando esta viajem mais produtiva do que o esperado. Maria Cristina também participou e ajudou nesta viajem mesmo passando apenas a última semana conosco em Cuba que também foi cheio de emoções e que por acaso do destino foi a semana com o melhor clima, com sol brilhando e quente.

Hotel Nacional, como todo investimento estrangeiro no país é permitido por concessão de no máximo 20 anos sem renovação. Atualmente este hotel é administrado pelo governo após vencer o prazo de concessão à empresa estrangeira

Esta viagem aconteceu em uma boa hora para me ajudar na vida, porque eu precisei ir tão longe para ver e viver algo com que nós vivemos lado a lado em nosso próprio país, com apenas uma diferença, nós estamos em um lugar que por mais que não seja o melhor nós temos uma chance de obter uma “recompensa” sobre o nosso trabalho. Isto me deu mais força para lutar pelos meus objetivos, pois depois de viver o dia a dia cubano, é fácil concluir que vivendo neste sistema qualquer tipo de vontade de melhorar, crescer, almejar por uma futuro melhor evaporaria facilmente neste ambiente totalmente controlado pelo Estado e para o Estado.

FIN.

Fabio Sandi é bacharel em turismo (Universidade Positivo) e especialista em negócios internacionais (FAE Business School). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

4 comentários sobre “Cuba, vivendo o socialismo – parte 4

  1. Olha amigo Fábio, nestas tuas linhas pude muito bem associar o que você viveu lá com o livro do George Orwell, 1984. Todo o controle estatal, exageradamente ensimesmado, oblíquo e discimulado!!! Difícil acreditar em ideologias, quando concretizadas, nos trazem outro tipo da mesma opressão à qual antes rejeitamos… Acredito que as instituições ou ideologias devem ser criadas ou pensadas, voltando-se para o indivíduo, e não o contrário, ou seja, os indivíduos sendo criados, conduzidos, projetados em prol das instituições…
    Acredito que hoje posso falar isso pra você, pois, na época, tentei falar, mas você tinha mesmo que experimentá-lo.
    Contra o próprio sistema projetado pelo comunismo cego e surdo, deixo uma frase (uma dose do próprio veneno): “A juventude que não cria é uma anomalia”. (Che Guevara, 1928-1967).

    Publicado por edervedder | 27 de setembro de 2012, 7:25 pm
  2. Grande Fábio, Saudações socialistas eheheh…
    Grande experiência e vivência “só podemos dizer de algo se a experimentamos”. Gostei muito da séria “Cuba, vivendo o socialismo”, uma vez que eu só sondava o que acontecia por lá por um informativo político que recebo por e-mail de Cuba e a leitura de alguns livros do comandante “Che”. Ver os relatos de cuba hoje, parece mais como uma ditadura pesada, longe dos ideais socialistas ou comunistas. Ao meu ver lá o Socialismo apenas existiu durante a permanência de Che, antes dele abraçar a causa tri-continental. Veja este vídeo http://www.youtube.com/watch?v=zTOn6Lb4qD4

    Publicado por Eli | 8 de outubro de 2012, 4:45 pm
    • Realmente meu amigo, na verdade não acredito que a teoria do socialismo tenha sobrevivido a prática. Na teoria pode convencer muitos, mas na prática só é viavel aos que estão no poder. Assim funcionou com o capitalismo que até funcionou por algum tempo, mas apenas enquanto existia dinheito honesto, e tambem não resistiu as influências de pessoas mal intencionadas. No meu entendimento, o capitalismo eixou de existir no mundo em 1914, quando o Federal Reserve foi criado e inumeros tumores no sistema começaram a aparecer, outros dizem que o capitalismo entrou em extinção em 1971 quando os USA abandonaram o lastro do ouro em sua moeda quebrando as regras de Brenton Woods unilateralmente e deixando de vez o capitalismo para trás e abraçando uma espécie de credetismo, baseando a sustentação e crescimento do sistema em crédito e não em capital, foi o que injetou esteróides nas diferenças entre classes sociais, dificultanto cada vez mais ao pobre se livrar do círculo vicioso da pobreza.
      Na verdade acho que nossa missão é encontrar um outro sistema, mas antes de tudo precisamos de um salto na evolução da nossa espécie na direção das características básicas; honestidade, caráter, compaixão, companheirismo…. pois com isto qualquer sistema tem a chance de funcionar.
      Quando voce tiver algum tempo dê uma olhada neste documentário, achei bastante interessante. Muitos das pessoas que falam nele tenho seguido a mais de um ano e tenho aprendido muito sobre este sistema bizarro que está implantado globalmente nas sociedades
      http://fabiosandi.wordpress.com/2012/10/06/a-queda-da-republica-documentario/

      Abraço,

      Publicado por fabiosandi | 8 de outubro de 2012, 6:56 pm
      • Uma visão econômica do capitalismo “abraçando uma espécie de credetismo, baseando a sustentação e crescimento do sistema em crédito e não em capital” preciso ler mais sobre isso, pois me fez refletir no grande problema que isto gera, como você disse criou-se tumores. Realmente o exercício das virtudes básicas de honestidade, caráter, compaixão… em qualquer sistema funcionaria bem, é um exercício para nós e para a humanidade. Vou assistir com mais calma o documentário. Você poderia colaborar mais com sua bagem fora do Brasil (e dentro dele), escrevendo posts semanalmente também, se quiser podemos revesar os posts de terça-feira, então eu escreveria em uma semana e você na outra, o que acha? abs

        Publicado por Eli | 17 de outubro de 2012, 2:01 pm

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