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Cotidiano, Vinícius Armiliato

O que a psicanálise pode nos ensinar sobre o desejo do publicitário?

O prego foi no pulso ou na palma da mão? Asfixia ou hemorragia? Teve filhos ou era virgem?

Por que discutimos o que discutimos?

Quando a TV é desligada por alguns meses, não se discute mais o que está na pauta. E por que cientistas gastam seu tempo procurando o que aconteceu com Jesus, “na realidade”, procurando trabalhar em cima de uma discussão concreta?

O foco da discussão está dado: pulso ou palma da mão? Discutam.

Parece um ringue: colocam na TV um tema, fazem um filme polêmico, descobrem como é o aramaico, a Discovery apresenta o lugar mais provável da arca de Noé, se dedicam a explicar a travessia do Mar vermelho, milhões gastos e um ser hipotético fala:

– Discutam.

Discussões iguais àquelas de boxe. Quem golpeia melhor. A pauta da discussão está dada. Compremos. Compremos mesmo, compremos um livro polêmico, bestseller, para nos embasarmos teoricamente.

A imagem é a seguinte: um grupo de batutas rabiscam algumas ideias no papel. Essas ideias, quando em atrito causam faíscas, e se colocadas sobre a palha, já viu. Aí eles traçam um círculo e jogam essas ideias para serem discutidas por nós. E assim nós temos uma fogueira. “Polêmica no ar”, “Discussão feia”, “Briga acirrada”, gemem expressões nos noticiários.

Parece que disso vai surgir algo novo. Mas a discussão está sempre dentro daquele círculo traçado e delimitado pelos batutas anteriormente. E eles, que atearam fogo, quem deram os instrumentos, as armas, os argumentos, as explicações teórico-científicas para a briga, estão do lado de fora, fazendo outras coisas quem sabe, que não estão em questão.

Uma semana é a vida de Jesus, na outra é o Mensalão, na outra é a Joven Eloá, na outra é o goleiro do Flamengo, na outra é a Copa do Mundo, na outra são as eleições, na outra são as fotos da Carolina Dieckman, na outra é o Cachoeira, na outra são as revelações polêmicas de algum artista sobre a sua vida sexual, na outra é um padre pedófilo…

E assim nos é dado o foco, o direcionamento do olhar. Como faz a mãe com o bebê, publicitários nos apontam para onde devemos olhar, que comida devemos comer, onde é mais interessante ficar… Como uma função materna, nos constituem enquanto sujeitos. Mas como eles não se mostram falhos, como eles sempre tem uma verdade para veicular, nos deixam alienados a eles, simbióticos com suas opiniões. Não vemos nossos publicitários falhos, castrados. Vemos nossos publicitários nos entupindo de comida, não nos deixando pensar, e não deixando que nada falte ao nosso princípio de prazer. Comamos o que mamãe nos oferece no jantar: uma noite macarrão, na outra sopa, na outra arroz integral, na outra polenta. Nunca um vinho, nunca um porre porque é um desagrado ver um filho embriagado falando coisas que mamãe não ensinou. Só o que está no rol de desejos da mamãe. Um publicitário nunca vai deixar um pai entrar em cena. Nunca Artaud, Genet e Tom Zé poderão entrar riscando, amassando, torcendo o papel no qual está escrita a pauta do dia.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

5 comentários sobre “O que a psicanálise pode nos ensinar sobre o desejo do publicitário?

  1. parece que é o Papai Ditador travestido de Mamãe Carinhosa… nos dá de tudo, menos a livre escolha… e olha que os soldados até conhecem as “regras”, mas pensam que não sobrevivem sem elas… Antes gozar dum “conhecido” prazer, do que um arriscar-se num possível desprazer… aí, logo vem aquela frase: ” Só a educação liberta. ” (epicteto)

    Publicado por anovamente | 24 de setembro de 2012, 4:24 pm
  2. Contraceno contigo, amigo Adriano, citando a frase: “… eu prefiro um galope soberano à loucura do mundo me entregar…”. É arriscando-se que conhecemos novos horizontes. É no galope soberano que rumamos ao paraíso reconquistado. Mais uma vez, belo post Vinicius!

    Publicado por Eder Silva | 26 de setembro de 2012, 6:53 pm

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