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José Augusto Hartmann, Resenhas

Cuidado com os seus presentes, troianos.

http://cinema.terra.com.br/noticias/0,,OI5561503-EI1176,00-Poster+de+Abraham+Lincoln+Cacador+de+Vampiros+e+divulgado.html

Quando vi não acreditei. No início do ano (ou final do ano passado) fui assistir a um filme no cinema. Uma porcaria épica, daquelas que passam longe de se poder saber se os mitos gregos falavam de tragédia ou comédia. Daquelas que transformam Teseu em He-Man. Mas não é essa a questão. Antes do filme, se não me engano foi esse, deu tempo de passar um trailer que deixaria qualquer um abismado.

Sabe-se da forjada heroicização dos presidentes estadunidenses – muito maior que qualquer Bolívar ou Tiradentes (que não foi presidente). O culto ao líder, presente na nação imperialista chegou, entretanto, a níveis alucinógenos. Lincoln, um dos heróis do panteão de origem americano, aparecia com superpoderes (ao menos me pareceu assim, pois não seria capaz de tirar a dúvida assistindo aquilo). Assim como uma divindade, expurgava a humanidade de seus monstros. Desse jeito mesmo, Abraham Lincoln era uma caçador de vampiros!

A misticização dos líderes está presente em projetos imperialistas. Hitler ficou conhecido por usar a propaganda de massa, e a massificadora Indústria Cultural, para fazer associar sua imagem a uma figura superior, mítica. Os nazistas buscaram na mitologia nórdica um passado heroico e glorioso, o que justificaria sua dominação sobre as demais populações, naturalmente inferiores. Quando vemos os estadunidenses se utilizarem da mesma prática, utilizando para isso de seus próprios mitos (os heróis que criaram) justifica termos um enorme pavor.

Alguns preferem ver isso com inocência. Afinal, todos têm o direito de ficar calados. Entretanto a Indústria Cultural jamais foi usada desse modo. Sempre formatou, estereotipou, pregou e massificou. Sempre teve um objetivo, um fim. Consumamos seus deuses e aprendamos a respeitar o Capitão América ou cuidado com os estadunidenses e seus presentes.

Fragmento de “No caminho, com Maiakóvski” de Bertold Brecht

(…)

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

(…)

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

10 comentários sobre “Cuidado com os seus presentes, troianos.

  1. muito boa a tua abordagem… e a poesia fechou com chave micha… hehe

    Publicado por anovamente | 20 de setembro de 2012, 11:49 am
  2. Esse poema era famoso nos anos 70, qdo fazia C. Sociais, e diz bem o quanto o medo paralisa e assim deixamos as coisas acontecerem e viramos reféns.

    Publicado por Sérgio Guida | 20 de setembro de 2012, 12:52 pm
  3. Algo parecido parece estar acontecendo e me assustando quando vejo “grandes templos” sendo construídos. “Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.” William Blake/Próverbios do Inferno.

    Publicado por Eli | 20 de setembro de 2012, 5:01 pm
    • “grandes templos” assustam quando representam uma intenção totalitária. Desde a imposição da fé, como qualidade necessária à ética, até os templos do consumo, que também representam uma imposição totalitária.

      Publicado por joseaugustohartmann | 21 de setembro de 2012, 11:36 pm
  4. É, Hartmann, acredito que, depois do sucesso da saga “Crepúsculo”, estourando os estoques de livros e dvds, eles apelaram para o extremo da politicagem surreal! Está mais para o caçador de “chupa-cabras” do que para caçador de vampiros. Mas, se a moda pegou com o Crepúsculo, então, é só um discreto pulinho para adaptar mais um super-herói às estórias extraordinárias à la “Poe”. Que assim seja…

    Publicado por edervedder | 20 de setembro de 2012, 6:57 pm
  5. eles sugam o sangue dos olhos vidrados nas ficções realísticas desse mundo cinemAUTOgráfico…

    Publicado por anovamente | 21 de setembro de 2012, 2:39 pm

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