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Cotidiano, Lucas Coelho Baccin

Facebook e a cultura do ódio

Vivemos no século da comunicação, da informação, o que acontece do outro lado do mundo chega até nós numa fração de segundos. As redes sociais nos permitem ter contatos com pessoas de todos os lugares do planeta. Através da internet podemos ter acesso aos mais diversos conteúdos. Mas o que estamos fazendo com isso tudo? Estamos prontos pra lidar com tanta informação?

Quem tem acesso frequente à internet e às redes sociais (facebook, twitter, orkut, etc.) deve estar mais do que acostumado a ver postagens e comentários com uma dose extra de ódio, pessoas se xingando de todos os lados. Basta alguém escrever algo, mesmo que curto, sobre um assunto “polêmico” (religião, política, futebol, parecem ser os preferidos), e farpas começam a ser trocadas, mas, ao contrário do que possa parecer estas pessoas não estão suscitando uma discussão ou tentado compreender as diferentes maneiras de pensar, mas sim, na maioria dos casos, estão apenas fomentando uma cultura de ódio virtual. Se alguém pensa diferente é motivo para ser alvo de comentários revoltos, às vezes até de xingamentos pessoais. Mas o que faz com que isto ocorra? O que legitima esta cultura do ódio?

Algumas respostas parecem caber, uma delas é a “proteção” oferecida pelo computador, afinal, digitar um texto para numa tela, sem estar no olho-a-olho não é uma tarefa das mais difíceis, a perda das relações pessoais reais (não virtuais) fez com que esquecêssemos dos aspectos humanos… Quantxs conseguiriam falar pessoalmente, no cara-a-cara, o que publicam na internet? Quantos tem coragem de assumir suas posturas virtuais no dia a dia?

Outra resposta que aparece é a de que justamente a diminuição das relações pessoais diárias é o que gera uma certa ânsia de expor as opiniões. Ou seja, como o espaço público é cada vez mais escasso, como os contatos pessoais são cada vez mais burocráticos, e a privação é cada vez maior, isto faz com que as relações de sociabilidade diminuam e a internet tome este espaço. Mas, com a já dita “proteção” da tela da máquina, sem o contato físico, sem os sentidos dos corpos em cena, fica cada vez mais difícil diferenciar máquina e pensamento. O pensamento sai das teclas em forma de ataque pessoal, não se pensa antes de falar (ou digitar), é apenas teclar rapidamente, dar enter e pronto, ali está o que você acredita.

Em nome da modernização, do avanço tecnológico, os valores modernos passam a se inverter, o humano não é mais prioridade (se é que já o foi), a tão aclamada liberdade é apenas liberdade de consumo… A tão famosa razão, da qual orgulha-se tanto por nos diferenciar dos outros animais, pertence a quem tem mais ‘likes’, ‘shares’, ‘retweets’…

Na luz das redes sociais todos podem ser o que quiserem, cristãos, ateus, vegetarianos, onivoros, poetas, criticos, ativistas, conservadores, progressistas… “-Mas isto é bom, não? Afinal todos podem ter liberdade de expressão”… Quem dera fosse tão simples… Poder ser tudo, acabou por fazer com que as pessoas não sejam nada. Não é a questão de clamar por um essencialismo ou coisa que o valha, mas sim de questionar até que ponto realmente todos sabem do que estão falando, e até que ponto acreditam nisto, ou apenas reproduzem discursos que ouviram em casa, na escola, na faculdade, na televisão, e etc.

E onde todo este ódio vai dar? Quais suas consequências? Estas são perguntas mais difíceis de serem respondidas, afinal, prever o futuro ainda não é possível, mas no presente, esta cultura de ódio parece legitimar ações de violência no mundo real. As minorias são cada vez mais excluídas, cada vez há mais repressão, e os índices de violência pessoal só aumentam. Os discursos das redes sociais, blogs, sites de informação, por vezes, buscam justificar tais fatos, e estes não são raros, é só abrir uma noticia de crime sexual, por exemplo, e verificar nos comentários pessoas justificando tal crime, “ela bem que queria, esta da saia curta, provocou”, “viado merece apanhar mesmo, isso não é natural”, e por ai vai…

O retrato da internet ainda parece ser um retrato de homens brancos, heterossexuais, de classe média e cristãos, e quem está fora disso (a grande maioria dos seres humanos) está fadado a ter que lutar diariamente para conquistar seu espaço na sociedade. A internet aparece, no mundo das ideias, como uma ferramenta de integração, de acesso livre aos conteúdos para todos, mas na prática continua sendo mais um meio de permanências de discursos dxs detentorxs do poder, da manutenção do status quo.

O que fazer então? Deixar de acessar a internet? Buscar outras formas de vivência? Bom, isto é algo que deve ser pensado, mas no que cabe ao presente é necessário que se reaprenda a viver no mundo real, e a partir do real pensar o virtual, e não o contrário… A internet e as redes sociais já fazem parte da vida de boa parte da população, e este caminho parece levar cada vez mais para a diminuição das relações pessoais fora do virtual.

Olhando para as coisas que possui ele pode até sentir-se feliz.Algumas vezes uma coisa qualquer enche seu peito por um instante, como um sopro. E como um sopro elas vão embora, mas isto é algo com a qual ele se acostumou a viver. Pessoas mortas ficam agarradas as suas lembranças, as verdades que foram embora e as promessas que se quebraram. Ele dorme pensando em como tudo mudou. Desde a morte de seu Deus não há nada a esperar. Os sacrifícios são outros e não é preciso ajoelhar, nem viver esperando por tempos e coisas que nunca virão. Não há sentido além da morte e não há razão além do prazer. A vontade de viver por mais um instante. Como se fossem parasitas grudados na pele ele arranca as coisas tristes. E sente o alívio.” (A aplicação poética do materialismo- Colligere, 2001)

Lucas Coelho Baccin, é acadêmico de história da UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

3 comentários sobre “Facebook e a cultura do ódio

  1. Excelente proposição Lucas. Facebook ou “fakebook”, that’s the question! Mas, uma vez adquiridas as liberdades, virão também, no calar da noite, as raposas, com suas crias, para fustigar o rebanho! De um lado extremo, o controle e opressão acompanhado de um falso moralismo maniqueísta; de outro, toda libertinagem ocasionada por uma ansiedade degenerada e irresponsável por adquirir um espaço. Agora, cabe aí refletirmos e saber caminhar por esse solo já gasto… Abraços e parabéns!

    Publicado por Eder Silva | 17 de setembro de 2012, 10:43 am
    • compartilho (termo dos facer’s, hehe) do seu pensamento… sempre há os 2 lados… é muito pertinente pensar a “Cultura do Ódio”… mas essa cultura já existe desde os tempos remotos da humanidade, que agora tem mais um lugar para se manifestar… e temos que discutir e apontar os problemas mesmo… só que vejo um campo aberto para a “Cultura de Paz” tbm… já vemos isso… mas ainda é algo sem tanta visibilidade… entendo que as minorias estão na internet como um ” Vírus que se espalha por entre as entranhas, por baixo da superfície que encobre o conteúdo… ” os pensadores da contra-mão, ainda é underground, é o gueto, o lado B, os outsiders (ala Eder, hehe)… quem se Compromete pela boa causa, quem se Responsabiliza pelos seus atos, são as minorias ainda… como nós que estamos discutindo este assunto, num blog, com a nossa fanpage no Face, num ambiente virtual discutindo a Realidade em sua totalidade… enfim, ando mais positivista, talvez… mas penso que os seres humanos mais humanizados, comprometidos com o Bem Social, com o Bem Comum, sempre foram minorias… mas que fizeram os valores que praticaram toda a diferença… Sejamos da Paz e pratiquemos o Amor Verdadeiro…

      Publicado por anovamente | 19 de setembro de 2012, 9:55 pm
  2. Grande análise, gostei muito do que escreveu: “reaprenda a viver no mundo real, e a partir do real pensar o virtual, e não o contrário…” Na correria do dia-dia não paramos para ver o mundo real, e como (Algumas vezes uma coisa qualquer enche seu peito por um instante, como um sopro. E como um sopro elas vão embora) é uma boa definição a respeito de tanta futilidade que vejo dentro das redes de relacionamento, principalmente Facebook. Tenho uma conta no face e lendo seu texto fiz uma auto-analise de meu comportamento e do tempo que gasto com algumas coisas que “enchem meu peito por um instante e também se esvaziam derrepente”.

    Publicado por elicordeirojr | 3 de março de 2013, 10:50 am

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