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Cotidiano, Eder Silva

Poder, dinheiro e sexo: O Pôgréço nosso de cada dia

“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora, José?”

(E agora, José, Carlos Drummond de Andrade)

Tão divinamente inspirado, mas não menos diabroticamente falando, dirijo-me a você, cidadão dotado de um senso religioso tal que, me faz sentir tão profundamente condenável, ao passo que lhes digo: poderá, então, o Criador fazer-vos algum favor que lhes satisfaça vosso desejo de justiça?

Mas, deixando a justiça de lado, e partindo para a desconstrução de um otimismo àquem da realidade, vamos falar um pouco de progresso, já que, passados 11 anos do fatídico e lamentável atentado ao WTC, o que vemos hoje é uma progressiva decadência nas diversas esferas da natureza humana.

Já ouvi falar que o homem progrediu na sua curta (ou longa) história. Há uma outra interpretação de que a humanidade caminha com passos de formiga e sem vontade, que, ao meu ver, também tenta se amparar, mesmo que um tanto ceticamente, a tese de algum progresso do homem.

Mas, o que quero apresentar aqui é justamente o contrário desta teorização, ou seja, o argumento de que nunca houve, não há e não haverá progresso nenhum por parte do ser humano, que, de humano, só tem a terminologia, mas não a essência deste termo.

Ainda cometemos os mesmos delitos os quais são apontados pelos livros mais antigos, os oráculos da história. Ainda há sangue sendo derramado no arraial da odisseia terrestre. A terra ainda está coalhada, encoberta por esta crosta de sangue inocente (?) derramado, e não há quem possa removê-lo, nem um justo sequer. Todos nós enxergamos como que míopes, através de uma lente suja e sombria. Ainda falta discernimento em nosso espírito; pois, desprezamos o conselho da Sabedoria, nos apegando à nossa própria roupagem empoeirada de falsa e insuficiente justiça.

Comemoramos ainda uma independência. Mas, pergunto: independência de quê? Somos dependentes eternos, e, as muitas poucas vezes que nos é dado alguma liberdade, utilizamo-la para provar que somos melhor a algo ou alguém. Então, nesta necessidade de se provar algo a alguém, tornamo-nos novamente dependentes. Dependentes de um discurso, de um simulacro ou de uma simulação. A matrix sempre é a mesma, e a alienação torna-se o combustível de nossas trivialidades…desfocando, assim, o essencial, o substancial.

Ainda assistimos, maravilhados, a falsos discursos de moralidade mesquinha, e a desfiles fétidos de vaidade egocêntrica dos zumbis famosos!

Há um cheiro de enxofre pairando no ar, e não sabemos em quem será derramado. E sequer nos interessamos sobre o assunto. Ficamos mórbidos esperando nossa decomposição, arrastando-nos, contorcendo-nos como cobras pelo chão, procurando a quem morder o calcanhar; nossa alma, atônita se agita, como cães girando sem parar, tentando morder o próprio rabo em busca de um suposto parasita.

E, assim caminha a humanidade, em sua vaidade frenética, descompassada e em decomposição, e nós aqui, caminhando contra o vento, tentando cobrir nossos olhos da tempestade de areia que teima a nos afrontar, a nos fazer olhar em outra direção!

Peço desculpas aos esperançosos de plantão pelo meu ceticismo ácido e nítida irritação. Me desculpem não saber dançar a dança da chuva, a dança pélvica do rock’n roll convincente e fantástico. Meu ritmo é tosco e negro. Minha dança é um blues lamentoso e hostil, é um jazz vomitado e verborrágico; é um heavy love pesado, sangrento e irritante. Ainda falta a sincronia para dançar a vossa dança, para cantar o vosso rockbilly roll, para falar das suas fábulas. Ainda me falta o bom senso respeitador de todo discurso entorpecente e venerável, propício às conveniências adequadamente sugestionáveis. Me desculpem por não entrar no ritmo romântico, progressivamente educado, bondoso e elegante.

Ainda não compreendo o caminhar da carruagem, ainda tenho os pés descalços e o ceticismo me consome, em busca de um final apocalíptico messiânico. Que o final seja menos dolorido que o meu sonho trágico e angustiante!

(Eder, escrito em 7/09/2012)

 Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações

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Sobre Eder Silva

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Discussão

4 comentários sobre “Poder, dinheiro e sexo: O Pôgréço nosso de cada dia

  1. agora sim meu caro Eder… hehe… verbalizou sua consciência afinada e devidamente afiada… essa linguagem tão andrógena… transtornando as caveiras machistas desse globo terrorista-terrestre… e que alívio ler e adentrar a tua alma venenosa e transparente… consigo ver suas asas e o tridente… a pomba e o morcego… judas e cristo, anjo luz e anjo negro… o OUTsider e o INsider… Viva! Viva a Morte do Mal!!!

    Publicado por anovamente | 12 de setembro de 2012, 12:26 pm
  2. e relendo a tua Pedrada, a tua Apunhalada Poética… entendo que você sentiu, permeou o inconsciênte coletivo cara… vislumbrou a alma e o caminho desse Mundo Mórbido Atual… ele realmente está na Total Falta de Fé e Esperança… na Negação do Ser e na Adoração Ateísta Pasteurizada… num Ultra-Hiper-Mega-Excessivo-Egocentrisco-Coletivo…. esse é o rosto por trás da Sociedade Pornográfica Religiosamente Suicída… vemos adesivos de idolatria a imagens fictícias, estampada em carros luxuriosos… e lares empacotados para jogar no latão de lixo corrosivo… é só comer, assistir e gozar… Mas é uma face que está morrendo meu caro Eder… e está renascendo outra, é mais uma Ressurreição… é mais uma Era depois de tantas eras… e somos parte essencial dela… Todos Somos Um… incluindo os vendedores e os vendidos… temos de transformar o nosso mal em pedra bruta… para que as gerações seguintes lapidem novamente de uma forma mais honesta, sincera, verdadeiramente amorosa e pura…

    Publicado por anovamente | 13 de setembro de 2012, 1:00 pm
    • É, sincero e nobre amigo Adriano, parece-me isso mesmo, “…é só comer, assistir e gozar…”. Não há palavras, realmente justas, para uma situação dessas. Com relação à gerações futuras, não sei não, mas tenho por certo que talvez já não haja tempo para deixar as pedras rolarem… tudo já está se consumando, e, para mim, há um cheiro de enxofre pairando no ar, prestes a ser derramado como libação. Não sei se estou sendo muito apocalítico, ou cético ao extremo, mas, não há muito o que se acrescentar ao desenrolar da história, acredito, porém, que mais cedo ou mais tarde o lixo todo vai se revolver e estourar na cara da humanidade cega e surda…Não sei, apenas creio, meio que instintivamente, que há algo sobrenatural, algo que não tenhamos idéia do que seja, algo muito maior e majestoso prestes a derramar o cálice de absynto, e então, talvez assim, compreendamos face a face o que foi, é, e será! Acredito que não passará desta geração… Mas, ainda deve permanecer a fé, a esperança, e o amor. Destas coisas, não há inimigo algum que as possa sucumbir à derrota ou desviar o alvo! Abraços fraternos, e muito agradecido mesmos pelas palavras reanimadoras.

      Publicado por Eder Silva | 13 de setembro de 2012, 4:28 pm

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