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Educação, Vinícius Armiliato

Lei de Cotas, Revista Veja e bons argumentos para seu filho continuar estudando medicina na Federal

Que instrumentos podem ser usados para distribuir cada casta de jovens, para cada demanda do mercado? Sendo bem preciso: que instrumentos, práticas, discursos, eu preciso inventar para condicionar ao longo da história escolar de cada jovem, a escolha da profissão a ser seguida, por exemplo, quem deve ser médico e quem deve trabalhar em uma linha de produção?

Uma reportagem da Revista Veja de 29 de Agosto de 2012, página 70, trata de uma lei que destinará 50% das vagas de universidades federais para alunos de escolas públicas. O principal argumento da revista é a suposta perda de qualidade no ensino e na produção intelectual do país, quando pobres representarem 50% dos alunos da universidade pública.

Fiquei com vontade de convidar todos aqueles que se sentem ofendidos quando leem reportagens agressivas, eugênicas, argumentando que as cotas abalam a qualidade do ensino superior, a solicitar uma avaliação do Quociente Intelectual (QI), a fim de averiguarmos se temos a capacidade de estragar a excelência do ensino superior público, que a revista argumenta que temos. Vamos solicitar uma avaliação de nosso Quociente Intelectual para sabermos se precisamos que os mais inteligentes do ensino superior (ou seja, a metade que estudou em escola particular), nos ajudem a ter um desempenho semelhante a eles, pois  segundo Demétrio Magnoli, citado na reportagem “[…] é razoável pensar que alguns poucos alunos fracos em uma sala de aula alcançariam os demais através de um esforço maior. ‘Mas com a metade da classe fraca, quem terá de se adaptar serão o professor e o conteúdo’”. Para o Demétrio, 50% de cotistas significa 50% de alunos fracos.

Retomo a ideia de solicitar uma avaliação do nosso Quociente Intelectual, assim poderemos saber se é cabível argumentos como:

“Isso é possível [o alto rendimento das universidades públicas brasileiras] porque é para elas que conflui a elite cultural, acadêmica e intelectual – e, sim, quase sempre econômica também – do país. Agora, a Lei de Cotas poderá desviar esse curso. Em vez de ir para os alunos mais preparados, quase sempre egressos de escolas particulares, metade das vagas caberá aos menos preparados, vindos do deficiente ensino público”.

Tudo o que foi estudado para o vestibular seria então imprescindível para o exercício profissional referente ao curso que o aluno escolheu. Como já apontado em post anterior, esses alunos preparados a que a Veja se refere, não estão preparados para uma excelência acadêmica, mas sim, para a prova de algumas horas que acontece uma vez por ano e que bifurca os caminhos entre o público e o privado. (http://sociologiapolitica.com.br/2012/06/11/quer-uma-vaga-passe-no-vestibular-do-privado-para-o-publico-do-publico-para-o/)

Parece que a Revista Veja e os reprodutores-das-opiniões-e-condutas-que-ela-instiga, procuram bons eufemismos, ano a ano aprimorados, para chamar os alunos das escolas públicas de burros.

A Revista Veja afirma que a Lei de Cotas põe em risco a produção do conhecimento no país (página 71). E que conhecimento é esse? É um conhecimento que depende das 80 questões às quais uns foram bem treinados e outros nem tanto para responder?

Muitos acompanham os textos da Isadora Faber, do “Diário de Classe”. Imagino que a Revista Veja fique intrigada com uma menina da escola pública escrevendo tão bem. Digam a essa menina que ela pode ser a responsável pela futura escória do ensino superior, quando ela e os demais alunos da escola pública tiverem seu acesso facilitado.

A revista aponta que, atualmente, os alunos das escolas públicas tem dificuldades para ingressar na universidade particular não porque são pobres ”mas sim porque não conseguiram superar a barreira imposta pelo ensino deficiente que receberam”. Sim, receberam efetivamente um ensino deficiente… deficiente para passar no vestibular. Mas isso não quer dizer que os alunos de escola pública tenham deficiência cognitiva. Já está provado que não, mas se quiserem podemos repetir os experimentos de séculos passados para avaliarmos se o Quociente Intelectual varia de acordo com a classe social.

Em uma época não tão distante, em certo lugar da Europa, difundiu-se por certo tempo crenças parecidas. Acreditava-se que um tipo de gente prejudicava o avanço, a excelência, a cultura, a beleza desse lugar. Os argumentos eram “científicos”, como os da Revista Veja.

O último parágrafo da reportagem compara as notas entre alunos da escola pública e privada a partir do Ideb, que segundo a revista é o “principal termômetro da educação brasileira”, alegando que o desempenho dos alunos da escola privada é 70% maior do que os da escola pública. O Ideb porém, não avalia a articulação entre os conhecimentos adquiridos na escola e os conhecimentos utilizados nos cursos de graduação. Argumentos, maquiagem dos dados, que escamoteiam ideários de eugenia. Aliás, pode-se pedir para professores, mestres, doutores e pós-doutores responderem as 80 questões do último vestibular. Dificilmente esses professores acertariam a maioria das questões.

Já que o rendimento é melhor nas escolas privadas, aproveitem para melhorar o ensino superior privado e deixem os que não tem mérito e capacidade, segundo a última frase da reportagem, sucatearem o ensino público, tendo a chance de fazer uma faculdade. Por que aqueles que pagaram a vida toda, param de pagar? Por que aqueles que não tem condições financeiras tem que ir estudar em universidades particulares, sem benefícios como restaurante universitário, bolsa-permanência, auxílio moradia?

A vantagem de ter um meio de comunicação de larga abrangência é que você pode defender o que é melhor para o seu filho e o seu bolso. À noite poderá colocar a cabeça no travesseiro tranquilamente, pois sua revista, seus repórteres, seus editores, lhe deram bons argumentos para dizer que você está certo.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

18 comentários sobre “Lei de Cotas, Revista Veja e bons argumentos para seu filho continuar estudando medicina na Federal

  1. uma grnade Salva de Palmas a você… meu amigo! eu como aluno do ensino público… digo, VEJA… VEJA bem… depois Observe e depois Questione… as revistas são Re-vistas-Re-cortes-Re-feitas… VEJA o Grupo 1º de ABRIL … beneficia Quem? beneficiam Quem? …esses Meios-Medíocres de Co-participação Comunicativa… querem fazer xaCOTA do povão… parece que ainda querem chicote no couro da população desprivilegiada… acho que a próxima reportagem da revista será: ” O Ensino Público, não era melhor em Tempos de Escravidão? “

    Publicado por anovamente | 10 de setembro de 2012, 1:06 pm
  2. Acabei de ler a edição adaptada da edição impressa, sob o título: ” O grande erro das cotas nas universidades “, segue o link… ( http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/o-grande-erro-das-cotas-nas-universidades/ ) …e o interessante nesta história, é que agora são as classes mais altas que estão reclamando por seus “direitos”…

    Publicado por anovamente | 10 de setembro de 2012, 1:25 pm
  3. É doutor, aproveito o texto para pedir desculpas ao pessoal que se formou comigo. Segundo a Veja, eu os prejudiquei durante a graduação, já que estudei a vida toda em escola pública…será que eu preciso pedir desculpas também ao pessoal que trabalha comigo? Agora fiquei perdido…
    Sou da seguinte opinião: a graduação lhe ensina a ser auto-didata e lhe confere uma profissão, a única exigência é saber ler, escrever e fazer contas. O resto, todo o resto, se aprende durante a faculdade. Conhecer e decorar todas as Leis de Newton só me ajudou a responder uma ou duas questões durante o segundo grau e nos vestibulares que fiz…inteligência e competência são diferentes de acesso (ter lido ou estudado algo que outro não estudou ou não teve acesso por deficiência nos investimentos em escolas públicas), o que é facilmente corrigido, por incrível que pareça, após o “burro” ler sobre o tema, fazer algum exercício ou qualquer outra coisa. Não consegui encontrar, mas a UFPR elaborou um relatório comparando o desempenho entre cotistas e não-cotistas em seus cursos de graduação. Mas devem ter cometido algum erro incrível: os cotistas apresentaram desempenho semelhante ou superior em todas as áreas…agora, que a Veja nos esclareça: não ter aprendido alguma lei de física durante o segundo grau porque não teve contato com impede o aluno de aprender isso durante a graduação? Só se for para o incompetente do jornalista que assinou a matéria.
    Abraços!

    Publicado por silvioavila | 10 de setembro de 2012, 1:52 pm
  4. Parabéns pelo texto, muito bom! Mas de qualquer maneira venho pensar que o sistema de cotas é mais um tapa peneira do governo, mais uma estratégia para acalmar a massa que, manipulada, acaba no fim pensando que fez uma conquista. Conquista de verdade, vai ser quando exigirmos e recebermos melhoria no ensino básico. Embora eu não tenha em mãos estatísticas de universidades, é extremamente visível a enorme desistência que ocorre principalmente dentro das áreas exatas e tecnológicas, uma vez que essas demandam uma carga muito grande de estudo e também de conhecimento prévio, o qual não acaba sendo ‘satisfatório’ em alunos de escola pública. Embora seu texto não pareça pretender discutir a questão das cotas, mas sim fazer uma crítica à Veja, acho pertinente ressaltar isso. Aluno cotista não é nada mais ou menos inteligente e não vai “baixar o nível do ensino”, mas que talvez tenhamos mais evasão… provável. Jogar o aluno lá dentro não é dar acesso a universidade. Dar acesso é garantir que ele tenha conhecimento suficiente para entrar (e por favor, ainda não temos parâmetros: vestibular é decoreba e enem ainda é resistência…) e depois garantir que ele fique. Dar cotas está fácil, a Dilma assina o papel, todo mundo comemora e ela sai com a pose de dever cumprido. Mas até agora não vi investimento em ensino fundamental e nem aumento no número de bolsas. O aluno entra e aí? Vamos abrir os olhos, aumentar o número de cotas é realmente mudar quem vai ser médico e quem vai para a fábrica? Para mim, o cotista que se formar médico daqui a 6 anos é tão guerreiro quanto aquele que conseguiu passar no vestibular ano passado.

    Publicado por Lui | 10 de setembro de 2012, 10:36 pm
    • compartilho dessa idéia de “tapa peneira” que o colega Lui colocou… mas penso tbm que a Cota, é uma atitude de emergência, de incluir de qualquer jeito os desprivilegiados… e é importante isso, já é um caminho, pois é uma quebra de paradigma, mas muitas pessoas ainda esperam o desempenho dos cotistas para “validar seus preconceitos”. E com relação ao que comentou ” (…) é extremamente visível a enorme desistência que ocorre principalmente dentro das áreas exatas e tecnológicas… “, penso que independe se era aluno de ensino público ou privado… determinados cursos o nível é alto para todos os alunos, como nos cursos de Física e Matemática por exemplo. E acredito que a verdadeira mudança no país, será quando houver investimento em todo o ensino público, nos professores e na infraestrutura das escolas… mas isso é mudança de Cultura, a mentalidade do brasileiro tem que mudar, então, enquanto isso não acontece, discutimos as Cotas…

      Publicado por anovamente | 11 de setembro de 2012, 7:10 pm
    • Oi, Lui. Obrigado pelo comentário! É sempre produtivo quando comentam e podemos conversar mais um pouco sobre o post!
      Isso é fato, toda política pública, ou seja, tudo aquilo que diz respeito à ação ou não ação do governo, como o estabelecimento do vestibular, a implementação de Lei de Cotas, o REUNI, o PROUNI, enfim…. sempre são implementados pensando na próxima eleição. Infelizmente as coisas tem funcionado assim (ou sempre funcionaram). Sendo assim, é mais um Tapa peneira, como você falou.
      Quanto às desistências, de fato, os cursos de exatas devem dar muito trabalho para quem não teve matemática básica no ensino médio, mas de qualquer forma, não existe uma data limite que defina até quando podemos aprender matemática básica, por exemplo. Infelizmente quando usamos estatística para definir se a implementação das cotas é positiva ou negativa, esquecemos de pensar em como o João, a Maria, o José, enfim, cada um, vai se sair. O que as estatísticas não acompanham é a libido de cada aluno, o que cada um investe para aprender desde matemática básica até cálculos extremamente complexos.
      O Silvio postou aqui nos comentários alguns dados. Eles são interessantes, vale à pena conferir… mas devemos lembrar que também são estatísticas…
      É importante ressaltar o que você coloca: não há investimento no ensino básico, fundamental… E só uma política de cotas não basta. O problema é o viés dos argumentos que utilizamos para defender nossos interesses…
      Obrigado pela sua contribuição,

      Publicado por viniciusarmiliato | 15 de setembro de 2012, 9:34 am
  5. E quem estudou em escola particular com bolsa, faz o que?

    Publicado por Henrique Alencastro Puls | 12 de setembro de 2012, 11:09 pm
    • Aproveita!!!
      A questão que mais me toca é o fato de a revista colocar que as pessoas da escola pública prejudicam o ensino superior. Nada contra estudar em escola particular! Nada contra quem estuda em escola particular!
      Um abraço!

      Publicado por viniciusarmiliato | 13 de setembro de 2012, 7:17 am
  6. com certeza, a questão não se público é melhor ou pior que privado… ninguém é melhor que ninguém, mas é essencialmente necessário a igualdade de oportunidades… porque afinal, se ficarmos nessa discussão “do melhor ou pior” vamos alimentar mais o problema e não florescer as soluções…

    Publicado por anovamente | 13 de setembro de 2012, 10:05 am
  7. Excelente tema para explorar mais idéias e amadurecer, com proveito para aplicação mais responsável destinada às pessoas excluídas ou extigmatizadas. Eu estava na aula em que o Renato Perissinotto explorou com competência esse tema, que, aliás, pode fazer-me enxergá-lo com outro prisma.
    Mas, quanto à matéria da Veja, realmente é muito precária, muito superficial, desprovida de uma pesquisa mais coerente! É uma pena que este assunto tenha sido tratado por uma mídia no mínimo obscura.
    Realmente não sou tão contra as cotas, desde que tratadas com seriedade e comprometimento maduro da gestão pública. Mas, do jeito que as bolsas e cotas são exercidas aqui no Brasil, sem acompanhamento sério, dá muito motivo pra acentuar ainda mais a estigmatização. Se não tomar cuidado, o Brasil será o país não somente do desfile de carnaval, mas do desfile das bolsas também!

    Publicado por Eder Silva | 14 de setembro de 2012, 6:34 pm
    • Oi, Eder. Nào é uma mídia obscura. A Veja esclarece bem, com dados científicos para que saiamos reproduzindo bem claramente seus interesses eugênicos.

      Eu não tenho nada contra o carnaval! E as bolsas também… que desfilem, sabem, subam em carros alegóricos… eu só não gostaria que meus amigos da escola pública deixem de cogitar a possibilidade de cursar uma graduação porque eles “prejudicariam o ensino público”…. que é deles também!

      Publicado por viniciusarmiliato | 15 de setembro de 2012, 9:38 am
      • Olá Vinicius, quando mencionei sobre a Veja, quis dizer que, apesar de apresentarem dados científicos, eles deixam muitos outros fatores de lado. Estudei em escola pública e particular, tive acesso ao ensino superior em universidade pública (de manhã), trabalhava à tarde, e fazia faculdade particular a noite. O que observei foi justamente o fato de existir desistência com índices semelhantes nos dois ambientes (publico e privado). Mas, se realmente as pesquisas apontam que essas desistências são na maioria de bolsistas ou cotista, acho que deve-se levar em conta o fato de que, geralmente, os cotistas e bolsistas tenham que trabalhar, e não sobra muito tempo para estudar fora do ambiente acadêmico. Lembro que eu chegava moído de canseira na faculdade, e, depois de 2 anos, chegou um momento que tive de abrir mão de um dos cursos… Acho que deveria ser melhorado a qualidade do ensino, mas também, na questão cultural, acredito que seria interessante estudar uma maneira de as empresas beneficiarem (incentivarem) seus funcionários/empregados dando-lhes alguma condição melhor para levarem adiante seus estudos, amenizando esses altos índices de desistência. Enfim, acredito que a culpa não seja dos desistentes, sejam eles bolsistas / cotistas ou não… Acho que a questão é muito mais complexa do que o exposto pela revista Veja, que na minha opinião, seria mais sensato que reVEJA seus conceitos. Abraços valew pela oportunidade em poder participar deste assunto tão importante.

        Publicado por Eder Silva | 10 de novembro de 2012, 3:14 pm
  8. Vinícius, um exame de QI não é necessário para averiguarmos se os 50% de alunos egressos de escolas públicas têm menos competência que os egressos do ensino particular: já existe o vestibular e o ENEM que comprovam isso! A

    Publicado por Ingrid | 9 de novembro de 2012, 1:01 pm

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