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Convidados, Cotidiano

Cuba, vivendo o socialismo – Parte 2

ENTRANDO NO CLIMA

Bem, chegamos à casa da Izelda (a mãe do Reynaldo), onde vivia a Izelda, Maria (vó do Reynaldo e mãe da Izelda) e o Reynaldo quando morava em Cuba. Eu ainda estava com pensamentos floridos, porém os cenários estavam ficando diferentes. Chegamos, era um apartamento em um pequeno prédio e nem um pouco bonito, era pequeno mas era apenas o começo pois foi um dos melhores lugares que fiquei. Instalações elétricas, de gás, qualidade da água, tudo muito precário. Por sorte (e que sorte, pois mal sabíamos que esta sería uma das duas vezes que tomamos banho de chuveiro) tomamos banho de chuveiro, mas gelado porque a instalação elétrica não suportava o chuveiro, ficamos um pouco na casa do Reynaldo e da sua mãe a Juliana ficou ali e depois eu fui para a casa da irmã do Reynaldo, a Maribel. Apesar de ser meio perto um amigo do Reynaldo nos levou de carro, o nome dele era Manolito, muito boa pessoa e sempre que precisávamos e claro quando ele podia, nos levava aos lugares um pouco mais distantes. Tive sorte também porque o Manolito sempre me levava para a universidade de manhã e eu dava US$ 1 por dia para ele.

Quando cheguei na casa da irmã do Reynaldo, onde eu iria ficar era um pouco pior, a casa era bem menor e uma infra-estrutura ainda pior. Lá vive a Maribel e duas crianças um menino de 12 um menina de 5, a menina era muito sarna, seus filhos. No começo foi difícil para se acostumar, praticamente não tinha comida o banheiro era apenas um vaso com um espaço para tomar banho, e não tinha chuveiro (foi 1 mês tomando banho de caneca, salvo as 2 exceções), a porta do banheiro era uma cortina de plástico que ficava praticamente do lado da cama da mulher, não sei se foi o psicológico mas eu e a Juliana depois de uma semana sem defecar procurávamos sempre um hotel.

Foi aqui que eu aprendi a tomar banho de caneca, técnica muito interessante que aprendi para uma futura eventualidade, também aprendi a dar valor na água potável. Usávamos um balde para buscar a água no galão (200 lts de metal) reservatório fora de casa, esquentamos uma chaleira de água para aquecer um pouco a água, e assim que atingimos a temperatura desejada vamos ao banheiro com uma caneca do tamanho de uma lata de leite ninho, duas medidas para se molhar, e seis a sete medidas para nos enxaguar e basta! Agora é a vez do próximo.

Na primeira manhã eu comi a única coisa que tinha na casa que era um pão flauta que parecia aquelas roscas de polvilho que esfarelam e viram em nada na boca com um copo de leite e chocolate que quase não dava para tomar de tanto açúcar. A culinária deles é muito forte tudo muito salgado ou muito doce. Depois de um café da manhã “espetacular” o Manolito nos levou com o Reynaldo para o centro para ver os cursos de Espanhol, era U$200 p/ 2 semanas e U$250 p/ 4 semanas, como eu estava entrando um pouco mais tarde, paguei U$225 e fiz 3 semanas, muito mais em conta que na Espanha. Como o Reynaldo iria voltar para o Brasil em 2 semanas e nós iríamos ficar, ele nos deu algumas dicas, mostrou alguns lugares, durante estas 2 semanas, principalmente para a Juliana por que eu comecei o curso que era de segunda a sexta das 9 as 12:30 e ficava mais sozinho, a maioria do que aprendi foi por osmose, vivendo e não apenas escutando as pessoas, apesar de que isto também foi muito importante. Uma das coisas que o Reynaldo me ensinou foi pegar um carro, espécie de lotação para cubanos para pagar apenas 1 ou 2 pesos para voltar da aula para casa eu tinha que falar o mínimo possível para não descobrirem que era estrangeiro, apenas falava “41 y 42”, o cruzamento das duas ruas onde eu descia, mas usei este transporte apenas nos primeiros dias ou quando estava cansado de caminhar por outras áreas.

O curso era bom, mas nos padrões cubanos, quase sem infra-estrutura. Tinha muito alemão, americano, tinha de tudo, na minha sala tinham 2 japonesas, 1 grego, 1 suíço, 2 canadenses, 1 BRASILEIRA que também era aluna da Teresita em uma universidade aqui , e outros. O pessoal da minha sala era legal mas o problema de todas as pessoas que estavam fazendo os cursos de Espanhol lá era que eles só ficavam falando em inglês e eu estava lá para aprender Espanhol e não inglês. Por exemplo no primeiro dia eu tive que ficar conversando só em inglês com um alemão porque ele não sabia praticamente nada de Espanhol. Então fiquei um pouco mais isolado e saia apenas com quem falava Espanhol, foi até melhor assim porque eu conheci Havana muito bem pois andava por tudo (Foi 1 mês como andarilho), da universidade até a casa dava 1:30 a 2:00 a pé, fiz praticamente todos os caminhos possíveis e as vezes eu ia para Havana Vieja que é o ponto Turístico mais importante de Cuba, é como se fosse um pelourinho em salvador mas muito maior e com um patrimônio arquitetônico incomparável. Havana tem um patrimônio gigantesco porém muito mal conservado pela falta de recursos, o está mais conservado e/ou recuperado foi a UNESCO que financiou, e ainda tem alguns prédios sendo restaurados. Muita coisa pode e vai ser perdida por falta de verba para restaurar todos os casarões.

Um dia cheguei mais cedo a aula pois o Manolito tinha outros compromissos e precisava ir mais cedo. Fiquei perambulando pela universidade e passando por algumas salas encontrei uma senhora velhinha que fazia a limpeza e também vendia para os estudantes alguns biscoitos que ela fazia para tentar ganhar um dinheiro extra, logo comecei a conversar com ela e me disse que estava tendo algumas dores de cabeça. Como eu havia levando um “carregamento de medicamentos básicos” logo tirei uma cartela de tylenol da mochila e ofereci para ela, no mesmo momento ela pediu para eu falar baixo pegou na minha mão e me levou para uma sala, parecia que eu estava entregando algum tipo de droga ilícita, só depois de trancar a porta ela me explicou e voz baixa que ela não poderia aceitar isso “em público” pois ela corria o risco de alguém ver e denunciar ela a polícia, pois um cubano não pode aceitar nada dos estrangeiros, pois caracterizam isto como perturbação dos turistas o que desestimularía-os a retornarem, e o governo precisa do dinheiro que eles trazem. A senhora aceitou a cartela de tylenol e insistiu em me dar uma bolacha que acabei aceitando.

Com minhas caminhadas foi possível observar e questionar coisas como, o sistema de saúde deles, pois falam tanto em medicina preventiva mas o que se vê de esgoto por cima das calçadas é preocupante. Isto me deu uma pista de um dos motivos porque todos compram sapatos com uma sola muito grossa tipo plataforma, até porque pela durabilidade não é o motivo, pois a Juliana comprou um sapato lá que quase não durou 01 mês. Conheci alguns lugares onde vendiam umas mini pizzas perto da Universidade e o estrangeiros se encontravam, frequentei o local por motivos óbvios, custo benefício da alimentação, o único estrangeiro com quem eu eventualmente saia para conhecer a cidade foi o grego que estava na minha classe que claro não sei falar tampouco escrever seu nome.

Tudo em Cuba é em torno de 3 á 4 vezes mais caro que aqui e praticamente tudo só se consegue comprar com dólar porque o “peso cubano” não vale quase nada, são 22 pesos cubanos para 1 dólar e o salário gira em torno de 5 a 10 dólares por mês porque um médico geralmente ganha + ou – 16 dólares. A população sobrevive apenas porque quase todos tem um parente que conseguiu fugir ou está em alguma missão e está trabalhando no exterior, apesar que na minha opinião mesmo quem trabalha em missões não se dá bem. Por exemplo a minha professora Teresita que veio em missão para trabalhar na Universidade Tuiuti aqui em Curitiba, 75% do salário dela na universidade vai para o governo Cubano e ela ainda tinha que pagar a sua passagem, ela vive apenas com os 25% restantes do salário e ainda manda dinheiro para seus dois filhos em Cuba (reclama do teu salário agora amigo!!!!) no mês de janeiro 2001 que ela voltou para Cuba para visitar os filhos, o governo não deixou ela retornar ao Brasil, ela conseguirá apenas se receber uma carta de convite de alguém aqui no Brasil provando que será responsável e pagará tudo para ela, como se fosse um filho, por um período de até 1 ano, com o Reynaldo aqui estão providenciando tudo para que ela possa vir na responsabilidade dele porque já faz 3 anos que ele está no Brasil e já tem uma identidade brasileira.

A vida em Cuba não é muito fácil porém a população é muito orgulhosa do país porque eles tem educação e saúde grátis e razoavelmente bons, porém a educação é muito relativa porque toda a informação é muito direcionada e filtrada para o que o governo quer, na internet quase tudo é censurado, isto para aqueles que tem acesso a este privilégio, pois é bastante difícil um cubano ter acesso a internet entre outras coisas. A saúde também é questionável porque saneamento básico não se vê, a alimentação é pobríssima, e para um cubano comprar o remédio que precisa ele só pode comprar nas farmácias para cubanos que parece um cenário de guerra porque mesmo que o cubano tenha dinheiro (coisa difícil de acontecer) ele não pode comprar em uma farmácia para turistas nem pedir para um turista comprar para ele porque se um policial ver o cubano vai preso e fica sem o remédio. Outra coisa é a questão de abastecimento de água que está ficando cada vez pior, pois vem água um dia sim outro não e uma água que tem que ser fervida e fica com umas coisas brancas no meio muito esquisitas que ninguém me explicou o que era.

Também tive a oportunidade de conhecer os mercados para os cubanos e o o sistema para os cubanos fazerem compras nele. Toda família cubana ganha uma pequena caderneta no início do ano, parecida em formato com nossa carteira de trabalho em tamanho, ali está descrito de acordo com o tamanho e composição da família o que ela tem direito a comprar por mês durante o ano. Neste mercado os preços são reduzidos ao ponto de serem um pouco mais coerentes com a remuneração da população, tambem estabelece uma cota de compra, por exemplo 1 kg de açúcar por mês, 5 kg de arroz, 2 kg de feijão….. A carne naquela época era restrita as famílias tinham direito a comprar apenas duas vezes por ano uma perto da Páscoa e depois na época do natal. Caso a pessoa queira qualquer coisa além do básico poderá comprar apenas nos mercados que não são do governo e só aceitam dólares. Um dia fui comprar carne para fazermos na casa da Maribel, e paguei U$5,00 em uma bandeja com três coxas e sobre coxas de frango (isto em Janeiro de 2001!!!!)!!!

continua…

Fabio Sandi é bacharel em turismo (Universidade Positivo) e especialista em negócios internacionais (FAE Business School). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

2 comentários sobre “Cuba, vivendo o socialismo – Parte 2

  1. Olá Fabio, muito interessante. Tenho vontade de conhecer Cuba. E ouço muitas coisas, vi alguns documentários e filmagens que mostram um quadro parecido com o seu relato. Parece que é isso mesmo que acontece por lá. A economia deles terá de se abrir. O que a revolução tinha de fazer, já fez a muito tempo, os revolucionários caíram no engano de perder a hora de ir embora. Pelo visto o país apodrece porque eles “não largam o osso.” Uma coisa que me intrigou no seu relato, porque você não poderia ser descoberto enquanto turista andando de ônibus? Como é a questão da violência por lá? Essa é uma coisa que não vejo quase nada sobre, e me intriga.

    Publicado por kellyheloise | 9 de setembro de 2012, 8:42 am
  2. Bem Kelly, acho que voce está pegando a moral da história. O sistema na teoria quer dividir a riqueza entre a população, mas na prática divide a pobreza, andando pelas ruas e conversando com o povo fica ainda mais claro isto, bem como a enorme diferença social entre 0,05% e o restante do povo, se nós vivemos contraste aqui, lá nem conseguimos ver pois a elite está escondida de tão pequena. Fiquei intrigado em saber quando cheguei lá que os filhos do Fidel estudam no exterior, porque será? O país não tem um ótimo sistema de ensino??????
    O transporte que eu disse que não poderia ser usado por turistas não é um onibus mas sim carros, que funcionam com uma espécie de perua, lotação sei lá…. e só os locais usam isto, eles querem que o turista use o taxi normal para gastar o dinheiro no país.
    Com relação a violência devo admitir que tive um pouco de inveja deles, de modo geral o país é bastante seguro e eles adotam um sistema que seria bastante útil aqui no Brasil, atira antes, pergunta depois. Resolveria e preveniria muitos problemas na minha opinião…

    Publicado por fabiosandi | 10 de setembro de 2012, 7:47 pm

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